continuidade

Terminou o Verão e diluem-se no Outono os últimos instantes com sabor a praia. São momentos maravilhosos pela luz apaziguadora desta época do ano, pela tranquilidade que transmitem ao corpo e pelo amplo espaço que os areais com poucos visitantes permitem ao olhar. Tudo é paz. Ali não entram as incongruências do mundo.

É possível que ainda retorne à praia neste Outono, mas a despedida formal, aquele ultimo banho de agradecimento está em mim. Frio e intenso. Faz parte de um silencioso e íntimo ritual que acontece anualmente, como o ponto final de uma frase….cujo tema reaparece todos os anos a fim de escrever mais um parágrafo.

Entretanto, a vida seguirá pelos nossos dias. É esse o maior desejo. E na natureza também. Sempre.

Nesta praia da despedida e em todas as praias, a areia será movida pelo mar e pelos ventos.. e as ondas voluntariosas e artistas continuarão a desenhar na beira-mar as suas emoções. Todos os dias, sem falhar.

Em linhas simples e belíssimos caminhos de nada!

aquele abraço

img_7068

Quando estes dias de isolamento
e de impossível liberdade
são neutros,

frágeis…

…e de um cansaço
que envolve as horas
e os minutos
em estranha ansiedade…

…sabe a Luz
e a Paz,
um forte e sentido abraço!

Aquele nosso Abraço!

 

(Dulce Delgado, Abril 2020)

 

 

 

boas festas!

Capturar

 

As pequenas searas de trigo germinado (brotos) estão crescidas, bonitas, e com elas o desejo simbólico de uma boa energia para esta época e para o novo ano.

Julgo que este também seria o motivo que levaria a minha mãe a fazer todos os anos diversas searinhas – de trigo, grão e de outros cereais/leguminosas – que depois colocava junto ao presépio. Era uma tradição sobre a qual nunca a questionei porque era simplesmente assim. Hoje sei que esse hábito se estende a várias regiões do país e não apenas ao Algarve de onde era oriunda.

No início de Dezembro o cereal é colocado em água, num recipiente baixo, e assim mantido para que ocorra a germinação. Há muitos anos recuperei esse ritual, que mantenho, não apenas pela memória de minha mãe e simbologia associada, mas pelo prazer de seguir diariamente o seu crescimento.

Actualmente tenho uma amiga que todos os anos me oferece o trigo necessário para as fazer. Na sua família têm o hábito de associar cada membro da família a uma seara, levando a uma certa disputa para ver qual se desenvolve mais…e quem terá o melhor ano!

Nunca saberei se este espírito estaria associado às várias searas que a minha mãe religiosamente cultivava. Talvez. Pessoalmente faço sempre mais do que uma, centrando nelas o meu desejo de um ano de “abundância”, seja qual for o sentido que cada um possa dar a este termo.

Eu prefiro pensar em paz, saúde e afectos. Outros talvez se centrem em algo mais material. Seja qual for a preferência, que seja partilhado. E agradecido. Afinal o espírito desta época é, ou deveria ser essencialmente esse.

Voltando às minhas searas, que o seu saudável crescimento seja um bom presságio. Para mim, para os que me são queridos… e também para os meus leitores!

Boas Festas e obrigada por este dar e receber!

 

 

Entre o Natal e o final do ano estarei ausente do blog. Será uma discreta paragem de alguns gestos habituais como, por exemplo…o ir ao computador!
Encontramo-nos em 2020!

 

 

 

o outro lado…

mundo - ultima - Cópia

 

Não quero revolta
ou raiva
em meu sentir,
não é o caminho a seguir!

Mas ela espreita…
toca a pele
belisca o acreditar
sufoca o respirar
aperta o coração.

Reajo.

Reajo ao frio desumano
que aqui
ali
e além
mostra o lado negro do poder
e tamanha indiferença
pelo humano sofrer.

Não,
eu não quero esse sentir
negativo
em mim…

…mas questiono…

…o que dou eu ao mundo
com este discreto pensar,
e com este olhar de imaginação
e contemplação
por ondas
céu
natureza
ventos
areia
ou ar?

É algo parecido com paz…
…ou um egoísmo sem par?

 

(Dulce Delgado, Dezembro 2019)

 

 

(Imagem composta por detalhes de fotografias retiradas de diversas páginas da Internet)

 

 

 

 

ponto de luz

 

IMG_7898

 

Lisboa é apenas um ponto neste mundo.

Um ponto de um mundo simultaneamente belo e cheio de absurdos, de um mundo gerido por alguns leaders voluntariosos, perigosos, que não respeitam acordos assinados, sem noção dos efeitos das suas acções e com uma evidente falta de bom senso.

Entretanto o sol continua a nascer todos os dias.

Eu tenho a felicidade e o privilégio de tranquilamente poder apreciar esse momento neste ponto do mundo, no meu país, em segurança e em paz.

Muitos não.

 

(Lisboa, hoje)

 

 

 

 

a linha…

IMG_4600ab

Há uma linha que tudo une. Por vezes é bem perceptível e sentida, noutras invisível e ignorada.
É nossa obrigação, enquanto passageiros do Tempo e da Vida, procurar as pontas dessa linha, tentar uni-las e dar-lhes um sentido ou uma leitura. Seja a que nível for.

Em 2019, entre erros e acertos, espero continuar a construir/compreender a minha história, cujo espírito está subjacente na imagem inicial deste post e que foi composta a partir de pedras que a natureza me ofereceu. Ela revela algo muito simples porque, neste caso, é apenas a história de uma linha.

Oxalá que em 2019 a história de cada um de nós respire essa simplicidade. Seria bom para as energias do mundo. Quanto ao Ano Velho… diria que não foi fácil mas que está perdoado. Que siga em Paz!

Um bom 2019 para todos!

 

 

 

as voltas da mente…

 

IMG_4842

 

Penso…
nisto
naquilo
no além…

Para quê pensar
aqui,
neste lugar?

Ajuda o meu respirar?
Melhora o meu olhar?
Impede o dia de terminar
neste tão belo lugar?

Não!

Então,
hoje não quero pensar,
mas apenas estar
aqui,
a apreciar!

Quero…mas não consigo…

…porque a mente abre o postigo
salta do escuro abrigo
e começa a saltitar,
aqui,
em mim
no fundo do meu olhar
a desfocar o sentir
e a paz deste lugar!

Talvez…
…pôr a mente de castigo?

 

 

(Dulce Delgado,  Setembro 2018)

 

 

 

porque não?

 

1bl

 

Diz-me o pensar
para não olhar,
por ser desagradável
o que pode encontrar.

Mas ele teima
em procurar
nos meandros da realidade,
um recanto sem encanto
onde apenas depositar
um sentir
doce e de paz,
desejoso de germinar,
crescer,
e de algo transformar.

Será ilusão
este estranho acreditar
que resiste ao pensar?

Será ilusão
este sopro de silêncio
sentido no coração?

Talvez sim…
…talvez não…

Então…
…porque não apenas tentar?

 

 

(Dulce Delgado, Junho 2018)