guardar

 

mala-e-saco

Gosto de olhar e de pensar sobre os objectos do dia-a-dia e de os tirar daquela ingrata situação de “dado adquirido”, por regra sinónimo de alguma indiferença. É pois nessa linha de pensamento que surge este post.

Falar de malas e de sacos … é falar de mulheres!
Por isso, gosto de imaginá-los como uma das formas de materialização daquele profundo e inconsciente sentimento de “guarda” enraizado nos genes femininos, certamente relacionado com a nossa capacidade de “guardar e transportar” durante nove meses o bem mais precioso, como é a nossa descendência.
Absurdo ou não, a verdade é que estes objectos fazem parte do dia-a-dia feminino, e transportam o útil, o inútil e o fútil, se compararmos com a vertente masculina que leva consigo essencialmente o útil.
Seja como for, que “graça” é que tinha a nossa vida sem a possibilidade de ter várias malas, a escolher consoante a roupa, o sapato ou a estação do ano? Ou várias bolsas onde “guardar” tudo e mais alguma coisa? Ou ainda, sem aquele saco onde se transporta o almoço, o lanche, a água, um livro ou aquela peça de roupa que não se resistiu a comprar?

Eu assumo esta minha vertente feminina: gosto de malas e preciso sempre de um saco!

 

reportagem

 

A SIC Notícias transmitiu na última quarta-feira, 17 de Agosto, uma Reportagem Especial orientada pelo jornalista Henrique Cymerman intitulada As escravas do século XXI.

O assunto dessa reportagem está assim descrito no site da estação:

Em dois anos o Daesh já cometeu milhares de crimes de guerra, desde a declaracão do seu Califado na Síria e no Iraque. O povo Ya-zidi é das principais vítimas. Milhares de pessoas assasinadas, normalmente decapitadas, e quase sete mil mulheres e crianças foram transformadas em escravas e vendidas nos mercados. Henrique Cymerman esteve no norte do Iraque com escravas sexuais libertadas recentemente, que apresentam um testemunho do terror.

É uma reportagem dolorosa e que impressiona, sendo incompreensível que o mundo permita situações destas em pleno século XXI.

Porém, no meio de tanta maldade, existem pessoas que arriscam a vida para minimizar a dor dos outros. É o caso da activista israelita Lisa Miara, fundadora da Springs of Hope, organização que se dedica a ajudar aquele povo tão martirizado e especialmente as suas mulheres e crianças.

Deixo aqui o link que dá acesso a esses 23 minutos de reportagem.

 

sem escolha

 

Como mulher e cidadã deste país, tenho a liberdade que quero e nada nem ninguém me impede de fazer o que quiser, a não ser eu própria e o que me faz sentir confortável ou não. Aliás, não precisamos de pensar na nossa liberdade, porque ela é um dado adquirido neste século XXI. Mas bem longe desta realidade estão muitos países do médio oriente, onde a vida das mulheres é controlada pelas famílias, pelas leis vigentes e tradições fortemente influenciáveis pela moral e pelo poder religioso, aspectos que têm ainda mais força fora das grandes cidades.

A escolha deste tema, vem a propósito de um filme que passou recentemente nos cinemas, “Mustang“, da autoria da cineasta turca Deniz Gamze Ergüven, e de um livro em Bd que acabei de ler intitulado “Love story à l’iranienne” com textos de Jane Deuxard e desenhos de Zac Deloupy.

Sobre o filme, e para quem não o viu, é passado na Turquia actual e conta a história de cinco jovens/adolescentes, irmãs e órfãs, que ficaram ao cuidado de uma avó e de um tio. Uma sucessão de episódios leva à vontade de as “despacharem” ou seja, casá-las. Uma teve a sorte de casar com quem gostava e namorava às escondidas, outra entra apaticamente num casamento arranjado pela família, a terceira suicida-se porque não concebe uma situação semelhante, e as duas que restam, inconformadas, fogem, num final que nos alimenta a esperança mas que, caso ocorresse na vida real, nos levaria a questionar qual seria o seu futuro. No meio desta história entram muitos aspectos que regem aquela sociedade, tal como a relação entre sexos, os testes de virgindade, os abusos feitos às escondidas, etc.

O livro, por sua vez, descreve o Irão actual e revela o conteúdo de entrevistas realizadas clandestinamente e sempre com algum risco pela autora e jornalista, a jovens entre os 20 e 30 anos, que aceitaram falar-lhe das relações amorosas, dos seus sonhos, desejos e também da política vigente e da força que o poder religioso tem sobre a sociedade.

O que ambos nos transmitem tem muito em comum na forma como as mulheres são vistas e tratadas nestes dois países. Gostava de destacar vários aspectos, apesar de alguns serem do conhecimento da maioria:

– O normal são os casamentos combinados pelas famílias, logo casamentos sem amor; para a família da mulher é fundamental que o futuro noivo tenha emprego estável, apartamento e carro.

– Teoricamente não pode haver contactos sexuais antes do casamento. Mas por vezes existem aproximações e explorações entre namorados. Se a mulher não for virgem, e uma vez que é grande a probabilidade da família do noivo pedir um teste de virgindade antes do casamento, se tiver dinheiro fará uma operação para reconstituição do hímen. Muitas, por não terem capacidade monetária, suicidam-se por medo dos pais, da família e do futuro marido. Mesmo que a mulher diga e insista que é virgem, a palavra dela não vale nada e o teste normalmente é pedido e realizado. Excepcionalmente, os noivos provenientes de famílias menos tradicionais e em que há a certeza de que o teste de virgindade não é pedido, mantêm uma vida sexual activa, mas sempre às escondidas;

– As mulheres foram educadas para servir o homem, para se preocuparem em tratar da casa, da família e em estarem bonitas. Os homens ditam as regras nas ruas, elas ditam-nas em casa.

 

Mas no Irão, particularmente, sendo uma sociedade muito mais tradicional e fortemente influenciada pelas leis dos líderes religiosos, outras regras se impõem:

– Homens e mulheres não podem frequentar espaços públicos sem estarem casados. Se o fizerem, podem ser obrigados a casar. Apenas no campus universitário, único lugar onde existem aulas mistas, isso é possível sem levantar suspeição;

– A falta de “alquimia” e de amor nos casamentos tradicionais leva actualmente a muitos divórcios, apesar das implicações morais para a mulher e do valor do “mehrieh” estar a aumentar consideravelmente. Este valor é determinado pelas famílias antes do casamento e é sempre dado pelo homem à mulher em caso de divórcio, mesmo que a iniciativa seja dela. Porém, as mulheres divorciadas são vistas como traidoras pela família;

– Os divorciados podem ter uma autorização dada pelos mollahs (líderes religiosos islâmicos) para “frequentarem” outra pessoa, sem risco de serem presos. Assemelha-se a um casamento temporário, mas com a condição de não viverem juntos. Uma mulher divorciada dificilmente é aceite por outra família para casamento;

– Estes mollahs, por sua vez, podem ter contactos sexuais fora do casamento tradicional, pois criaram leis para eles próprios. Instituíram o “sigheh”, que são autorizações temporárias, que podem durar dias ou anos, e que lhes permite, por exemplo, ir ter com prostitutas fora do país;

– A infidelidade é totalmente proibida, especialmente nas mulheres;

– Tudo é proibido, mas quase tudo se faz às escondidas: amar, fumar, dançar, etc;

– Existem a circular na rua os “bassidgis”, milhares de homens à paisana que tudo controlam relativamente aos costumes e comportamento de homens e mulheres;

– Para as mulheres é obrigatório o uso do véu e de um casaco ¾ quando estão na rua. Na via pública, existem mulheres que têm como função controlar os trajes femininos, nomeadamente a altura das calças, pois os pés não podem ser mostrados;

– É comum, e um sinal de poder e de emancipação, uma mulher iraniana fazer uma operação estética ao nariz para o arrebitar. Para elas é sinónimo de beleza e, consequentemente, a possibilidade de arranjarem melhores pretendentes e um melhor casamento;

 

Mas também noutros campos, o controle é severo. Deixo aqui alguns exemplos:

– Só é permitida a música em cerimónias religiosas, mas esta ouve-se e toca-se às escondidas noutros locais. Se quem os toca for apanhado, os instrumentos são confiscados; mas depois adquire outro, pois, apesar de proibidos, estão à venda;

– As cadeias de televisão estrangeiras são igualmente proibidas, mas através de uma ligação via net, muitas pessoas contornam isso por períodos limitados. A televisão por satélite também é proibida, mas cerca de 70% das famílias possui uma parabólica. De vez em quando aparecem brigadas de homens que circulam pelos telhados a destruí-las ou a roubá-las. E depois compram-se mais, porque também estas estão à venda….

– Os animais domésticos, nomeadamente os cães, por serem considerados impuros, são proibidos, abatidos e os donos sancionados. Porém, pessoas com mais posses têm-nos às escondidas….

 

Este resumo é sintomático do controle e da falta de liberdade que existe nesses países e sociedades. A esperança de mudança está latente na maioria dos jovens, mas eles têm a noção de quanto vai ser difícil quebrar com as tradições, tão ou mais fortes que o poder político. Levará muitas gerações.

Quem se deu ao trabalho de ler este post até aqui, poderá estar a pensar: nada disto é novo, já sabemos que é assim. Certo, mas a verdade é que realmente não sabemos, nem fazemos ideia do que será este tipo de vivência. Porque apesar das incongruências que existem na nossa sociedade, a verdade é que temos livremente acesso a tudo. E temos o mais importante: a liberdade de escolha, a liberdade de poder dizer sim ou não e a liberdade de amar quem queremos e de exprimir livremente os sentimentos que nos vão na alma.

Mesmo assim somos por vezes tão insatisfeitos e resmungões!

 

 

zapping

 

Quando um homem se senta no sofá, pega no comando da televisão e faz um zapping, é possível que esse acto conduza ao objectivo a que se propôs, ou seja, o encontrar um programa para ver.

Mas quando uma mulher vai para o sofá e pega no comando, ou já sabe exactamente o que quer ver, ou então o processo não tem essa objectividade e o que se passa a seguir é muito curioso.

Sendo a mente feminina bem mais complexa, é continuamente palco de um encadeado de pensamentos sem princípio nem fim, em que um pensamento leva a outro, este a mais dois ou três (vindos do passado…. ou das expectativas!), depois volta de novo o tal que já tinha aparecido… e obviamente aqueles sempre presentes relacionados com o trabalho, os filhos, a casa, o jantar, o cão, o gato… etc, etc.

A maioria das mulheres saberá do que estou a falar e do filme sem nexo em que por vezes se transforma a sua cabeça.

Quando ela faz um zapping, a atenção centra-se no écran, cenário onde desfilam sequências de imagens (que raramente lhe permitem identificar o programa, mas isso também não é importante!), mas que tem alguma semelhança com o processo que ela constantemente acolhe na sua cabeça. A grande diferença aqui, está no facto de, com grande facilidade, ela ter o controle da situação, bastando-lhe para isso carregar no botão do comando e passar ao canal seguinte, num processo silencioso do tipo: “passa!”. ..”já chega”…”não!” … “fora!”…”que horror”…”este não interessa”…e assim por diante. Durante esse tempo esquece-se do seu “novelo de pensamentos de estimação” e por algum tempo a cabeça fica mais limpa e é alvo de um arejamento. Como se muitos dos pensamentos ficassem para trás juntamente com os canais da televisão!

Se este processo se desenrolar com ela confortavelmente estirada num sofá, funciona um pouco como terapia e como um spa caseiro. E é muito possível que, depois de passar por dezenas de canais, nada tenha encontrado para ver porque, objectivamente, a real intenção do seu zapping não é  essa. Porém, sente-se melhor e mais relaxada.

A partir daqui, são duas as hipóteses mais prováveis: ou adormece no sofá e continua o relaxamento, ou volta para a sua cabeça e para o seu eterno “filme”!