nunca…

caminho

..será seguramente uma das palavras mais difíceis do nosso vocabulário. Diria mesmo que, tal como a sua antónima sempre, ela é uma das mais “falsas”. Mas como sabemos, os opostos têm frequentemente pontos de contacto.

Hoje, o objectivo é “desmascarar” o termo nunca, porque ele pode ser “falso” quando…

… o aliamos a emoções ou a sentimentos. O tempo ajudará a demonstrá-lo e a desmenti-lo;

… ele se agarra às palavras que proferimos. Mais tarde ou mais cedo serão outras palavras que o poderão contradizer;

 … o associamos a acções que negamos ou recusamos fazer. A necessidade ou uma emergência leva-nos muitas vezes a agir contrariamente;

 … o usamos contra novas sensações. Porque no futuro, outra situação ou  circunstância, poderão levar-nos a aceitar novas experimentações.

O termo nunca é, pois, excessivo e extremado. Podemos usa-lo olhando para o passado, mas não o devemos fazer olhando para o futuro. É muito provável que nos enganemos. Porém, ele é totalmente verdadeiro numa única situação: quando se refere aos termos “futuro/tempo/vida”, porque…

          …nunca sabemos o que pode acontecer no momento seguinte

          …nunca sabemos o dia de amanhã

          …nunca sabemos o que a vida tem ainda para nos dar!

Como podem ser ambíguas as palavras que utilizamos!

entre linhas

 

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  • A linha da vida, dizem, está na palma das nossas mãos. Talvez sim…ou talvez não. Eu prefiro pensar na vida como um emaranhado de linhas, ora rectas, ora curvas, ora cruzadas…e de muitas imaginadas!
  • A linha de pensamento precisa de muita segurança para não ter desvios, mas flexibilizá-la revela no mínimo alguma inteligência;
  • A linha do tempo é a história do mundo, mas igualmente a nossa história, com muitos momentos marcantes…e muito outros sentidos como semelhantes. E nesse fluir, o tempo vai alterando o mundo, a natureza e transformando-nos também. E vai escrevendo em nós e na nossa pele, aquelas linhas expressivas, tão belas quanto difíceis… como são as rugas!
  • No olhar, a linha está em tudo. Pura, como contorno ou escondida na perspectiva, ela é a essência. Aliás, basta pensar como o desenho sintetiza a sua presença. De uma forma geral não temos consciência dessa multitude de linhas e de contornos, porque os volumes ou as cores são mais chamativos e atractivos ao nosso olhar. Porém… a linha está sempre, mas sempre presente.
    Pontualmente reparamos nessa essência, nessa linha, mas apenas quando nos provoca uma emoção: ao ver as elegantes linhas arquitectónicas de um edifício, o bonito perfil de um rosto, o contorno de um corpo ou o recorte de uma agradável paisagem. E reparamos na linha do horizonte, pela carga emocional que desperta ao estar associada ao além e ao desconhecido;
  • Visíveis ou invisíveis, as linhas estão nas páginas de um caderno ou nas folhas dos livros. E formam a pauta onde vivem as claves, as notas musicais…e tantos símbolos mais!
  • Na ponta de um lápis ou de uma caneta que seguramos, nascem as infinitas linhas que formam as letras, as palavras e que desenham o mundo. Estas linhas são arte, são prosa, são poesia…e são parte da magia que alimenta o nosso dia!

 

Mas são muitas outras as linhas que nos envolvem:

  • Na terra que habitamos, existem os virtuais paralelos e meridianos, sendo o mais popular o de Greenwich; e existem as linhas de fronteira…a linha de costa…as linhas de água…as linhas férreas… a linha de metropolitano…
  • O céu… é o campo das linhas aéreas e, mais longuiquamente, das linhas-órbita dos planetas e de outros astros, ou ainda das imaginadas linhas que dão forma e nome às constelações de estrelas;
  • Na atmosfera e na meteorologia, temos as linhas isotérmicas…as isobáricas… e outras do género mas que não sei o nome.

 

Também na sociedade que construímos elas são imensas:

  • Começando pelas linhas telefónicas, temos as de emergência…de informação…de apoio ao cliente…de saúde…etc;
  • Noutros campos, temos as linhas de crédito…as linhas de montagem…as de costura, crochet e afins…
  • As linhas de fogo… marcam as guerras deste mundo;
  • E no desporto, temos a linha de partida…a desejada linha da meta…a linha de meio campo…a linha de baliza…etc.

 

E existem ainda as linhas mais invisíveis, psicológicas, de comportamento, de conduta…  linhas  que seguimos…que nos perseguem…que transgredimos… e os “fios da navalha” das nossas vidas…

Estamos rodeados de linhas, visíveis e invisíveis. E muitas haverá que certamente esqueci. É muito interessante pensar nesse “emaranhado”de linhas que nos envolvem… regem… usamos… seguimos… vemos…

…mas curiosamente, neste tão amplo contexto, o “manter a linha” é uma das tarefas mais difíceis!!!

 

 

pensamentos…

 

tamron

Vagueia
um pensamento
entre a sombra e a luz,
por margens e muitas imagens
na busca de um lugar
onde ser
e amadurecer.

Busca difícil,
efémera
e que cedo se desfaz,
ao surgir outro pensamento
matreiro,
nítido
e bem mais eficaz…
…ou outro ainda aparecer
e também este ficar para trás!

Num instante,
sou o palco vivido
da mais absurda ironia
como ser humano e pensante:
perdi um pensamento,
e outro
e outros mais,
sendo apenas um peão,
sem voz, estratégia ou decisão,
em mais uma jogada
fria e inteligente,
da minha distraída mente…

… mas não do meu coração!

 

(Dulce Delgado, Dezembro 2016)

 

sinais

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Recentemente, de caminho para um supermercado, tentava lembrar-me de algo que sabia ter em falta, que era importante, mas que esquecera de registar na lista das compras na devida altura. Pensei, pensei… mas a memória nada me dizia!

Estacionado o carro, olho em frente e…fiquei atónita! Estava ali, perante os meus olhos e no exterior de um automóvel de uma conhecida agência imobiliária, a resposta que a memória não me deu: a palavra “coentro”, sendo neste caso o apelido do vendedor que utilizava essa viatura.

Foi com uma estranha sensação que entrei no espaço comercial e iniciei as compras. Ao chegar aos legumes, outra surpresa: ao lado de uma caixa replecta de embalagens de salsa, estava uma única embalagem de coentros…a olhar para mim! E eu fiquei a olhar para ela, obviamente satisfeita… mas algo perturbada com mais esta situação. De imediato pensei que estaria danificada, suposição que estava errada. Peguei nestes coentros com todo o carinho… e coloquei-os no cesto.

Fase seguinte: pensar sobre o sucedido…

Seria uma coincidência? Um acaso? Um alerta? Não sei!
Apesar de não ser a primeira vez que me acontece este tipo de situação (que certamente se passa com todos), tentei racionalmente perceber… mas a verdade, é que a mente não foi capaz de o fazer. Apenas me disse…

…que não era importante arranjar uma resposta objectiva e plausível, porque não a iria encontrar;
…que nem tudo é justificável;
…que poderia arranjar uma explicação mais esotérica…baseada na eventualidade de sermos energéticamente “orientados” neste nosso caminho… uma sensação muito pessoal que tenho, mas que sendo uma matéria complexa e que não domino, também não quero ir por aí…
…e disse-me algo mais, talvez o principal: que este episódio marcante serviu para “reavivar” a noção de como é  importante estarmos o mais possível atentos, quer ao que se passa em nossa volta, aos sinais exteriores, quer ao nosso interior, tentando perceber as emoções sentidas e as intuídas.

Tal como o “coentro” escrito naquele automóvel foi a resposta que eu precisava naquele momento, muitas outras respostas ou indicações estarão “perto ou dentro de nós”, mas acabam por não ter reprecurssão na nossa vida porque não estamos suficientemente atentos nem receptivos para as  entender.

Acredito profundamente que uma grande parte do nosso equillibrio estará nesses detalhes, sejam eles vistos, sentidos, percebidos ou intuidos, e na nossa receptividade a essa “troca de mensagens”. Eles são igualmente aquela voz interior que nos diz “vai… segue em frente… persiste nesse o caminho…estás certa…é isso mesmo…” ou, por outro lado, a que nos diz “cuidado…pensa bem…isto não é bom para ti…muda de rumo…” . No fundo e em conjunto, todas estas mensagens, sinais e intuições são a “voz sem palavras”, a energia ou a força que, silenciosamente, nos vai mostrando o caminho.

Sim…é verdade, nem sempre a “leitura” que fazemos está correcta, mas… como seres imperfeitos, como é que poderíamos intuir e compreender sempre esses “sinais”?

Tudo isto… veio a propósito de um estranho ramo de coentros!

 

 

 

dúvida

 

IMG_3184 - Cópia

 

Entre o avançar e o retroceder, existe um ponto. De paragem, de dúvida.
Um lugar de reflexão, de ouvir a mente e  o coração.

Avançar, pode significar abertura, o novo, a aventura, o sair da zona de conforto. O enfrentar o medo e superá-lo. Ou não.
Retroceder, é excluir hipóteses, fechar, interiorizar. Fugir ao risco em favor do conforto e da contenção. Guardar o medo.

Ambos são caminhos possíveis e ambos estão certos. E tão difícil pode ser um, como pode ser o outro.

Por isso, deixemos o coração escolher!

 

 

férias de praia

 

nossa praia a

 

Falar de férias e de praia, é falar de um tempo de sol e de banhos, activos ou suaves, que envolvem o corpo numa letargia entre o quente e o morno.

As horas de praia são horas de quase nada. Se os olhos querem, fecham, se o corpo quer, dorme. Este, mais relaxado, passeia pelo repouso, como se esse fosse o tema dos seus dias. No torpor das férias de praia, até os gestos são parcos. Imperam os diferentes, aqueles que não se fazem todos os dias, porque são apenas os acessórios. O essencial é simplesmente não fazer!

Os sentidos estão atentos a outros estímulos, sons e olhares que o resto do ano não permite. Também os pensamentos se perdem. Um vai com a onda, outro é levado pelo barco que passa, outro vem com a gaivota ou com as pessoas que passeiam à beira-mar. Ou fica apenas a pairar, porque nada tem a esperar.

Os pensamentos de férias não precisam de ser nem correctos nem claros, porque eles são essencialmente ar, areia e mar!

É obvio que é impossível separar totalmente os tempos. Há pensamentos que permanecem, preocupações que se distendem na nossa mente, como elásticos, todos os dias do ano. Até em férias. Mas as ondas e a espuma deixam-nos mais suaves, a maresia atenua os seus contornos. Ficam mais ar e menos matéria.

No fundo, é esse o papel de umas férias de praia: deixar-nos mais voláteis, mais leves e menos densos!

 

zapping

 

Quando um homem se senta no sofá, pega no comando da televisão e faz um zapping, é possível que esse acto conduza ao objectivo a que se propôs, ou seja, o encontrar um programa para ver.

Mas quando uma mulher vai para o sofá e pega no comando, ou já sabe exactamente o que quer ver, ou então o processo não tem essa objectividade e o que se passa a seguir é muito curioso.

Sendo a mente feminina bem mais complexa, é continuamente palco de um encadeado de pensamentos sem princípio nem fim, em que um pensamento leva a outro, este a mais dois ou três (vindos do passado…. ou das expectativas!), depois volta de novo o tal que já tinha aparecido… e obviamente aqueles sempre presentes relacionados com o trabalho, os filhos, a casa, o jantar, o cão, o gato… etc, etc.

A maioria das mulheres saberá do que estou a falar e do filme sem nexo em que por vezes se transforma a sua cabeça.

Quando ela faz um zapping, a atenção centra-se no écran, cenário onde desfilam sequências de imagens (que raramente lhe permitem identificar o programa, mas isso também não é importante!), mas que tem alguma semelhança com o processo que ela constantemente acolhe na sua cabeça. A grande diferença aqui, está no facto de, com grande facilidade, ela ter o controle da situação, bastando-lhe para isso carregar no botão do comando e passar ao canal seguinte, num processo silencioso do tipo: “passa!”. ..”já chega”…”não!” … “fora!”…”que horror”…”este não interessa”…e assim por diante. Durante esse tempo esquece-se do seu “novelo de pensamentos de estimação” e por algum tempo a cabeça fica mais limpa e é alvo de um arejamento. Como se muitos dos pensamentos ficassem para trás juntamente com os canais da televisão!

Se este processo se desenrolar com ela confortavelmente estirada num sofá, funciona um pouco como terapia e como um spa caseiro. E é muito possível que, depois de passar por dezenas de canais, nada tenha encontrado para ver porque, objectivamente, a real intenção do seu zapping não é  essa. Porém, sente-se melhor e mais relaxada.

A partir daqui, são duas as hipóteses mais prováveis: ou adormece no sofá e continua o relaxamento, ou volta para a sua cabeça e para o seu eterno “filme”!