tronco vida

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Sólido e forte,
o tronco é suporte
e alimento
nascido de uma semente.

Une a terra ao céu…
a matéria ao ar…
rio de energia
a circular
em cada ramo
folha
flor
e fruto.

Vida…

Invisível
fluída
leve
e por este olhar tão sentida!

 

(Dulce Delgado, Novembro 2019)

 

 

 

 

olhares

 

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Para além dos genes, o que de nós se prolonga em nossos filhos é sempre uma incógnita. Se os primeiros são responsáveis por um detalhe fisionómico, pela cor dos olhos ou por um trejeito, será a educação ou a vivência em comum durante o seu crescimento que estarão na origem daquilo que, não sendo visível ao olhar, é bem real no estar.

Há poucos dias a minha filha enviou-me uma imagem com um detalhe da sua casa que a sensibilizou. Nesta fotografia, uma das folhas de um grande feto descansa tranquilamente sobre o monitor do computador. A cor e a elegância das folhas em contraste com os restantes elementos presentes concedem uma beleza especial a esta imagem, harmonia que ela se apercebeu com o seu olho clínico e sentido estético, e que também me encantou quando recebi a fotografia.

O meu primeiro pensamento foi “é mesmo minha filha!”, pensamento que surgiu acompanhado de uma imensa ternura e logo complementado por divagações colaterais…

…os meus filhos nasceram e crescerem numa casa com muitas plantas. Quando a minha filha começou a andar tinha alguma tendência para ir mexer na terra dos vasos e nas plantas e pontualmente a fazer asneira. Nessa altura ensinei-a a fazer-lhes “festinhas” com carinho, atitude que foi integrada e que se foi entranhando na sua sensibilidade. Hoje ela tem uma casa com imensas plantas que trata zelosamente e as plantas gostam tanto de estar com ela como sempre gostaram de estar comigo.

Pela vivência e educação acredito que lhe transmiti isso. Não é genético, mas algo que era meu e hoje também é dela. Daí o meu doce sentir quando ela me enviou esta fotografia.

Porém, esta imagem não me sensibilizou apenas pela linguagem estética ou pelas emoções maternais que despertou, mas igualmente pelo simbolismo que tem associado. Na verdade, gosto da ideia de ver a natureza coabitar em harmonia com a tecnologia. Cada uma no seu lugar, sem agredir nem interferir no espaço da outra. Aqui, elas apenas se tocam…com suavidade…com respeito…

Eu sei que este sentir não passa de uma pequena utopia efémera… e caseira. Contudo, absolutamente nada me impede de levar a imaginação por aí!

Desejo um tranquilo fim-de-semana!

 

(Fotografia de Diana Oliveira)

 

 

 

entre libélulas

 

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Em voos rápidos
e aleatórios pelo ar,
elas voam sobre a água
ao som
do fresco murmurejar.

A seu lado
voa o meu olhar,
atraído pelas cores metalizadas
e transparência fluída
das suas asas.

Com  libélulas
no ar,
é tão leve
e fácil
voar neste lugar!

 

 

(Dulce Delgado, Outubro 2019)

 

 

 

 

texturas e detalhes

 

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Nos primeiros dias de Setembro voltamos à Costa Vicentina para usufruir de umas curtas férias. Esta região de Portugal é um lugar de tranquilidade e de imensos olhares, seja o mais amplo que facilmente se envolve nas neblinas locais ou aquele mais minucioso que encontra magníficos detalhes/texturas resultantes da acção do tempo e dos elementos naturais sobre este solo que pisamos.

Restringimos os dias disponíveis a quatro praias, sendo as imagens aqui publicadas captadas unicamente nas Praias de Odeceixe, Vale dos Homens, Carreagem e Amoreira, um troço de pouco mais de 10 Km da costa oeste do Algarve e uma pequena parte dos 130/140 Km do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina.

A maré vazia em praias que perderam alguma areia nos últimos anos facilitou o acesso a zonas rochosas de grande personalidade. Geologicamente é uma área muito rica, mas a minha ignorância e a complexidade dessa matéria não me permitem complementar este post com dados mais científicos como gostaria. Será por isso uma apreciação puramente visual, emocional e centrada nas texturas encontradas.

 

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Em toda esta área os veios de quartzo “decoram” as rochas de forma diferenciada e quase incompreensível para a nossa mente limitada no tempo. São milhões de anos de história desenhada que está ali perante o nosso olhar em resultado das movimentações dos solos e dos seus sedimentos, de infiltrações, de compactações e, especialmente, de muita, muita erosão.

 

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A interacção da água do mar com a areia, algo que sempre me fascina, cria verdadeiras obras de arte ao ar livre.

 

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A par desta natureza-artista instalou-se a natureza-vida sob muitas e diferentes formas. Mexilhões, lapas/cracas, ouriços e caracóis do mar, caranguejos, camarões, anémonas, algas, musgos, peixes, etc. assumem um papel importante no equilíbrio do ecossistema e deliciam qualquer olhar, mesmo o mais distraído.

 

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Mas a natureza é mestra nas mensagens que silenciosamente nos revela, mensagens que quer eu quer a minha imaginação apreciamos deveras descobrir.

Seguindo esse pensar, diria que a fotografia que se segue (e última deste post) encerra uma dessas mensagens. De uma forma muito simples a natureza diz-nos que o equilíbrio é possível através da diversidade e que em paz se pode viver lado a lado com a diferença, seja ela a que nível for.

Algo que muitos de nós no geral e alguns em particular, sobretudo alguns “leaders” deste mundo,  ainda não entenderam verdadeiramente.

 

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Termino, assegurando que este é realmente um belo recanto de Portugal, especialmente para os apreciadores de tranquilidade, de texturas e de detalhes!

 

 

 

 

 

banho de natureza

 

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A efémera beleza das flores de um nenúfar acompanha as horas de sol e o ritmo das  estações, mas a planta-mãe saboreia durante todo o ano o lento mover do fluído que a alimenta. Os nenúfares exteriorizam na Primavera e no Verão o que guardam com recato na restante metade do ano.

Recentemente senti o prazer de me banhar numa piscina biológica, cuja pureza e equilíbrio resulta da presença de diversas espécies de plantas aquáticas, incluindo nenúfares. Todas foram controladamente plantadas numa faixa na periferia do espaço e, a par dos limos e de outros micro-organismos, contribuem de uma forma natural para o processo de limpeza e oxigenação da água, meio também habitado por uma fauna específica de pequenos animais como rãs, cobras-de-água, insectos variados, incluindo muitas libélulas/libelinhas.

Centrando-me nos nenúfares…

…as várias espécies existentes  foram plantadas de modo a permitir uma certa proximidade e um diálogo “olhos nos olhos” deixando os sentidos apreciar…

…flores com morfologia e cores diferente
…folhas com formatos diferentes
…e aromas diferenciados!

Surpresa!

Apesar de olhar para os nenúfares como uma planta belíssima, misteriosa e um tanto mística, na verdade sempre esteve “longe”…ali…além…em lagos…e nunca ao nível dos meus sentidos e ao lado do meu corpo.

Ainda não experimentara…

…afagar os seus finos caules e robustas folhas…
…cheirar o aroma das flores…
…partilhar a mesma água…
…e sentir o seu tranquilo e uterino modo de vida!

Momento único este “banho de natureza”!

Como único e inesquecível foi aquele instante em que uma pequenina rã salta da folha de um nenúfar onde repousava (apreciando talvez o sol e a paisagem…), e começou a nadar junto a mim. E eu segui-a… calmamente….emocionada… e totalmente fascinada!

Depois ela seguiu para o interior do mundo dos nenúfares, uma área proibida a esta feliz humana que acabara de viver um daqueles momentos em que nos sentimos parte de algo maior e, na “pele”, a ternura desta mãe-natureza que nos enlaça e envolve.

Numa única palavra: adorei!