juliet, nua

 

 

Juliet, Nua é um filme com bons actores, bons diálogos e que, como todos os filmes românticos nos conta uma história de amor. Nele encontramos um Ethan Hawke distante da juventude de Antes do amanhecer (1995), longe do jovem adulto de Antes do anoitecer (2004) ou do adulto de Antes da meia noite (2013). Neste filme, ele faz o papel de um ex-cantor rock, já grisalho e capaz de ser avô. Ao seu lado, partilhando o filme realizado por Jesse Peretz, estão os actores Rose Byrne, Chris O’Dowd e Azhy Robertson, em bons desempenhos.

É um filme discreto, sem efeitos especiais e habitado por gente comum com problemas semelhantes aos nossos. Talvez por isso estas palavras e a referência a alguns aspectos que me chamaram a atenção…

…como pode ser mentalmente limitativo o enfoque num ídolo, havendo o perigo de criar uma teia de ideias e certezas que nada têm a ver com a vida desse ser que se idolatra. Além disso, pode levar a um alheamento da realidade e a “esquecer” as pessoas que estão por perto;

…a vida é uma grande mestra, pelo que muitas vezes nos leva a encontros que vão ter um papel importante na forma de lidarmos com a “bagagem” acumulada e com os fardos que nos acompanham. Gosto de pensar que são as “pessoas-campainha”, porque accionam mecanismo internos que facilitam olhar de frente para o que tem que ser enfrentado, especialmente em nós próprios e, com o tempo, permitirem que nos tornemos melhores pessoas;

…e por último fala-nos de amor, talvez do verdadeiro amor, daquele em que uma das partes se afasta para dar espaço porque ainda não é o momento desse amor ter o seu tempo. Nem sequer há a certeza que ele possa acontecer, porque o que está “no meio” é prioritário e tem a palavra. Entretanto, a vida continua…

É uma película simples que me agradou bastante, para além de possuir uma agradável banda sonora. Alguns dos temas são cantadas, e bem, pelo próprio Ethan Hawke, o que contribui igualmente para o interesse do filme.

Apenas uma dica: não sair do cinema mal começa o genérico!

 

 

 

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harmonias

 

 

Harmonizar continentes, países, raças, sexos, ideias e sentimentos faz parte do imaginário de muitos de nós. Porém, neste mundo um tanto “cor-de-rosa” em que habito, isso é simples através da música e de algumas vozes que se harmonizam em duetos, como as que hoje partilho.

– No video inicial, Robert Plant, ex- Led Zeppelin e Alison Krauss, cantora country e violinista, juntaram o Reino Unido e os EUA no álbum Raising Sand (2007). Umas das faixas intitula-se Your long journey, um tema antigo e já cantado por outros artistas. Mas as suas vozes harmonizam na perfeição!

 

– Também Vanesa Martín, espanhola, se aliou no final de 2017 ao angolano Matias Damásio e em conjunto cantaram Porque queramos vernos, um dos temas que integra o álbum Munay, editado por esta cantora em 2016.

 

 

– E por último, sugiro o tema Naturalmente Naturalmente incluído no álbum Já É (2015) do artista brasileiro Arnaldo Antunes, aqui cantado em parceria com a portuguesa Manuela Azevedo, um dos elementos do grupo Clã.

 

 

E assim, discretamente, talvez o mundo tenha ficado um pouco mais harmonioso neste domingo à tarde….

 

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No início deste blog, em 2016, partilhei um post com alguns temas igualmente cantados em dueto. De certa forma, o post de hoje complementa esse, pelo que seria interessante passarem por ele e ouvirem as parcerias aí incluídas e que também aprecio bastante.

 

 

 

 

quatro mãos

 

mãos

 

Falar deste maravilhoso instrumento que são as nossas mãos, é falar de precisão, coordenação, harmonia, perícia, elegância, expressão, sentimento, habilidade e muito, muito mais. Também poderia referir o lado sombra das mãos, mas tal não é relevante para hoje.

Por fazerem parte do nosso corpo são uma forma de nos relacionarmos, de partilhar sensações, de sentir o que nos rodeia, de expressar sentimentos e de materializar as capacidades que nasceram connosco (e com elas!), desde que estejamos dispostos a fazer essa exploração ao longo da vida.

Se uma parte da nossa sensibilidade depende da relação que estabelecemos com os nossos sentidos – relação que pode ser mais ou menos íntima – de certa forma as mãos/tacto são a vertente mais dinâmica dessa relação. Mas todos os sentidos “brincam” e cooperam entre si, em diálogos vividos de uma forma activa e relativamente consciente.

Num músico instrumental, a audição brinca com os sons através das mãos. E estas dançam sobre as teclas de um piano, nas cordas de uma guitarra ou na sensibilidade de qualquer outro instrumento. Hoje, porém, escolho o piano e a guitarra portuguesa, e as mãos da pianista Maria João Pires e do guitarrista Carlos Paredes. Porque neste dia 23 de Julho, a primeira completa setenta e quatro anos de vida e o segundo catorze anos que deixou de estar entre nós.

Dois artistas incríveis, dois lutadores, e quatro fabulosas mãos que encantam os nossos sentidos e a nossa alma.

 

 

 

Como portuguesa, lamento que Maria João Pires desiludida com Portugal e com as suas instituições, tenha saído do país há cerca de uma década, vivendo actualmente no Brasil. Mas a minha admiração por ela não diminuiu.

 

 

 

the only living boy in new york…

 

 

A frase que dá título a este post foi um dos temas do álbum Bridge over troubled water editado em 1970 pela dupla Simon and Garfunkel. Mas The only living boy in New York é também o título do último filme realizado por Marc Webb, agora em exibição nos cinemas.

Conta uma história simples, com princípio, meio e um inesperado fim, como convém a uma boa história. Fala de gente maioritariamente honesta e genuína, e fala de amor, de vários tipos de amor, seja do que se sente e mostra, do que flui no sangue e não se mostra, daquele que se dá porque mais não se pode dar, do amor vivido à distância, ou ainda do que ficou para trás e aí continua… à espera. Fala de amor, de amizade e de afectos.

É uma história-surpresa desempenhada por um grupo de actores jovens e menos jovens, como Callum Turner ou Jeff Bridges, que se desenrola ao som de numa excelente banda sonora. Pelo encadeamento, dinâmica das cenas e tipo de diálogos, pontualmente fez-me lembrar as películas de Woody Allen.

Diria que é um  filme “sem nada de especial”, mas que proporciona um momento agradável e nos faz sentir bem. Simplesmente isso.

Sendo essa uma boa sensação, deixo a sugestão!

 

 

 

uma música

 

 

Ontem partilhei um filme…e hoje partilho uma música!

Aprecio o “altruísmo” de um tema unicamente instrumental porque, pela ausência da palavra, ele oferece mais do que me pede. A atenção concentra-se apenas nos sons, que são percepcionados de uma forma mais emotiva e sensorial, sendo que o pensamento simplesmente fica ausente.

Diria que com os ouvidos…prefiro sentir a pensar!

É esse envolvimento que esta faixa que integra o álbum Les arracades de cirera / Cherry earrings, da autoria do catalão Toni Xuclà me proporciona. Este trabalho foi produzido em 1996 pela Nazca Music, e permitiu ao autor o início de uma carreira internacional, apesar de ter começado o seu percurso musical aos 15 anos, compondo para teatro.

Espero que sejam uns agradáveis minutos de música, trazidos neste final de tarde de domingo por uma tranquila brisa vinda de Espanha!

 

 

entre a água… e a música!

 

Um breve movimento
e a vida sai em torrente,
liquida
fresca
e transparente.

Vida
quase ignorada
nesse acto banalizado
de abrir uma torneira,
acção breve
e rotineira
a que apenas damos valor
quando a água aí rareia.

Gesto simples
mas vital
que de nós merecia,
atenção
e gratidão
ao longo do dia-a-dia!

 

Este poema não é recente e surgiu após um corte de água em minha casa, situação sempre incómoda mas muito interessante pela reacção que nos provoca.

Esperava uma ocasião propícia para ser partilhado, momento que surgiu quando há pouco percebi que hoje se comemora em Portugal o Dia Nacional da Água e que se inicia o ano hidrológico, eventos que acontecem num período em que as reservas hídricas do país estão assustadoramente abaixo do desejável. Contudo, a água ainda continua a sair das torneiras… e a cair na nossa indiferença!

Mas este nosso dia nacional é hoje acompanhado por algo maior em dimensão, o Dia Mundial da Música. Esta complexa arte que brota da criatividade de muitos, existe igualmente de uma forma mais simples e minimalista na natureza e nos imensos sons que ela produz e nos oferece, sendo talvez um dos mais agradáveis e tranquilizadores o da água a correr num riacho ou a jorrar de um fontanário.

A água alimenta o corpo…e a sua “música” alimenta a alma…

…por isso, neste dia de água e de música… apreciemos devidamente e com gratidão as “fontes” que estão na sua origem!

 

 

 

uma simples canção

 

 

Na minha infância e juventude, o dia em que ocorria o Festival da Eurovisão da Canção era um dia especial porque, naquela época, era um evento que se destacava talvez pela ausência de outros. Ainda recordo a maioria das canções que nos anos 60/70 representaram Portugal nesse festival, melodias que eu sempre achava especiais e que na minha perspectiva, mereciam sempre ganhar. Mas isso nunca aconteceu e em cada ano a frustração sentida transformava-se em esperança no ano seguinte.

Entretanto…a vida tomou outros rumos e interesses, e apenas muito pontualmente voltei a dar alguma atenção a esse evento. E quando o fazia era apenas para ver o nosso representante cantar, o que, diga-se na verdade, muito raramente me agradava. O festival cansava-me, porque tudo parecia igual, confuso, muito barulhento e com demasiados estímulos associados. Sem espaço para respirar. Por isso, se me perguntarem quem representou o nosso país nos últimos anos… sinceramente, não sei! Talvez seja triste, mas é a verdade.

Porém, depois de muitas décadas, ontem sentei-me no sofá a ver uma boa parte desse festival e, obviamente, também a nossa belíssima canção. E senti um pouco aquela sensação da infância, de achar que as nossa canção era muito bonita e que merecia ganhar. Naturalmente recuei no tempo, no entusiasmo e na esperança.

Esperança que começou a ser alimentada ao comparar a simplicidade da composição e da interpretação resultante da parceria dos irmãos Luísa e Salvador Sobral, com a confusão e o artificialismo dos restantes temas e performances a concurso. E especialmente, aquando dos primeiro doze pontos que recebemos logo no início da votação. E os doze seguintes e ainda os outros todos!

No final, Portugal ganhou! Fiquei tão contente! E que sensação estranha, porque inesperadamente se cumpriu aquele desejo de infância que tinha ficado latente, quase adormecido. Estou certa que muitos portugueses terão sentido algo de semelhante, pelo menos aqueles que nasceram entre os anos cinquenta e sessenta do século passado e que, tal como eu, viviam com grande sentimento este evento.

Cantada de uma forma muito peculiar e genuína, a canção fala de amor. Simplesmente de amor. E será a forma como este sentimento foi partilhado que convenceu as emoções de milhões de pessoas, os que percebem e os que não percebem de música. Como eu, que encaro esta arte de uma forma muito emocional, com o coração e nada por conhecimento teórico.

Estou quase certa que  esta canção marcará um ponto de viragem na qualidade deste evento. Deu para perceber de uma forma muito clara o que as pessoas querem e desejam. Talvez a partir daqui prevaleça o que marca a diferença pela qualidade e não pela quantidade de estímulos, pela confusão e aparato tecnológico e visual.

Mais uma vez podemos ser pioneiros neste mundo. Povo de um pequeno país, mas cheio de força e de garra. Que gosta de descobrir novos caminhos e mostrar novos horizontes como aconteceu à cinco séculos atrás, seja agora, quiçá, no campo da música de uma Europa que perdeu a sua personalidade, pelo menos neste tipo de eventos.

Gosto de alimentar esta ideia, mesmo que daqui a uns anos chegue à conclusão que me enganei e desista novamente de me sentar no sofá. Mas enquanto há vida há esperança, e esperança é algo que nunca me falta.

Por fim… é muito bom perceber que hoje todo o país está feliz com uma canção que fala de amor!