areia sentida

Enterrar as mãos
apertá-la entre os dedos
e deixá-la esvair-se…

Senti-la na pele…

Morna,
terrena,
na sua macieza agreste
e na sua eternidade…

Areia na pele…
areia no pensamento…

…ou a minha incapacidade
de entender a sua atracção,
se na pequenez de um pequeno grão
se na sua infinidade!

(Dulce Delgado, poema antigo, não datado…mas sempre actual!)

banho de natureza

 

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A efémera beleza das flores de um nenúfar acompanha as horas de sol e o ritmo das  estações, mas a planta-mãe saboreia durante todo o ano o lento mover do fluído que a alimenta. Os nenúfares exteriorizam na Primavera e no Verão o que guardam com recato na restante metade do ano.

Recentemente senti o prazer de me banhar numa piscina biológica, cuja pureza e equilíbrio resulta da presença de diversas espécies de plantas aquáticas, incluindo nenúfares. Todas foram controladamente plantadas numa faixa na periferia do espaço e, a par dos limos e de outros micro-organismos, contribuem de uma forma natural para o processo de limpeza e oxigenação da água, meio também habitado por uma fauna específica de pequenos animais como rãs, cobras-de-água, insectos variados, incluindo muitas libélulas/libelinhas.

Centrando-me nos nenúfares…

…as várias espécies existentes  foram plantadas de modo a permitir uma certa proximidade e um diálogo “olhos nos olhos” deixando os sentidos apreciar…

…flores com morfologia e cores diferente
…folhas com formatos diferentes
…e aromas diferenciados!

Surpresa!

Apesar de olhar para os nenúfares como uma planta belíssima, misteriosa e um tanto mística, na verdade sempre esteve “longe”…ali…além…em lagos…e nunca ao nível dos meus sentidos e ao lado do meu corpo.

Ainda não experimentara…

…afagar os seus finos caules e robustas folhas…
…cheirar o aroma das flores…
…partilhar a mesma água…
…e sentir o seu tranquilo e uterino modo de vida!

Momento único este “banho de natureza”!

Como único e inesquecível foi aquele instante em que uma pequenina rã salta da folha de um nenúfar onde repousava (apreciando talvez o sol e a paisagem…), e começou a nadar junto a mim. E eu segui-a… calmamente….emocionada… e totalmente fascinada!

Depois ela seguiu para o interior do mundo dos nenúfares, uma área proibida a esta feliz humana que acabara de viver um daqueles momentos em que nos sentimos parte de algo maior e, na “pele”, a ternura desta mãe-natureza que nos enlaça e envolve.

Numa única palavra: adorei!

 

 

 

 

dias de primavera

 

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São novas as energias que vagueiam na atmosfera!

Leve e docemente,
invadem os espaços tristes
que o inverno esqueceu no nosso corpo.

Suavemente,
afagam-nos a pele
amaciam as arestas dos dias frios
e a alma fica mais quente!

Como é bom espreguiçar a vida em dias de Primavera!

 

 

(Dulce Delgado, Maio 2019)

 

 

 

 

vida aventura

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Há quem aprecie insectos e quem os deteste.

Eu gosto, numa relação inversamente proporcional ao gosto que eles demonstram pela minha pele. É claro que uns são mais interessantes do que outros mas, na generalidade, aprecio a sua leveza, subtileza, resistência, função e, em muitas espécies, a beleza.

Muito recentemente, um insecto diferente dos habituais decidiu entrar em minha casa. Era noite quando o encontramos na dispensa e, parecendo morto, ficou sobre a mesa a fim de o observar melhor no dia seguinte.

De manhã, bem vivo, passeava tranquilamente na superfície onde o deixara. Percebi que era bonito, mas só a sessão fotográfica que se seguiu revelou a textura e as cores metalizadas do seu corpo. Algumas pesquisas realizadas levam-me a supor que se tratava de uma Chrysolina americana Linnaeus, 1758

Depois….

…transportado numa pequena caixa levei-o cuidadosamente para um jardim e depositei-o num canteiro com flores. Não sei se o local foi do seu agrado ou se terá ficado aborrecido pelo facto de eu contrariar o seu esforço na busca de um tecto…

…contudo, não tenho dúvida que escolheu a habitação certa para tal aventura. Para além de encontrar gente amigável que lhe poupou a vida e o apreciou, ainda foi fotografado e irá perdurar num post, algures no éter…na “nuvem”…ou por aí…

Até na vida de um insecto, há dias em que as energias e o destino estão de acordo!

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frio sentido

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Frio
e desafiante,
o vento de Inverno
penetra os poros
e a pele
que a roupa não protege.

Com ternura
ajusto o casaco ao corpo,
aconchego as zonas expostas
e penso…

…este,
também é o papel da Mãe-Natureza…

…tocar
…alertar
…ousar despertar o sentir,
e naturalmente,
levar-nos a reagir!

 

(Dulce Delgado, Janeiro 2019)

 

 

carícias ondulantes

 

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Rasga o barco a superfície do rio…

Na água, um arrepio
branco
de espuma
penetrante
e frio.

Mas em breve
surgirá novo sentir…

…porque as ondas
divergentes e ondulantes
nascidas desse frio,
são carícias que percorrem
a pele do rio…

…doce
e lentamente…

…até desaparecerem
no azul,
no meu olhar
e no vazio!

 

 

(Dulce Delgado, Agosto 2018)