poema sem tema

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Quero um poema
sem tema.

Um poema livre
isento,
sem dilema
ou problema.

Talvez,
um anárquico poema
de palavras sem lema…

…ou,
um não poema
de sílabas
fugidas do sistema.

Sem estratagema.

Então pedi ao e
para se agarrar ao ma,
e num momento de devaneio
construírem um poema…

…singular
…meio louco
…e fora do esquema!

 

 

(Dulce Delgado, Outubro 2018)

 

 

 

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porque não?

 

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Diz-me o pensar
para não olhar,
por ser desagradável
o que pode encontrar.

Mas ele teima
em procurar
nos meandros da realidade,
um recanto sem encanto
onde apenas depositar
um sentir
doce e de paz,
desejoso de germinar,
crescer,
e de algo transformar.

Será ilusão
este estranho acreditar
que resiste ao pensar?

Será ilusão
este sopro de silêncio
sentido no coração?

Talvez sim…
…talvez não…

Então…
…porque não apenas tentar?

 

 

(Dulce Delgado, Junho 2018)

 

 

 

 

oceano

 

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Imenso,
suave
e soberano,
estende-se o olhar
pela planura do oceano.

Puro engano!

O oceano
não é plano
nem linear,
mas um amplo e vasto monte
formado de mil horizontes
unidos por longas pontes
nascidas do nosso olhar!

 

(Dulce Delgado, Fevereiro 2017)

 

 

Imagem retirada de http://www.techenet.com/2014/02/ventos-sobre-o-oceano-pacifico-podem-ter-travado-o-aquecimento-global/

 

misterioso sol

 

No primeiro dia de Fevereiro de 1905, faz hoje 112 anos, nasceu a minha avó materna. Deram-lhe o nome de Adelina.

Poderia dizer mil coisas sobre ela, sobre a sua vida ou sobre a relação que tivemos, mas por respeito, sinto que devo manter isso na esfera privada.

Contudo, alguns anos antes de falecer, contou-me um episódio da sua infância, uma história sobre o seu sentir, muito simples, mas reveladora da ingenuidade e da forma de estar de uma criança que vivia num monte algarvio no início do século XX.

Agarrei nele e fiz este poema que hoje partilho e ao qual dei o nome de Misterioso sol.

Estou certa que a minha avó, que também escrevia poesia, não se importaria de ver a sua vivência escrita desta forma pela neta. E para mim, é uma pequena homenagem a alguém que muito admirava.

 

Nasceu a sul este poema.
E viveu no imaginar
de uma criança de outro tempo,
que perto da sua casa
gostava de se sentar,
de sonhar com o mar que não conhecia,
de ver o horizonte
e o céu azul,
ou o sol a nascer
e o dia a desaparecer.

A casa
onde morava
olhava os montes,
suaves e ondulantes,
que encantavam
a menina
naquele lugar onde vivia.

Ao lado da porta
havia uma pedra,
a sua pedra,
o lugar onde se sentava
para descansar,
olhar
muito pensar
tudo imaginar
e sempre divagar…

…sobre o sol…

…que mistério o levaria
a num lado se esconder
e no outro a aparecer?
Por onde andaria
nesse tempo de escuridão
até de novo ser dia
e o voltarmos a rever?

Cansada de tanto pensar
e na esperança
de entender,
teve um dia uma lembrança
e a certeza,
de finalmente descobrir
aquele grande mistério
que sempre via acontecer.

Então,
acreditou profundamente
que depois do anoitecer,
o sol percorria
devagar
e escondidinho
para ninguém o ver,
aquele longo caminho
monte após monte,
até ao lugar
de novamente aparecer.

E aí,
ele voltava a espreitar,
o dia a brilhar
e o tempo a aquecer!

 

(Dulce Delgado, Fevereiro 2017)

 

 

doce memória

 

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Como viajante no tempo, a memória tem o dom de facilmente nos levar a situações, lugares, pessoas ou emoções que nos marcaram. Essas viagens são as recordações, que podem ser doces, neutras ou amargas. Contudo, à medida que o tempo passa, muitas começam a ser sentidas de forma diferente, transformando-se em ternura. Diria que se “instalam” naturalmente no nosso coração!

Nos últimos dezoito anos, é raro o dia em que não recordo a minha mãe. Por isto, por aquilo…ou por nada! Hoje, o que sinto, é uma imensa ternura, uma doce memória, já sem dor nem tristeza, mas sim com muita gratidão pelo muito que deixou em mim.

O poema que se segue foi escrito pouco depois do seu falecimento, que ocorreu no último dia do mês de Novembro de 1998. Daí, a publicação deste post no dia de hoje. Apesar de datado no tempo e construído de uma forma que não seria a de agora, a mensagem e o sentimento que revela continuam semelhantes… actuais…e sempre dentro de mim!

 

Mãe

Pouco tempo antes de partires
disseste-me a medo que nada compreendias
porque, apesar da idade
ainda te sentias menina.

Chegou então o dia da grande viagem…

Em liberdade etérea
terás voado entre nuvens e horizontes
e respirado os pormenores da vida
que em vida te foram fugindo.

Terás agora dentro de ti
todas as plantas e flores que apreciavas
montes, vales e amplas paisagens
ou o mar da tua infância que nunca esquecias.

Neste tempo sem limites
e de presença ausente
estarei sempre contigo
Mãe,
porque em mim,
ficou a tua semente!

 

 

liberdade

 

Manhã
de doce calma
céu azul
e ar límpido,
tempo de respirar fundo
tempo de arejar a alma.

E de planar
sem parar,
num voo longo e imenso,
sentindo o ar e o vento
num afago doce
e intenso.

E quando
ao céu eu chegar,
no vasto azul eu desenho,
uma lufada de ar
para a alma respirar!

Doce liberdade que não tenho…
…resta-me a liberdade de sonhar!

 

(Dulce Delgado, Julho 2016)

 

as ondas…

 

…de longe deslizam
suavemente
sobre o mar,
talvez na ideia
de um amor encontrar.

Abraçam a praia
com uma carícia de espuma branca
leve e refrescante,
delícia sentida
por uma areia expectante.

Fundem-se a onda e a areia
à beira-mar,
palco único
e eternamente escolhido,
para tão bela forma de amar!

 

(Dulce Delgado, Julho, 2016)