oceano

 

oceano-pacifico

 

Imenso,
suave
e soberano,
estende-se o olhar
pela planura do oceano.

Puro engano!

O oceano
não é plano
nem linear,
mas um amplo e vasto monte
formado de mil horizontes
unidos por longas pontes
nascidas do nosso olhar!

 

(Dulce Delgado, Fevereiro 2017)

 

 

Imagem retirada de http://www.techenet.com/2014/02/ventos-sobre-o-oceano-pacifico-podem-ter-travado-o-aquecimento-global/

 

misterioso sol

 

No primeiro dia de Fevereiro de 1905, faz hoje 112 anos, nasceu a minha avó materna. Deram-lhe o nome de Adelina.

Poderia dizer mil coisas sobre ela, sobre a sua vida ou sobre a relação que tivemos, mas por respeito, sinto que devo manter isso na esfera privada.

Contudo, alguns anos antes de falecer, contou-me um episódio da sua infância, uma história sobre o seu sentir, muito simples, mas reveladora da ingenuidade e da forma de estar de uma criança que vivia num monte algarvio no início do século XX.

Agarrei nele e fiz este poema que hoje partilho e ao qual dei o nome de Misterioso sol.

Estou certa que a minha avó, que também escrevia poesia, não se importaria de ver a sua vivência escrita desta forma pela neta. E para mim, é uma pequena homenagem a alguém que muito admirava.

 

Nasceu a sul este poema.
E viveu no imaginar
de uma criança de outro tempo,
que perto da sua casa
gostava de se sentar,
de sonhar com o mar que não conhecia,
de ver o horizonte
e o céu azul,
ou o sol a nascer
e o dia a desaparecer.

A casa
onde morava
olhava os montes,
suaves e ondulantes,
que encantavam
a menina
naquele lugar onde vivia.

Ao lado da porta
havia uma pedra,
a sua pedra,
o lugar onde se sentava
para descansar,
olhar
muito pensar
tudo imaginar
e sempre divagar…

…sobre o sol…

…que mistério o levaria
a num lado se esconder
e no outro a aparecer?
Por onde andaria
nesse tempo de escuridão
até de novo ser dia
e o voltarmos a rever?

Cansada de tanto pensar
e na esperança
de entender,
teve um dia uma lembrança
e a certeza,
de finalmente descobrir
aquele grande mistério
que sempre via acontecer.

Então,
acreditou profundamente
que depois do anoitecer,
o sol percorria
devagar
e escondidinho
para ninguém o ver,
aquele longo caminho
monte após monte,
até ao lugar
de novamente aparecer.

E aí,
ele voltava a espreitar,
o dia a brilhar
e o tempo a aquecer!

 

(Dulce Delgado, Fevereiro 2017)

 

 

doce memória

 

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Como viajante no tempo, a memória tem o dom de facilmente nos levar a situações, lugares, pessoas ou emoções que nos marcaram. Essas viagens são as recordações, que podem ser doces, neutras ou amargas. Contudo, à medida que o tempo passa, muitas começam a ser sentidas de forma diferente, transformando-se em ternura. Diria que se “instalam” naturalmente no nosso coração!

Nos últimos dezoito anos, é raro o dia em que não recordo a minha mãe. Por isto, por aquilo…ou por nada! Hoje, o que sinto, é uma imensa ternura, uma doce memória, já sem dor nem tristeza, mas sim com muita gratidão pelo muito que deixou em mim.

O poema que se segue foi escrito pouco depois do seu falecimento, que ocorreu no último dia do mês de Novembro de 1998. Daí, a publicação deste post no dia de hoje. Apesar de datado no tempo e construído de uma forma que não seria a de agora, a mensagem e o sentimento que revela continuam semelhantes… actuais…e sempre dentro de mim!

 

Mãe

Pouco tempo antes de partires
disseste-me a medo que nada compreendias
porque, apesar da idade
ainda te sentias menina.

Chegou então o dia da grande viagem…

Em liberdade etérea
terás voado entre nuvens e horizontes
e respirado os pormenores da vida
que em vida te foram fugindo.

Terás agora dentro de ti
todas as plantas e flores que apreciavas
montes, vales e amplas paisagens
ou o mar da tua infância que nunca esquecias.

Neste tempo sem limites
e de presença ausente
estarei sempre contigo
Mãe,
porque em mim,
ficou a tua semente!

 

 

liberdade

 

Manhã
de doce calma
céu azul
e ar límpido,
tempo de respirar fundo
tempo de arejar a alma.

E de planar
sem parar,
num voo longo e imenso,
sentindo o ar e o vento
num afago doce
e intenso.

E quando
ao céu eu chegar,
no vasto azul eu desenho,
uma lufada de ar
para a alma respirar!

Doce liberdade que não tenho…
…resta-me a liberdade de sonhar!

 

(Dulce Delgado, Julho 2016)

 

as ondas…

 

…de longe deslizam
suavemente
sobre o mar,
talvez na ideia
de um amor encontrar.

Abraçam a praia
com uma carícia de espuma branca
leve e refrescante,
delícia sentida
por uma areia expectante.

Fundem-se a onda e a areia
à beira-mar,
palco único
e eternamente escolhido,
para tão bela forma de amar!

 

(Dulce Delgado, Julho, 2016)

 

o tejo e a ponte

 

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Todos os dias,
o Tejo e a ponte
recebem o meu olhar.

Pelo rio,
deslizo ondulante
sonhando chegar ao mar,
e na ponte,
sou linha a flutuar
suspensa no horizonte.

Viajando entre margens,
sou livre de imaginar
de riscar novas viagens
ser ideia
e ser pensar,
ou seguir rumo ao sul
porque o norte quero encontrar.

Tudo vale
nesse meu olhar…

…até uma gaivota passar,
e em silêncio o levar
o pousar noutro lugar.

Novo dia,
outro estar,
mas à ponte e ao Tejo
eu sei que vou voltar!

 

(Dulce Delgado, Junho 2016)

nevoeiro no tejo

 

Branco e húmido,
o nevoeiro deslizou pelo rio
e a sua pele,
sem forma,
docemente afagou as margens.

Curioso,
penetrou em cada lugar
num olhar breve,
efémero
entre o ser
e o dissipar.

Com memória
de outras viagens
e saudades de um reencontro,
carinhosamente
e como velhos amigos,
abraçou a ponte
e o Cristo-Rei,
que suspenso no ar
ficou a pairar!

 

(Dulce Delgado, Junho 2016)