tristeza

 

preto

 

Ao longo dos quase três anos deste blog, tenho tentado manter a mesma linha que o levou a nascer: partilhar sentires, momentos, lugares e alguma da criatividade que comigo nasceu, mas de uma forma tendencialmente doce, positiva e discreta, porque é essa a forma que tenho de estar comigo e de me enquadrar no mundo. Acredito, com humildade, que as energias daí nascidas são boas e que o mundo precisa das nossas melhores energias. Tento apenas contribuir com uma ínfima parte.

Contudo, sendo uma cidadã do mundo, é óbvio que há situações que geram outro tipo de energias menos simpáticas. Em resposta, não as alimento com raiva, porque esse é um sentimento que não quero dentro de mim; também não as alimento dando continuidade de uma forma quase irracional em redes sociais, como vemos amiúde; e, de uma forma geral, não as alimento com grandes conversas porque, seja em que campo for, há sempre pessoa preparadas e especializadas para falar, escrever e debater esses temas mais polémicos com competência e seriedade. Eu nada acrescentaria de novo.

Hoje, porém, vou desviar-me um pouco dessa linha de conduta, sendo certo que a energia emocional com que escrevo não é doce nem mesmo positiva. É de tristeza, incompreensão e, não obstante estar ciente que estas palavras nada acrescentam, preciso de as escrever.

Fazendo a ponte…

Apesar de vestir amiúde o preto, porque gosto dessa cor e nunca a associei a luto ou a dor, hoje vesti uma peça desse tom conscientemente e por uma causa. É um preto/negro solidário, porque esta noite mais uma mulher foi morta em Portugal pelo seu companheiro, exactamente no dia de luto nacional pela violência doméstica.

Estamos na décima semana do ano de 2019 e esta última vítima foi a 12ª a morrer no meu país. A continuar este ritmo, serão o dobro do ano anterior. Caberá ao estado e às suas instituições agir rapidamente sobre a situação, esperando que esse agir seja firme, real e com efeitos a curto prazo, pelo menos na actuação a ter com casos já referenciados. Não será tolerável que as acções recentemente divulgadas e ainda em fase embrionária não sejam desenvolvidas com rapidez e rigor. Vamos aguardar, mas todos sabemos que algo tem que ser feito.

Como ser humano, revolta perceber que as situações de violência existem porque o senso, o chamado bom senso deixou de existir e foi completamente engolido por sentimentos doentios, irracionais e até capazes de matar quem, em certo momento, se escolheu para partilhar a vida ou mesmo ter filhos.
É difícil imaginarmos o leque de emoções que este tipo de acontecimento/violência deverá gerar ao longo da vida dos protagonistas, especialmente das vítimas: haverá amor e ódio, ilusão e desilusão, alegria e dor, confiança e terror. E haverá o viver ou o morrer.

Todas as vítimas foram mulheres. Doze homens do meu país preferiram alimentar o seu orgulho masculino e matar por ciúme, amor ou ódio. Preferiram escolher a cadeia e muitos anos sem liberdade a aceitar que as situações e os sentimentos mudam, e que as suas companheiras não são objectos nas suas mãos.

A realidade nua e crua mostra que às mãos desta ignorância e de tanta falta de educação vão morrendo seres humanos que, um dia, sonharam e desejaram um futuro de paz e de comunhão com os seus parceiros.
E infelizmente, mais se seguirão.

Se por um lado é necessário actuar de imediato em algumas frentes, creio que será na família e na escola que estará a solução para este problema, mesmo que os efeitos sejam a médio ou longo prazo. Sensibilizar os jovens, será a chave.

Então que esse papel seja assumido com empenho pelo estado e pela sociedade no geral, e por todos nós em particular no nosso pequeno circulo de acção. Será a solução para uma meta a atingir. Sem desvios nem recuo.

Hoje, o meu preto, é mesmo de luto.

 

 

 

 

 

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árvore europeia do ano

 

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Em Novembro último partilhei convosco a votação para a eleição da árvore portuguesa do ano. A escolhida pelo público foi a enorme Azinheira Secular do Monte Barbeiro, representada na imagem acima.

Agora, durante todo o mês de Fevereiro, este belíssimo exemplar está a competir para o título de Árvore Europeia do ano 2019 ao lado de outras espécies oriundas de catorze países europeus. Em 2018, Portugal conquistou esse galardão com o Sobreiro “Assobiador” de Águas de Moura.

Seja pela elegância, história ou dimensão, todas estes exemplares têm algo que é sempre interessante conhecer. Nesse sentido, sugiro que entrem aqui, “acariciem” todas estas árvores com a vossa leitura e escolham as duas que mais vos agradaram. Depois votem! É rápido e nada custa!

 

 

Imagem retirada de https://www.sulinformacao.pt/2018/11/azinheira-secular-de-mertola-e-candidata-a-arvore-de-2019/

 

 

 

livrar

 

Capturarlivrar

 

Disponibilizar livros que já não queremos ou ter acesso a outros que gostaríamos de ler é o que a plataforma digital LIVRAR permite desde meados deste mês.

Basta criar uma conta, escolher o que queremos fazer e posteriormente combinar a melhor forma de dar ou receber determinado livro. As bibliotecas também têm acesso a esta plataforma.

Este projecto, intitulado Cultura para todos, venceu em 2017 o Orçamento Participativo de Portugal (OPP) na Área da Cultura, e resultou de uma ideia dos cidadãos João Gonçalo Pereira e Tiago Veloso. Tem o apoio do Ministério da Cultura.

O início de novo ano é o momento ideal de olharmos para as nossas estantes e encontrar os livros que já pouco nos dizem e podem ir com o “ano velho”. E, quiçá, encontrar no LIVRAR outros que estavam em lista e que podem contribuir para crescermos um pouco no novo tempo que vai começar.

Boas trocas e melhores leituras!

 

(Imagem retirada de https://livrar.pt/)

 

 

 

aceitar e ajudar

 

mmm

 

Nesta sociedade em que é tão fácil criticar pela negativa e em que prolifera no mundo a ideia de segregar e de fechar fronteiras, é deveras gratificante pegar num jornal e ler um artigo que fala de pessoas que imaginaram um projecto, que o construíram de raiz e tudo fazem pela saúde e bem-estar dos cidadãos que habitam a zona mais multi-cultural da cidade de Lisboa e provavelmente de Portugal.

Sem mais palavras deixo-vos o artigo Jovens e sem bata, estes médicos fizeram uma revolução no Martim Moniz, da autoria da jornalista Mariana Pereira e publicado ontem, dia 25 de Novembro, no Diário de Notícias.

Vale a pena ler até ao fim. Porque naturalmente nos anima a alma e alimenta a esperança.

 

Imagem retirada de  https://justnews.pt/noticias/usf-da-baixa-a-saude-na-promocao-de-inclusao-social#.W_xmp2j7Q2w

 

 

ao outono…

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Com o fim do Verão, instala-se progressivamente uma certa acalmia nas energias que nos movem.  Se por um lado sabe bem essa travagem, por outro fica um certo saudosismo do tempo que termina, um período de maior movimento, luz, cor, energia e actividade. É um tempo naturalmente diferente, porque é diferente a energia que o modela.

Apesar de estar um dia abrasador, o Outono entrou hoje no calendário e na nossa Vida. Por isso partilho um poema que, sempre que o leio, associo à energia do Outono…à energia do “olhar para trás”… da nostalgia… da saudade…e de uma certa interiorização.

Foi escrito em 1949 por Teixeira de Pascoais (1877-1952), o autor mais representativo do saudosismo português, aquele estado de alma tão associado ao nosso povo. Apesar de não apreciar muito essa visão nem a forma como por vezes ele a expressa, gosto deste poema pela simplicidade, pelo olhar sobre o tempo, seja na vida que passou ou na natureza que se modifica.

Com ele, fica o meu desejo de um Outono (que para outros será Primavera), conjugado ao gosto e ao tempo de cada um!

 

Que saudades eu sinto desta flor,
Que vai murchar!
E desta gota de água e de esplendor,
Um pequenino mundo que é só mar.
E desta imagem que por mim passou
Misteriosamente.
E desta folha pálida e tremente
Que tombou…
Da voz do vento que me deixa mudo,
E deste meu espanto de criança.
Que saudades de tudo eu sinto, porque tudo
É feito de lembrança…

 

 

Versos Pobres (LXVII) – Poesia de Teixeira de Pascoaes
Org. de Silvina Rodrigues Lopes
Lisboa, Editorial Comunicação, 1987

 

 

 

o tempo e a biblioteca

 

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A evolução no sector das bibliotecas públicas tem sido enorme. Naturalmente sou levada a comparações com o que se passava há algumas décadas atrás (anos 60/70), nomeadamente no sul de Portugal, onde residia. Nesse tempo, apesar da variedade de livros juvenis disponível ser muito limitada e por vezes as leituras se repetirem, o acto de ir à biblioteca sempre foi um ritual importante.

Décadas depois, com a chegada do século XXI e de novas tecnologias, as bibliotecas adaptaram-se naturalmente a esses tempos. Hoje, sou utilizadora das bibliotecas do concelho de Oeiras, um corpo único formado por três pólos (Oeiras, Algés e Carnaxide) que é alimentado por um funcional sistema informático em rede que permite reservar a partir de qualquer computador livros, e-books, cd’s musicais ou dvd’s (filmes, documentários, etc), que, se disponíveis, em pouco tempo poderão ser levantados no núcleo desejado. Oferecem ainda um rol de recursos e de actividades, para adultos e crianças, gratuitos e servidos com muita simpatia.

Actualmente são muitas as bibliotecas integradas na Rede Nacional de Bibliotecas Públicas (RNBP), uma estrutura em crescimento que abrange grande parte do país e integra excelentes espaços e equipamentos. Para os que ainda não as têm, existem as bibliotecas itinerantes que espalham pequenos prazeres pelas zonas mais distantes e recônditas, o que, em pleno século XXI, não deixa de ser simultaneamente estranho e delicioso.

Se as bibliotecas do século passado foram o espaço do livro em papel, o aparecimento da internet e do multimédia permitiu uma saudável coabitação entre todos esses meios, alargando horizontes e possibilidades de escolha. A minha geração teve o privilégio de assistir a tudo isso e, curiosamente, de se adaptar com toda a tranquilidade a estas mudanças. Neste campo, como em muitos outros, diga-se de passagem.

Porque admiro imenso este “sistema circulatório de cultura” que espalha gratuitamente saber pelos recantos do meu país, acho que deve ser valorizado e lembrado.

Especialmente hoje, no Dia Mundial das Bibliotecas!

 

 

Imagem retirada do site da Câmara Municipal de Oeiras

 

 

 

dia da espiga

 

espiga

 

Segundo o calendário católico, quarenta dias após a Ressurreição de Cristo ocorre a festa da Ascensão, evento religioso que sempre sucede a uma quinta-feira. Este ano é a 10 de Maio, hoje portanto.

Por todo o país, mas especialmente a sul de Portugal onde o cultivo de cereais é mais abundante, este dia está associado ao Dia da Espiga, uma tradição que consiste na recolha de várias espécies vegetais e com elas compor um ramo que irá passar um ano pendurado atrás de uma porta, até ser substituído por um novo no ano seguinte.

Nesse período, ele protegerá a habitação de energias menos boas e chamará a abundância. A sua boa energia estará relacionada com o facto de ser recolhido no auge da Primavera, uma época de luz, cor e vitalidade, e que para além de marcar o início da época das colheitas está associada à fecundidade da terra. Nesse ramo…

…as espigas de cereal representam o pão; as papoilas vermelhas o amor e a vida; o ramo de oliveira, o azeite, a paz e a luz; os malquereres, o ouro e a prata, ou seja a riqueza; o alecrim, a saúde e a força; e o ramo de videira, o vinho e a alegria.

 

Neste dia, todos os anos regresso à infância. E recordo a imagem de minha mãe, mulher nascida a sul e aberta a tradições, a cumprir o ritual da apanha da espiga com as filhas a acompanhar. Depois o tempo passou, a vida mudou, as circunstâncias também e esse detalhe foi-se perdendo no tempo.

De vez em quando um ramo de espiga oferecido ou comprado (porque na cidade não existem prados…e as quintas-feiras são dias de trabalho!), entra serenamente em minha casa e aí se instala…até ser substituído por outro mais activo e com energias “actualizadas”.

Gosto destas tradições que ainda circulam na memória da vida e dos povos. Porque, se pensarmos um pouco mais nesta ideia de “unir” num ramo as energias que nos movem e que dão sabor à vida é algo de encantador. Manter este “microcosmos” literalmente pendurado na alma da nossa casa protegendo e energizando a nossa vida, poderá ser um absurdo para muitos ou visto apenas como algo do passado por outros….eu acho um acto delicioso, curioso e muito simbólico!

Termino com o link para a página de onde retirei a imagem acima e que descreve com algum detalhe outros aspectos associados a este dia e à forma como ele é vivido em várias regiões do país.