nascimento

 

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O Vasco nasceu hoje para o mundo, para a família e para uns pais vibrantes de felicidade.
A chegada do meu primeiro neto despoletou uma infinidade de sentimentos que apenas as horas e os dias ajudarão a acalmar e a colocar no devido lugar. Agora as emoções ainda estão ao rubro.

Eu não senti no meu corpo as transformações desta gravidez nem os desconfortos do parto que o fez nascer. Apenas revivi tudo isso através da minha filha durante os últimos meses e senti a ansiedade natural das horas que hoje antecederam o seu nascimento. Depois chorei de emoção e alegria. Que mais poderia eu realmente fazer?

Por questões de segurança apenas o verei daqui a dois dias, quando mãe e filho saírem da maternidade. Até lá, a sua presença estará em imagens, em detalhes reais e imaginados, em palavras emocionadas e no desejo que a vida seja simpática e que me permita ir acompanhando o seu crescimento.

Bem-vindo meu neto, a este estranho, difícil…e belo mundo!

E obrigada aos pais por nos proporcionarem este feliz momento!

 

(Fotografia de Diana Oliveira)

 

 

 

 

a rotunda das papoilas

 

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Por muito criativas que sejam os milhares de rotundas de circulação rodoviária existentes neste país, nenhuma até agora me cativara o suficiente a ponto de lhe dar duas voltas a pé para apreciar e fotografar o espectáculo que me oferecia. 

Esta rotunda tem meia dúzia de árvores plantadas, vivendo o restante espaço da dinâmica das estações do ano. Diria que é um círculo de terra gerido pela natureza onde naturalmente ela expõe a sua criatividade, sem qualquer interferência humana.

Este ano a Primavera pintalgou-a de várias cores, mas é o vermelho das papoilas que impera fortemente.

 

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Hoje vou olhar apenas para estas flores silvestres e para a sua cor, beleza, força, simplicidade e fragilidade. E para a atracção que exercem sobre muitos de nós, atracção que eu penso vir exactamente desse misto de sentires quase opostos que nos proporciona, como é a força da cor versus a fragilidade da flor.

Primeiro atrai-nos pela cor, pelo vermelho da paixão e das emoções fortes. E depois pela  fragilidade com que reage a qualquer aragem e pela aparente vulnerabilidade. Essas sensações desencadeiam naturalmente uma vontade de aproximação e de protecção… originando em nós um olhar bastante emocional e afectivo.

 

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A par da cor e da fragilidade, também a expressividade é evidente. Manifesta-se especialmente nas hastes que seguram os botões das futuras flores, exprimindo um misto de submissão e saudação ao olhar que nelas pousa. Como se tivessem a dizer um tímido e silencioso olá…

 

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O próprio nascimento da flor é quase “humano” e muito “orgânico”. As pétalas nascem amarrotadas, frágeis, inseguras e quase pedindo que cuidemos delas.

 

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Será a própria brisa/vento a que são tão sensíveis que as ajudará a desabrochar, a alisar …e a fortalecer a personalidade. E então, em plena maturidade, brincam com o sol, abrem-se para os insectos e dançam ao sabor do vento que as abana… inclina… quase dobra…mas não quebra. Orgulhosamente elas resistem, continuando a alimentar muitos olhares e também o nosso imaginar.

Foi tão fácil encontrar uma papoila-borboleta a voar!

 

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Terminado o tempo da dança e desta estação do ano, o vento levará uma pétala…outra cairá…e outras secarão E ficará a essência, materializada no ovário e nas sementes, qual útero que as próximas estações ajudarão a abrir…a dispersar…e que daqui a um ano  voltarão certamente a dar cor e beleza a este lugar!

 

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Como complemento, falta dizer que esta rotunda situa-se no extremo oeste da Avenida de Portugal, em Carnaxide, nos arredores de Lisboa.

Ontem voltei a visitá-la, tem ainda mais papoilas e está simplesmente magnífica! E hoje, neste Dia da Mãe, algumas vieram à pouco ter comigo pela mão da minha filha. Para tentar secar e guardar com todo o carinho!

 

 

 

 

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Madrid foi o destino que obrigou a estar no aeroporto de Lisboa às cinco e meia da manhã de ontem.
Em tempo de Uber’s e afins…porque te levei?

Porque sou mãe!

Porque o último abraço dado no aeroporto ficou mais próximo deste primeiro dia de Setembro dos teus 36 anos;

Porque a energia desse abraço perdurou pelo dia de ontem e hoje será sentida por ambas perante a tua voz/imagem, mas igualmente quando leres estas palavras-oferta, que percebi recentemente serem um mimo desejado neste dia;

Porque hoje não estarás perto de mim para fazeres as habituais perguntas associadas ao teu nascimento…à gravidez… ao parto…como eras…como foi…e eu não irei repetir as respostas que tu já sabes de cor. E também não irei ouvir aquela exclamação “Tãaaaaao giro!”, que naturalmente aparece após esse diálogo.

 

Para além disso, minha filha…

Os lugares guardam memórias dos seus visitantes, certamente mais emocionais se associadas a dias de aniversário. Copenhaga, Dublin, Barcelona em anos anteriores e Madrid este ano, guardarão um pouco de ti e da tua boa energia.

E eu, discretamente, gosto de pensar que as emoções despertadas por estas palavras escritas para ti e lidas por aí, ficarão algures a pairar na memória desses lugares.
Sem tempo e doces como um abraço!

 

Muitos Parabéns e um dia muito feliz!

 

 

(Dulce Delgado, 1 Setembro 2019)

 

 

61!

 

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Nasci em plena Primavera, por sorte na época do ano que mais aprecio.

Faz hoje precisamente 61 anos que decidi começar esta aventura para além do útero materno. Nasci rodeada da bela paisagem alentejana, um selo de harmonia e de energias que gosto de acreditar ter marcado a minha sensibilidade ou a forma como a luz, o sol, o céu, a paisagem ou a natureza me tocam e são geradores de sentires muito próprios.

Esta será certamente uma visão algo romântica da questão, pois a realidade regista que deixei o Alentejo com pouco mais de seis meses… contudo, sendo o romantismo um pensar doce e que não faz mal a ninguém, esta sexagenária não resiste ao seu paladar!

Assim, voltando à ideia que as paisagens alentejanas oxigenaram os meus genes nesse período…a verdade é que a minha estrutura emocional se manifesta de uma forma muito vibrante quando encontro um prado na Primavera. Adoro prados! E o Alentejo onde nasci… é um mar de prados!

Se me perguntarem que flores mais gosto, só tenho uma resposta: as flores de um prado e um prado com flores! Sejam as pequenas e menos visíveis que o verde protege com cuidado e gratidão, ou as mais exuberantes que atraem o nosso olhar e chamam a atenção.

Um prado é a “maior democracia” que existe na natureza. É o equilíbrio puro, na sua forma mais espontânea. Todas as espécies têm o seu papel numa cooperação harmoniosa, a que o acaso pela mão dos quatro elementos – terra, ar, água e fogo/sol – criou para deleite da própria natureza e do nosso olhar.

Tudo está no local certo, em resultado de uma dinâmica perfeita. Mesmo que exista competição entre espécies, o que sabemos ser comum na natureza, o equilíbrio é genuíno e existe só por si.

A beleza do conjunto revela-se igualmente num olhar mais detalhado, mas hoje não vou por aí, não é importante. Talvez um dia partilhe essa visão. Nesta data, em que me sinto feliz e muito agradecida por completar mais um ano de Vida (não obstante as dificuldades que sempre vão surgindo), o prado é um símbolo a que dou enorme valor, seja pela capacidade de auto-regeneração anual, seja pela harmonia que transmite e que sempre procuro guardar e “cultivar”, ou ainda pela grande lição de respeito e de cooperação pacífica que dá ao mundo.

A imagem inicial é um detalhe de um belíssimo prado que recentemente encontrei num recanto da região onde resido. Senti-o como um pedaço de Vida, como uma oferta da Natureza…e como tal, ideal para partilhar neste dia!

 

 

cantando violeta parra

 

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No início de Abril, publiquei um post sobre a cantora chilena Violeta Parra, no âmbito das comemorações do centenário do seu nascimento (1917-1967).

Volto hoje ao assunto, uma vez que na próxima terça-feira dia 12 de Setembro, a filha e a neta de Violeta Parra, respectivamente Isabel e Tita Parra, estarão no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, para dar um concerto integrado na programação de Passado e Presente – Lisboa, Capital Ibero-americana de Cultura 2017.

Serão cantados os temas mais emblemáticos de Violeta Parra e outros da autoria das suas descendentes, num espectáculo que irá certamente aliar a música popular, tradicional e de intervenção chilena com uma forte componente emocional, tendo em conta os laços familiares e afectivos que estarão sobre o palco. Este espectáculo é organizado pela Secretaria de Cultura do Governo do Chile.

Ainda no âmbito deste centenário, a 4 de Outubro, dia em que a cantora completaria cem anos, haverá na Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário, sediada em Lisboa, um outro espectáculo musical, este produzido pelo grupo el Sur.

Serão momentos com características diferentes, mas estou certa que ambos terão como lema a partilha, a força e a paixão que orientaram a vida desta mulher.

 

 

 

ser imagem

 

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Antes do nascimento
somos uma imagem,
ecográfica
idealizada
imaginada
de luminosa esperança
uma ideia-criança.

Ao nascer,

saímos desse estado de matéria
etérea,
e passamos a concretos seres
humanos
emocionais
racionais
espirituais
banais ou especiais
e pontualmente ideais!

 

Passa a vida…

Chega a morte…

 

E naturalmente,
voltamos ao virtual
fluído
e intemporal
estado de imagem,
talvez recordada com saudade
presente na ausência
que habita numa moldura
envolta em ternura
que se desvanece no tempo…

…imagem história

…imagem memória

 

Ou imagem, apenas.

 

 

(Dulce Delgado, Julho 2017)

 

 

 

 

 

vida(s)

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Envolto em pensamentos
e ao som da respiração,
bate o coração,
lento
louco
irreverente
ou cheio de emoção.

A esse pulsar
chamamos vida,
misto de células e de energia
que um rio,
vermelho e sem foz,
alimenta com sabedoria.

Um dia,
pára o rio e o coração,
terminando essa magia
na última expiração
de um corpo,
sem vida nem reacção.

Fica a energia,
talvez a alma,
talvez  o espírito…
algo que desconheço,
mas sinto
e acredito!

Passará um tempo,
transitório,
lento
e sem memória,
até chegar a hora
da energia e da magia
iniciarem outro ciclo
e escrever uma nova história.

Novo corpo
outro coração
e outro rio…

Uma primeira inspiração
faz nascer um novo ser,
que na vida irá escolher
e aprender,
com o bem e o mal
a vitória e a derrota
o amor e a dor
o dar e o receber
o medo
o sofrimento
o arrependimento
a partilha
a paz
a felicidade
e sempre
mas sempre com a verdade!

Não,
a Vida não pode ser
apenas um único Viver!

 

(Dulce Delgado, Fevereiro 2017)