verão

Olho amiúde para o céu….sol….lua…ou estrelas que este meu olhar abarca….e ainda para este chão que me recebe e onde me agarro por umas raízes invisíveis e penso:

Como pode esta “bola gigante” – e ainda por cima ligeiramente achatada e inclinada – que roda sobre si a 460 m/segundo (na zona do equador) e circula em volta do sol a uns incompreensíveis 30 Kms/segundo……não perder o “tino” e a orientação e, com uma precisão impressionante permitir calcular os fenómenos/ciclos daí resultantes e que se repetem dia-a-dia, mês-a-mês, ano-a-ano…

…como o nascer e o pôr-do-sol … os eclipses… ou as estações do ano…

Foi precisamente às 04h 32m da madrugada de hoje que começou mais um Verão neste hemisfério norte onde estão as minhas virtuais raízes. Significa que esta metade do planeta terá o seu dia mais longo, que vai receber mais intensamente os raios solares e que naturalmente iremos adaptar os nossos dias e o nosso corpo a essa circunstância. Assim como a nossa mente, que logo desliga um pouco da rotina e entra de certa forma em “tempo de férias” e de vontade de descanso.

Somos simultaneamente assistentes e participantes desta harmonia/sintonia do Universo, algo pouco consciencializado pela maioria de nós na rotina dos dias, mas algo imenso e quase mágico que, só por si, deveria ser suficiente para que o termo ”respeito” estivesse na base de todas as nossas atitudes e decisões.

E neste respeito incluo o que deveremos ter com esta “bola gigante” em todas as vertentes com ela relacionadas….mas igualmente o respeito entre nós, humanidade que a habita, porque realmente não somos mais do que uma ténue “poeira” espalhada sobre ela.

Essa é uma verdade que esquecemos vezes demais.

A todos, neste dia de solstício, desejo o melhor Verão (ou o melhor Inverno)!

pelo mundo das letras…

Inquieto,
deambulava o P
pelo mundo das letras
da escrita
e da aventura.

Num atalho encontrou o O
e logo a seguir o E,
o que gerou confusão
no momento de decidir
qual a ordenação
deste trio em formação.

As hipóteses eram demais…
…mas a personalidade do P
não era de subestimar,
decidindo com firmeza
que POE seriam
no futuro caminhar.

E assim continuaram.

Mais à frente
ouviu-se um forte suspirar…
…era um S
triste
e muito carente,
desejoso de encontrar
alguém a quem abraçar.

Com ternura no olhar
o E deu-lhe um forte abraço,
fazendo-o logo sentir
que finalmente encontrara
um lugar onde ficar.

E como POES seguiram…

…até num recanto avistarem
um ditongo a namorar
com fulgor e ousadia
em plena luz do dia.
Era o IA!

De imediato perceberam
a forte emoção
que esse par lhes traria,
pois juntos seriam corpo,
alma
acção
e uma imensa energia!

Logo entendeu o IA
o apelo vibratório
que o POES lhe fazia,
e o forte potencial
que a situação traria
a todos na vida real.

Tomada a decisão
o ditongo avançou
e ao S se agarrou…

…com tão forte a atracção…

…que num acto de magia
a palavra ganhou asas
e nasceu a POESIA!

(Poema e desenho de Dulce Delgado)

lisboa em festa

No dia do feriado da nossa capital poderia falar do culto ao seu padroeiro Santo António de Lisboa, dos dotes de casamenteiro associados a este santo ou ainda do curioso responso/oração com o seu nome que muitos alegam ser uma preciosa ajuda na procura de objectos perdidos.

E poderia falar dos populares casamentos patrocinados pelo município, ou ainda das marchas populares e arraiais que habitualmente movem multidões pelas ruas da cidade, eventos que não se realizaram nos dois últimos anos devido à situação pandémica.

É certo que não haverá as tradicionais Festas de Lisboa…mas Lisboa está envolta numa festa de cor e emana uma imensa alegria proporcionada pelas flores dos jacarandás, evento que se repete anualmente e a que este Discretamente não resiste…

Para além do Santo António, há um outro santo também associado à cidade, o São Vicente, cujo corpo viaja eternamente dentro de uma barca vigiada por dois corvos no cimo de muitos postos de iluminação pública da cidade.

Sendo uma imagem já naturalmente curiosa, sempre me delicia encontrar nesta época do ano a referida barca navegando sobre e os jacarandás… num mar de ondas lilás!

No mínimo, é adorável!

Termino com uma fotografia que me parece revelar bastante bem a “essência” desta belíssima árvore.

A elegância e a expressividade que emana em cada um dos seus ramos permite desenhar histórias visuais únicas e irrepetíveis. São por isso infindáveis as que estão disponíveis no céu de Lisboa …e que eu tanto gosto de ler e apreciar nesta tempo de festa e de despedida da Primavera.

Esperemos que em 2022 a cidade volte finalmente a se vestir de gente e de muita Festa …porque os jacarandás sempre voltarão para a vestir de cor!!💜

olhar confinado #2

Neste início de Março persiste em Portugal o confinamento e as limitações associadas à pandemia, apesar dos dados mais recentes perspetivarem para breve um alívio nas restrições. Creio que a Primavera nos trará esse presente para ser desembrulhado de uma forma cuidadosa e progressiva.

Desde o ultimo post a que dei este mesmo título e publicado no início de Fevereiro, as condições meteorológicas melhoraram imenso e os dias cinzentos deram gradualmente lugar a outros mais leves e soalheiros. Então as janelas foram abertas deixando entrar o ar e o sol.

As janelas são simultaneamente fronteira e ligação… interior e exterior…o aqui e o além…e o limite entre dois espaços que o nosso olhar une instintivamente quase sem darmos por isso. É nesses dois mundos que se desenvolve este post.

O primeiro olhar será direcionado para o exterior (alguns detalhes têm alguma semelhança com outros publicados no post anterior), mas foram agora captados em dias de sol e bastante mais luminosos.

Depois, o olhar seguiu para o interior….

…onde o sol, ao entrar pelas janelas iluminou a casa. Então, aqui e ali fui fotografando detalhes que visaram sobretudo o jogo luz-sombra e a forma harmoniosa como esses elementos se conjugam.

Deparei-me com imagens raramente apreciadas com atenção e confrontei-me com a efemeridade das sombras. O movimento do sol é realmente a música que orienta a dança das sombras! Agora estão aqui… daqui a pouco ali…e depois mais além ou, já nem existem Até ao dia seguinte, se o sol voltar a aparecer.

Se estes detalhes, apesar de procurados surpreenderam pela harmonia de linhas e contrastes, o que mais me encantou foi o ultimo registo deste post e que aconteceu por acaso. Ou talvez não. Na verdade, em tantos anos de vida nunca me tinha sucedido chegar à cozinha e nesse preciso momento ver uns raios de sol a incidir num copo de água, dupla que funcionou como uma lente que convergia, divergia e irradiava esses raios.

Fotografei de imediato e verifiquei que, também aqui, os efeitos se alteravam rapidamente em virtude do movimento solar.

Senti que era uma oferta e agradeci. Afinal era a melhor imagem que eu poderia obter no âmbito deste post em preparação.

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Termino com o desejo, profundo e cheio de esperança, de não voltar a publicar mais posts com este título!

olhar confinado…

…a partir de um décimo andar e em dias predominantemente cinzentos e com chuva!

Nas duas ultimas semanas, a casa tornou-se o fulcro dos nossos dias devido ao confinamento. Portugal está num momento muito difícil e ficar em casa é fundamental. Fazendo a fotografia parte dos meus dias, tinha que explorar e aproveitar o mais possível as circunstâncias impostas e o tempo disponível.

Quando olho para o tom monocromático e cinzento das imagens acima, sinto alguma tristeza. A verdade é que a minha personalidade nunca se deu muito bem com dias tão pesados e sem cor. Encontro neles alguma beleza, é verdade mas, decididamente, não são a minha onda, nem o meu mar. E quando são demais, pesam na alma…

Esse cinzento bloco de imagens revela um pouco da paisagem que me envolve. Vivo em Carnaxide, no concelho de Oeiras e a localização do prédio permite-me um olhar vasto, sendo as maiores referências o rio Tejo e a margem sul, a Serra de Monsanto e o chamado Farol da Mama de Carnaxide, uma enorme estrutura que mais parece um foguetão e cuja luz é fulcral para os barcos que atravessam de noite a barra de Lisboa.

Porém, quando um olhar se centra apenas em imagens gerais perde imenso. É essa a primeira tendência quando se vive num andar muito alto e com ampla vista. O meu teria perdido imenso se eu não decidisse limitar o ângulo e orientar a objectiva da máquina para o que estava mais próximo. Aí encontrei curiosos detalhes nunca registados com um olhar puramente fotográfico.

Estamos confinados… eu estou confinada… mas lá em baixo, na rua, a vida continua.

Carros, motas, bicicletas e peões dividem-se entre actividades obrigatórias e de lazer. Cada um terá certamente o seu propósito, como eu neste meu décimo andar, estou a cumprir o propósito de partilhar o que os dias me vão oferecendo.

No momento em que publico este post chove lá fora, está nevoeiro e a vista que tenho é mínima. Se, neste mês de Fevereiro que hoje se inicia o tempo decidir melhorar, talvez ainda faça um outro post dentro desta temática…mas com mais cor.

Até lá….. a solução é viver com saudades da liberdade e de um belo céu azul!

nevoeiros…

Nos últimos dias a zona ribeirinha de Lisboa não viu o sol matinal. Cobria-a um denso e cinzento banco de nevoeiro que apenas deixava visíveis os topos da Ponte 25 de Abril e do Cristo-Rei.

Sempre que tal sucede, de caminho para o trabalho penetro nessa massa que aí se adensa. Hoje mais uma vez isso aconteceu…. e eu mais uma vez levei o corpo e os pensamentos a passear pelo nevoeiro…

Individualmente ou como parte da sociedade, na vida de todos nós surgem momentos complexos, seja porque nos “enganamos” no caminho, seja porque as circunstâncias exteriores se alteraram bruscamente e nos afectam. Como por exemplo, a crise pandémica que estamos a viver. Naturalmente surge a indefinição, a confusão, o receio e amiúde a falta de perspectivas, por vezes o mais difícil de lidar.

Perante o nosso olhar esbatem-se os caminhos, as ligações, pontes e soluções. Tudo é neutro, de uma “beleza” neutra que nem sempre conseguimos compreender.

Na verdade, o que era dado como certo e quase inquestionável pode, de um momento para o outro desaparecer, alterar-se, entrar em rotura, esfumar-se. Tal como desapareceu no denso nevoeiro, metaforicamente falando, a Ponte 25 de Abril, o ex-libris desta zona ribeirinha de Lisboa e que num dia normal estaria presente na maioria das imagens que se seguem.

Como resposta, é fundamental não perder as referências interiores e algumas exteriores, porque elas sempre existem, mesmo que perdidas nos meandros dos imprevistos e dos “nevoeiros”.

Há que acreditar, continuar a caminhar, fixar objectivos, rever perspectivas e, se necessário, “correr” um pouco mais, mesmo que mais devagar. Eventualmente ter a humildade de pedir ajuda se o cansaço e a desorientação for demais. E ter fé, seja em que tom for essa fé.

Este nevoeiro, tal como os nevoeiros da Vida sempre se dissipam. Porque o sol está lá e aparecerá. Assim como surgirão as respostas, os caminhos e até as pontes, seja as que ligam margens de rios, que nos ligam a nós próprios ou as que nos mantêm ligados ao mundo.

Assim é a Vida, entre margens e em nós. Tal e qual.