passariformes pensamentos

“Vou…

…ou não vou?

Se vou, pode aparecer o gato que vive neste quintal…

Se não vou, fico a pensar no que poderia ter comido e não aproveitei…

E estou com fome…

Arrisco…ou não arrisco?”

?

(Será que cabeça de pássaro também é complicada?)

os tons da vida

 

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No meu dia-a-dia profissional, o olhar pousa amiúde sobre uma paleta com tintas e acompanha o gesto de encontrar um tom específico que logo será depositado em determinada área de uma pintura em fase de restauro.

Neste vai-e-vem do olhar e da mão, a atenção não fica presa ao acto em si, algo já bastante automatizado depois de anos e anos de experiência. O pensamento vagueia por ali, com e sem objectivo, factor que também depende dos dias, dos momentos, das preocupações e até do grau de empatia com o trabalho.

Neste divagar, recentemente percebi algo interessante…

Na paleta, eu sei com segurança…

…as cores a misturar para certo tom encontrar
…como neutralizar um tom que se quer afirmar
…que misturas não é conveniente fazer
…a importância de um toque mínimo ou de uma velatura no resultado final
…ou o efeito do tempo sobre camadas aplicadas à pressa.

Na Vida, eu nem sempre sei

…que escolha fazer
…como resolver de imediato um problema que tenho pela frente
…as consequências exactas dos meus actos
…como evitar um problema de se agravar
…ou o que o tempo e o futuro dirão das minhas opções

Ou seja, nesta paleta de emoções, de escolhas e de partilha que é a Vida, a mistura de “cores” é totalmente imprevisível. Aqui prevalece a incerteza e as circunstâncias que podem levar de um momento para o outro a uma mudança de rumo ou de estratégia.

Apesar disso, estará na pureza, na qualidade e na escolha dessas “cores” a possibilidade de o “tom final” ser mais genuíno, enriquecedor e duradouro.

 

(e continuei a trabalhar…)

 

 

 

 

a onda…

 

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No deslizar do mar….

 

…vem uma onda
que ultrapasso a saltar,

…outra
que me eleva a flutuar,

 …e outra
em que mergulho sem pensar,

…mas numa maior e inesperada
sou enrolada,
esbracejo
e num salgado respirar
sou arrastada para a beira-mar!

Em terra firme
um pensamento fugaz…

…nas ondas da Vida
como nas ondas do mar,
há sempre uma surpresa
que nos confronta
dá luta
incomoda
e ensina sem palavras,
que a atenção não pode faltar!

 

(Dulce Delgado, Julho 2020)

 

 

 

 

 

liberdade em dia

 

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Neste Dia da Liberdade…

…posso ler e pensar o que quiser,
partilhar as ideias que me apetecer,
voar com o imaginar,
e ser livre de pensamento
e com ele passear ao vento.

Porém,
neste Dia da Liberdade…

…estou presa em grades invisíveis
e isolada da comunidade,
com movimentos limitados
e liberdades impossíveis.

Hoje,
quarenta e seis anos depois
vivemos o paradoxo da Liberdade de Abril,
uma liberdade que nos limita os dias
os movimentos
e os gestos,
é certo,
mas que existe e é nossa.

Agora,
a liberdade espera-nos atrás da porta
e canta nas varandas do país,
respira na criatividade das redes sociais
revela-se em gestos generosos
nos detalhes partilhados
e vive,
segura e adulta,
nos direitos por Abril conquistados.

Hoje,
neste Dia da Liberdade
e um tanto à revelia,
a Liberdade é nossa
a Liberdade está em dia!

 

Dulce Delgado
(Portugal, 25 Abril 1974 / 25 Abril 2020)

 

 

 

 

o pensar do coração

 

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Numa esquina da vida
choca o sim com o não,
surgindo o irritante …
…talvez sim
…ou talvez não!

Ziguezagueante,
segue este duplo talvez
pelo hesitante xadrez
do pensamento,
encontrando no caminho
o mas
o porém
o se
o contudo
o todavia
e outros inseguros amigos
que reforçam sem compaixão
a sua profunda indecisão.

E assim segue pelo tempo…

Cansado de pensar
e de tanto equacionar,
decide o pensamento
perguntar ao coração
se o pode ajudar
a tomar uma decisão.

Sorrindo sem pretensão
mas seguro do seu valor,
o coração abranda o ritmo
e procura,
no interior da emoção,
qual será o sentir
que vibra com mais ardor.

Descoberta a solução
é hora de ser acção
e de pulsar fortemente
ao surgir o pensamento
sim,
ou o pensamento
não,
anulando de vez
o talvez
e tamanha indecisão!

 

Moral da história: em caso de persistência da dúvida, consulte o coração!!

 

 

(Dulce Delgado, Janeiro 2020)

 

 

 

 

preconceito…

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…as portas que a mente fecha antes do pensar

…um pensamento preso numa viela do tempo

…respirar superficial que se alimenta da moral

…escolher a rejeição sem hipótese de discussão

…a superstição de uma mente fechada e resistente

…desprezar a possibilidade perante a dualidade

…relutância em pensar fora do linear

…escolher o generalizar sem a razão procurar

…uma ideia limitada que se antecipa à possibilidade

…sentir de hostilidade perante a diversidade

…e o hábito de julgar sem ouvir, de forma justa e imparcial, outros modos de sentir!

 

(Dulce Delgado, Setembro 2019)

 

 

 

pensamento ao vento

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O vento
levou-me um pensamento…

…que logo procurei
no instante de um olhar.

Um pedaço
voava no céu,
outro nadava no mar.

Tentei resgatá-los
no tempo de um respirar,
na esperança de os unir
e o pensamento voltar.

Impossível.

Com o original partido
e no éter meio perdido…
…logo outro me veio habitar!

 

(Dulce Delgado…no Dia Mundial do Vento!)

 

 

diferença

 

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Uma das orquídeas que possuo começou recentemente a sua floração anual, momento que sempre acompanho com gosto e curiosidade.

Um olhar mais atento sobre as três primeiras flores entretanto nascidas, revelou a presença de uma bastante diferente, seja pela ausência da parte central como pelo tipo de recorte e número de pétalas. A curiosidade levou-me a contactar a Associação Portuguesa de Orquidofilia, que prontamente me esclareceu, dizendo tratar-se de uma flor defeituosa, e que “…hoje em dia e para se chegar aos preços tão baixos a que chegamos fazem-se híbridos por vezes com pouco cuidado. As outras flores devem nascer normais”.

Sendo uma leiga nesta matéria, fiquei obviamente esclarecida. Contudo…

…rapidamente fui levada a transpor esta frase para um contexto mais amplo e para a forma como a filosofia do lucro está implantada em todos os níveis da sociedade e da nossa vida. Interessa produzir rápido e muito, para vender depressa e ganhar mais. A quantidade sobrepõe-se à qualidade, filosofia que acabamos por alimentar constantemente em inúmeras ocasiões quase sem darmos por isso.

Não recordo a origem exacta desta orquídea, mas certamente é um desses híbrido nascidos de “uma linha de montagem” para alimentar o mercado em quantidade e a preços baixos.

Esse desenrolar de pensamentos, porém, não afectou em nada o prazer que tenho em olhar para a sua elegância e detalhes. Diria mesmo que me sinto privilegiada por ter esta planta comigo e por ela ter gerado algo tão diferente sob o meu olhar. Poderá ser defeituosa ou deficiente, mas é portadora de uma beleza única, muito própria e fora do habitual.

Aprecie-mo-la por isso, em toda a sua individualidade.