sentir citadino

 

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Sob o sol brilhante
de um dia com meia idade,
o Tejo afaga as margens
num tranquilo
e terno abraço.

Aqui, neste lugar,
sou olhar
rio
luz
e silêncio
no ruído da cidade,
um imenso instante
de profunda igualdade!

 

(Dulce Delgado, Abril 2019)

 

 

 

3,141592653589793….

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Descobri
ser hoje o dia do Pi…

…aquele número decimal,
irracional
e cheio de história,
que habita um recanto
bem escondido da memória.

Um estranho
e infinito número
que nem sempre entendi…
…mas há séculos nascido
da relação não amorosa
mas feliz para a ciência,
entre o perímetro e o diâmetro
da famosa circunferência.

A necessidade de limitar
o seu infinito tamanho
a tão finito lugar,
levou a abrevia-lo
e ao grego ir buscar
um símbolo para o nomear.

π
3,14…
ou Pi, para os amigos…

…um número ímpar
culpado por complicar
mas sempre com álibi!
E que rima com sorri,
esse doce trejeito
que  talvez possa estar
na face de quem leu
este poema até aqui!

Cordiais saudações ao Pi, neste seu dia!

 

 

(Dulce Delgado, Março 2019)

 

 

 

poema sem tema

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Quero um poema
sem tema.

Um poema livre
isento,
sem dilema
ou problema.

Talvez,
um anárquico poema
de palavras sem lema…

…ou,
um não poema
de sílabas
fugidas do sistema.

Sem estratagema.

Então pedi ao e
para se agarrar ao ma,
e num momento de devaneio
construírem um poema…

…singular
…meio louco
…e fora do esquema!

 

 

(Dulce Delgado, Outubro 2018)

 

 

 

porque não?

 

1bl

 

Diz-me o pensar
para não olhar,
por ser desagradável
o que pode encontrar.

Mas ele teima
em procurar
nos meandros da realidade,
um recanto sem encanto
onde apenas depositar
um sentir
doce e de paz,
desejoso de germinar,
crescer,
e de algo transformar.

Será ilusão
este estranho acreditar
que resiste ao pensar?

Será ilusão
este sopro de silêncio
sentido no coração?

Talvez sim…
…talvez não…

Então…
…porque não apenas tentar?

 

 

(Dulce Delgado, Junho 2018)

 

 

 

 

oceano

 

oceano-pacifico

 

Imenso,
suave
e soberano,
estende-se o olhar
pela planura do oceano.

Puro engano!

O oceano
não é plano
nem linear,
mas um amplo e vasto monte
formado de mil horizontes
unidos por longas pontes
nascidas do nosso olhar!

 

(Dulce Delgado, Fevereiro 2017)

 

 

Imagem retirada de http://www.techenet.com/2014/02/ventos-sobre-o-oceano-pacifico-podem-ter-travado-o-aquecimento-global/

 

misterioso sol

 

No primeiro dia de Fevereiro de 1905, faz hoje 112 anos, nasceu a minha avó materna. Deram-lhe o nome de Adelina.

Poderia dizer mil coisas sobre ela, sobre a sua vida ou sobre a relação que tivemos, mas por respeito, sinto que devo manter isso na esfera privada.

Contudo, alguns anos antes de falecer, contou-me um episódio da sua infância, uma história sobre o seu sentir, muito simples, mas reveladora da ingenuidade e da forma de estar de uma criança que vivia num monte algarvio no início do século XX.

Agarrei nele e fiz este poema que hoje partilho e ao qual dei o nome de Misterioso sol.

Estou certa que a minha avó, que também escrevia poesia, não se importaria de ver a sua vivência escrita desta forma pela neta. E para mim, é uma pequena homenagem a alguém que muito admirava.

 

Nasceu a sul este poema.
E viveu no imaginar
de uma criança de outro tempo,
que perto da sua casa
gostava de se sentar,
de sonhar com o mar que não conhecia,
de ver o horizonte
e o céu azul,
ou o sol a nascer
e o dia a desaparecer.

A casa
onde morava
olhava os montes,
suaves e ondulantes,
que encantavam
a menina
naquele lugar onde vivia.

Ao lado da porta
havia uma pedra,
a sua pedra,
o lugar onde se sentava
para descansar,
olhar
muito pensar
tudo imaginar
e sempre divagar…

…sobre o sol…

…que mistério o levaria
a num lado se esconder
e no outro a aparecer?
Por onde andaria
nesse tempo de escuridão
até de novo ser dia
e o voltarmos a rever?

Cansada de tanto pensar
e na esperança
de entender,
teve um dia uma lembrança
e a certeza,
de finalmente descobrir
aquele grande mistério
que sempre via acontecer.

Então,
acreditou profundamente
que depois do anoitecer,
o sol percorria
devagar
e escondidinho
para ninguém o ver,
aquele longo caminho
monte após monte,
até ao lugar
de novamente aparecer.

E aí,
ele voltava a espreitar,
o dia a brilhar
e o tempo a aquecer!

 

(Dulce Delgado, Fevereiro 2017)