presenças ausentes

Apesar de pouco consciente em nós, é uma arte que está em todo o lado e todos os dias passa pela nossas mãos, seja numa revista ou jornal, nos livros que recebem o nosso olhar, na capa daquele disco compacto ou vinil que ouvimos, nas agendas em papel ou calendários que nos regem o tempo, nas caixas de medicamentos que consumimos ou nos modelos e documentos oficiais…seja nos belíssimos rótulos de garrafas de vinhos que existem actualmente ou nas inscrições que identificam qualquer produto.

Ainda mais indiferente ao nosso olhar, essa arte está igualmente naqueles flyers irritantes que sempre colocam nos nossos carros dizendo que o querem comprar…nos folhetos com promoções dos super e hipermercados que nos esperam na caixa de correio, em toda a publicidade de habitações para arrendar e vender, e ainda, na organização de conteúdos de todo o tipo de publicidade que nos chega às mãos em suporte de papel….e que, na maioria das vezes, vai directamente para a reciclagem.

O design gráfico está presente no que é palpável mas igualmente na construção das inúmeras páginas virtuais que diariamente procuramos na internet (aqui sob a forma de web design), e que foram construídas e modeladas por um olhar especializado para que a nossa experiência visual seja apelativa e mais facilmente atraída e conquistada.

São os trabalhadores escondidos da estética dos nossos dias e de certa forma de um certo “consumismo” que nos rege. Ao colocarem um título, imagem, desenho, texto ou um espaço no lugar certo, estão a construir e a atrair emoções. As nossas emoções. Diria que eles trabalham para o nosso olhar e para que os nossos dias sejam esteticamente mais agradáveis, mesmo que não tenhamos consciência desse facto.

Eles são os designers gráficos e hoje, 27 de Abril é o seu dia mundial.

Na generalidade, este post é para todos esses trabalhadores de bastidores e de pouca visibilidade. E é particularmente para a minha filha e para o seu companheiro, ambos designers gráficos e detentores de um sentido estético que muito aprecio. 🧡

Valorizemos o trabalho destes artistas-técnicos, inclusive naquelas áreas e detalhes que normalmente nos são indiferentes e que ignoramos.

o livro

Ideias, histórias e pensamentos
descansam no silêncio
aconchegante
de um livro.

Um respirar de mãos
gestos
e ar,
acordam o livro
do seu dormitar.

Despertas,
logo as palavras se acomodam
em suas páginas e lugar,
desejosas de ouvir
o som de um folhear
e de sentir
o calor de um olhar.

Abre-se o livro…

…e uma doce energia abraça-as
na magia da leitura,
um misto de atenção e ternura
que as guiará até à mente,
onde serão novamente
ideias
histórias
e sempre pensamento!

(Ao Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor que hoje se celebra….e àquela magia que um livro sempre encerra!)

palavras encontradas

É raro o dia da semana em que não subo a grande escadaria que liga a Av. 24 de Julho ao Largo 9 de Abril em Lisboa, sendo este último espaço ocupado pelo acolhedor jardim que fica entre o Museu Nacional de Arte Antiga e a Sede da Cruz Vermelha Portuguesa. São cento e tal degraus que normalmente imponho a mim própria subir com algum ritmo a fim de fazer um pouco mais de exercício e estimular o ritmo cardíaco.
Pontualmente faço-o com mais calma, seja para apreciar a vista sobre o rio, por estar mais cansada, ou simplesmente porque me apetece ir devagar e olhar… olhar…e olhar…

E foi num desses dias mais tranquilos que me apercebi de uma frase escrita no lancil de um degrau. E depois de outra, lá mais à frente. Então no dia seguinte, com o interesse bem desperto e de máquina fotográfica na mão, calcorreei os três lances duplos que compõem esta grande escadaria com o intuito de encontrar outras frases. E encontrei, não sei se todas, pois na verdade são pequenas e estão discretamente colocadas. E algumas estão repetidas.

Desconhecendo há quanto tempo ali estariam, logo me questionei sobre a sua resistência (ou efemeridade) perante a água da chuva. Dias depois tive a resposta ao verificar que se mantinham íntegras após a passagem de um forte temporal sobre Lisboa. Actualmente estão apenas um pouco desbotadas e uma delas foi vandalizada/raspada, estando ilegível.

Obviamente que a fase seguinte foi procurar a sua origem. Conclui que @voz_carmesim é a “voz” de uma poeta que se chama Mari e é oriunda de S. Paulo, Brasil. Reside em Lisboa e no Instagram descreve-se como “Poeta com sede de gente e fome do mundo”.
No seu site é possível saber um pouco mais e ainda que intitula a sua poesia como quântica.

Eu não sei o que é “poesia quântica”… e sou extremamente crítica dos graffitis absurdos que abundam por aí… mas adorei a ideia de encontrar estas frases no chão daquela escadaria de todos os dias.

Se a ideia só por si já é poética…seja por ser inovadora, discreta ou simplesmente pelo gesto que lhe deu origem, estas frases foram sentidas por mim como pequenos tesouros escondidos e descobertos…como aqueles ovos que as crianças encontram na época da Páscoa…

E gostei especialmente de imaginar o momento em que foram ali depositadas. Em que uma mulher segurando um marcador waterproof se deliciou a escrever em recantos desta enorme escadaria, frases poéticas e intemporais……mas resistentes e sobreviventes a temporais!

São encontros invulgares que aquecem os nossos dias, e sobretudo, que nos recordam a importância de sair do comum, da rotina e do previsível.

a sós

Há uma solidão que é nossa e genuína, porque vive e sempre viverá connosco. De vez em quando e muito silenciosamente ela pede que nos afastemos dos outros para lhe fazer companhia. E nós vamos, porque esta é uma solidão amiga.

Já a outra, a que entra sem nada pedir, a que cria raízes na rotina dos dias e nas palavras que não foram trocadas, aquela que abre feridas e magoa sem sangrar, é a solidão difícil. E um luto de alma para muitos, sós ou acompanhados .

Esta solidão difícil pode não ser a nossa, a minha ou a tua, mas é a de muitos que se cruzam connosco no caminho dos dias. Quantas vezes ela emana timidamente em olhares, atitudes e gestos, ou em palavras que se mascaram muitas vezes do oposto.

Sim, sabemos que não é um olhar, um gesto ou um sorriso nosso que resolve. Mas pode adoçar e, por momentos, aquecer uma alma.

(Dulce Delgado, Novembro 2020)

sempre o tempo…

 

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Permitiram os últimos tempos dar tempo a tudo e também a “organizar” o passado. Gavetas, caixas e dossiers onde o tempo e os momentos da minha vida foram guardados com ternura ao longo dos anos, foram agora revisitados, lidos, relembrados, surpreendidos…

Nesse rol emocional e afectivo de mensagens, cartas e postais recebidos, encontrei uma folha  que me foi oferecida há alguns anos por um amigo com um poema da autoria da escritora Maria Teresa Horta, uma mulher interventiva, lutadora e com um papel importante na sociedade portuguesa nas últimas seis décadas.

Porque aprecio este poema, vou hoje partilhá-lo. Intitula-se O Tempo e centra-se naquele tempo que passa célere por nós…que num instante se foi…e na vida que passou. Um tema sempre actual e a ter presente todos os dias. A Vida assim o merece.

 

O Tempo

Seria já…ou ontem?
Não me lembro…

O que interessa o tempo
neste caso?
Se não fosse Agosto era Dezembro
As horas que se gastam não refazem

Seria já…ou ontem?
Não me lembro

Os anos voam
num instante de asa
E nós não o querendo vamos sendo
e sem dar por isso a vida passa.

 

(Este poema está incluído no livro Destino, editado pela Quetzal Editores em 1998)

 

(Obrigada Zé!)

 

 

 

 

lado a lado

 

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Na unidade somos naturalmente diversidade, seja nos corpos, opções, gostos, opiniões, desejos ou expectativas.

Partilhamos gestos, olhares, palavras, sentimentos, alegrias e dificuldades, sendo certo que a reacção/repercussão desses estímulos em cada um de nós é sempre diferenciada.

Neste caminho feito de relações podemos ser fortes e resistentes, ou frágeis, muito frágeis. Ou ambas as coisas em momentos diferentes.

Somos o que somos. E lado a lado vivemos todos os dias.

Atentos ou de costas viradas.

 

(Dulce Delgado, Novembro 2019)

 

 

 

36

 

D2

 

Madrid foi o destino que obrigou a estar no aeroporto de Lisboa às cinco e meia da manhã de ontem.
Em tempo de Uber’s e afins…porque te levei?

Porque sou mãe!

Porque o último abraço dado no aeroporto ficou mais próximo deste primeiro dia de Setembro dos teus 36 anos;

Porque a energia desse abraço perdurou pelo dia de ontem e hoje será sentida por ambas perante a tua voz/imagem, mas igualmente quando leres estas palavras-oferta, que percebi recentemente serem um mimo desejado neste dia;

Porque hoje não estarás perto de mim para fazeres as habituais perguntas associadas ao teu nascimento…à gravidez… ao parto…como eras…como foi…e eu não irei repetir as respostas que tu já sabes de cor. E também não irei ouvir aquela exclamação “Tãaaaaao giro!”, que naturalmente aparece após esse diálogo.

 

Para além disso, minha filha…

Os lugares guardam memórias dos seus visitantes, certamente mais emocionais se associadas a dias de aniversário. Copenhaga, Dublin, Barcelona em anos anteriores e Madrid este ano, guardarão um pouco de ti e da tua boa energia.

E eu, discretamente, gosto de pensar que as emoções despertadas por estas palavras escritas para ti e lidas por aí, ficarão algures a pairar na memória desses lugares.
Sem tempo e doces como um abraço!

 

Muitos Parabéns e um dia muito feliz!

 

 

(Dulce Delgado, 1 Setembro 2019)

 

 

três anos!

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Discretamente, eu e o blog completamos hoje três anos de vida em comum.

Começamos um pouco a medo e algo inseguros, mas estes mil e noventa e cinco dias permitiram um crescimento mútuo e uma maior segurança em tudo o que foi publicado.

Hoje sinto ternura por esses período inicial, pela alegria dos primeiros likes recebidos, dos primeiros comentários e da tensão que me causava o carregar no botão de publicar. Ou ainda, as dificuldades que senti em lidar com alguns comentários iniciais, porque não queria responder apenas “obrigada”. O que eu sentia era bem mais do que essa simples palavra, mas não encontrava a forma certa de me exprimir.

Crescemos, creio que bastante, porque essa insegurança passou apesar de sempre tentar dar o meu melhor e manter o mesmo cuidado em tudo o que publico. Não sou apologista de facilitismos.

O meu desejo é manter esta relação enquanto isso me der prazer e ir partilhando o que a sensibilidade me oferece, mas igualmente o que o meu espírito algo inquieto sempre procura. E que por vezes encontra, mas na maioria das vezes não. Sendo esse ainda o sentir preciso de continuar esta busca nas diferentes áreas que me constroem. E sempre que possível acrescentar…

…outros poemas e desenhos aos muitos já publicados
…mais fotografias para além das cinco centenas já inseridas
…e novos posts aos 395 que o blog guarda nesta data!

Assim a Vida o permita!

E obviamente continuar a seguir outros espaços de autor, porque manter um blog é também estar presente no espaço dos outros e acompanhar o seu percurso. Afinal, para todos, isto é uma aventura.

Muito obrigada por me acompanharem!