a sul

Sempre que possível, eu e o meu companheiro tentamos fazer umas mini-férias antes do final de cada ano, seja como agradecimento por termos chegado até ali, seja desejando que o novo ano se revele um tempo de bons momentos, de olhares amplos e de possibilidades em aberto.

No final de 2020, devido à pandemia e às restrições de circulação previstas, tivemos apenas três dias para esse respirar, sendo o sul de Portugal a região escolhida. No plano, apenas lugares “fora da civilização” e que nos permitissem estar tranquilamente sem máscara e sem pensar no distanciamento físico, algo que se tornou uma preocupação permanente no ultimo ano. Ou seja, lugares longe de pessoas! Também a escolha de um pequeno apartamento nos permitiu não ter que ir para locais mais frequentados e, sem preocupações, usufruir das refeições já confecionadas que levamos.

As nossas explorações centraram-se em áreas de salinas e sapal localizadas entre a Fuseta e Tavira, lugares amplos, de olhar vasto e propícios à observação de aves. Este é um gosto que ambos partilhamos, o meu companheiro com mais técnica e profissionalismo, e eu de uma forma muito mais amadora, versátil e abrangente, encarando as aves como parte de uma natureza imensa e que sempre me encanta.

As imagens que se seguem revelam um pouco da paisagem que nos envolveu e, sobretudo, a beleza que os nossos olhos respiraram nesse hiato de liberdade e de pura natureza.

Termino com uma foto de várias Pegas-rabudas (Pica pica) pousadas ao amanhecer no topo de uma árvore. Quando as vi, instintivamente transportei esta imagem para a situação de grande instabilidade e insegurança que todos vivenciamos e pensei…como seria bom que nos conseguíssemos equilibrar – individualmente e como sociedade – desta forma tão tranquila e harmoniosa!

sobre passadiços

 

IMG_2422a

 

De elemento a elemento se faz uma construção… e de tábua a tábua se constrói um passadiço em madeira, aqueles belos caminhos suspensos, ou não, que permitem apreciar a beleza de certos locais sem colidir com a sua sustentabilidade e preservação.

Apreciando as potencialidades desses equipamentos de engenharia mais ou menos complexa, já lhes dediquei um post no início deste blog. Hoje volto ao tema porque um recente período de férias permitiu-nos explorar e percorrer duas dessas estruturas, muito diferentes na construção, mas igualmente no esforço que exigem, na paisagem que as envolve e nos estímulos que oferecem aos nossos sentidos. Refiro-me aos passadiços do Paiva e aos passadiços da Barrinha de Esmoriz, ambos localizados a norte de Portugal.

Os primeiros “adaptaram-se” às encostas do rio Paiva, um rio de montanha afluente do Douro e um dos menos poluídos da Europa. É um percurso exigente pelo declive, mas que revela uma beleza muito própria que será certamente maior noutra altura do ano (na Primavera, por exemplo), em que o verde estará mais presente assim como o caudal do rio mais forte.

Neste trajecto é fundamental que a atenção seja dividida entre a paisagem e o nosso andamento porque, não obstante ser seguro e estar bem construído, nem sempre a linearidade do passadiço coincide com o grande recorte e heterogeneidade das encostas onde se adapta. Apesar da(s) protecção(ões) lateral(ais), esconde perigos para adultos mais distraídos… e para crianças, sendo da responsabilidade de quem as acompanha estar muitíssimo atento.
No total, este equipamento acompanha 8,7 quilómetros do percurso do rio. Nos extremos do passadiço existe um serviço de táxis com um preço fixo, que permite um cómodo voltar ao local de partida a todos os que não pretendem percorrê-lo novamente. Neste site, encontram toda a informação e podem efectuar a reserva de bilhetes, adquiridos pelo valor simbólico de 1 euro!

 

IMG_2265a

 

IMG_2292a

 

IMG_2331a

 

IMG_2303a

 

IMG_2368a

 

IMG_2369

 

Já a linearidade do passadiço da Barrinha de Esmoriz/Lagoa de Paramos, permite um passeio em total tranquilidade. Fácil para o corpo e suave para o olhar, estende-se por mais de oito quilómetros de sapal, canavial e dunas, e integra várias derivações que permitem o acesso a praias existentes na área. Atravessa o esteiro por uma elegante ponte, único local em que esse equipamento é um pouco mais elevado, destacando-se por isso na paisagem.

 

IMG_2457a

 

IMG_2471

 

IMG_2456a

 

IMG_2492

 

IMG_2498a

 

Possui um observatório de aves, mas tem vários locais propícios à visualização de uma grande variedade de passeriformes, o que nos deu um prazer redobrado.

 

_G3A4624 a

 

Se os primeiros foram transpostos num dia cheio de luz e com um belo céu azul, este último foi percorrido sob um céu cinzento e algum nevoeiro. Mas vimos nesse facto uma complementaridade interessante pela diversidade de sentires e olhares que ambos nos permitiram. Porque em tempo de férias, especialmente… “se nada podes fazer a um dia cinzento…então aproveita-o simplesmente!” E foi isso que fizemos com alegria!

Termino com uma sugestão: explorem estes espaços, pois ambos proporcionam excelentes passeios!

 

 

observar/fotografar aves

 

A chegada do Outono reflecte-se em todos os aspectos da natureza. As alterações mais visíveis serão no reino vegetal, mas estas acontecem igualmente nas dinâmicas do  reino animal. É no início desta estação, por exemplo, que ocorrem as migrações de aves, que se deslocam para sul em busca de temperaturas mais agradáveis e de alimento. Para muitas das espécies que deixam o hemisfério norte, Portugal é um ponto de referência e de passagem, sendo aqui que descansam e se alimentam antes de prosseguir viagem.

O facto de estarmos em plena época de migrações, levou-me a escrever este post sobre observar e fotografar aves, acção que pode ser realizada não apenas nesta época, mas em qualquer altura do ano porque muitas aves são residentes ou passam aqui longos períodos.

Em primeiro lugar, esta actividade deve ser um acto de humildade. Quando se penetra num território que não é o nosso, mas sim controlado por determinadas espécies, a ideia base é sempre o não perturbar e passar o mais possível despercebido. Não temos o direito de actuar de outra forma, na medida em que somos os intrusos num espaço que não é nosso. Na verdade, as espécies que lá habitam é que mandam.

Para além deste princípio, é necessário gostar de silêncio, cuidar dos nossos movimentos – que devem ser calmos e sem ruído associado – e ter disponibilidade de tempo e muita paciência. De preferência devem ser escolhidos locais com água por perto, sempre um chamariz para a maioria das aves.

Com estas condições e postura, começamos a perceber o que se passa à nossa volta, sejam as nuances e pormenores da paisagem, sejam os movimentos das aves que habitam esse território e como o controlam.

Apenas este conhecimento permite observar e eventualmente fotografar determinadas aves. O guarda-rios, por exemplo, tem sempre o seu território junto a rios ou ribeiras e controla-o fazendo voos cíclicos ao longo das margens. Perceber esse movimento, permite estar alerta, sendo maior a possibilidade de o poder captar. Mesmo assim, e dada a sua rapidez, é bastante difícil fazê-lo.

Para observar/fotografar aves, os melhores lugares são os observatórios ou…. dentro de um carro! Ao longo de gerações, as aves “aprenderam” e, certamente já terão esse dado no seu “código genético”, que o ser humano é perigoso, pelo que fogem dele. Mas não o fazem perante um carro em movimento lento, ou parado. Para elas, nós somos bem mais assustadores que um carro…

Fora de um observatório, é sempre necessário manter uma distância que lhes seja confortável, algo que se vai aprendendo com a experiência. Ao permanecermos quietos e em silêncio durante um certo período de tempo, é possível que algumas comecem a aproximar-se, porque começamos a fazer parte da “paisagem”. Mas as probabilidades de fuga são bem maiores.

Nos últimos anos, tenho partilhado em muitos momentos esta actividade com o meu companheiro. Quatro olhos vêem muito mais do que dois e especialmente vêem detalhes diferentes. O olhar masculino é mais eficaz e objectivo no seu propósito, sendo o feminino muito mais abrangente e facilmente rendido a outros aspectos e pormenores envolventes. São complementares e ambos fundamentais na equipa.

Mas sendo este post também sobre fotografia, ficaria incompleto sem algumas imagens. E possuindo o meu companheiro melhores fotografias do que eu, ficam aqui algumas da sua autoria, mas que ambos gostamos especialmente.

 

_G3A2361 a
Guarda-rios, martim-pescador ou pica-peixe

 

_G3A2617 ab
Garça branca

 

_G3A2661 ab
Garça branca

 

_G3A3077 ajb
Pisco-de-peito-ruivo

 

Andorinha
Andorinha-das-barreiras

 

Bico-de-lacre
Bico-de-lacre

 

Camão a
Camão

 

DSC_1058 a
Milhafre

 

Para terminar, duas libélulas: não são aves…mas voam!

 

Libélulas
Libélulas na fase inicial do acasalamento