caminhar…

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Um passo
apenas…
…e o desequilíbrio
que obriga o corpo a seguir em frente
com outro passo.

Com convicção?
Emoção?
Indiferença?
Solidão?

Cada passo
é tempo
de menos futuro e mais passado…

…o menos e o mais…

…termos que se anulam
no presente
espaço de tempo!

Vivido?
Amado?
Sentido?
Partilhado?

Em passos
de espaço tempo
e em constante desequilíbrio,
naturalmente
equilibramos a Vida!

Como é fascinante este “caminhar”!

 

(Dulce Delgado, Agosto 2019)

 

 

 

memórias

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De memória em memória
desenhamos uma linha
de imagens
momentos
lugares
e sentimentos.

Linha
etérea e fugidia
nascida dos meandros
do tempo,
guardiã daquela memória
que deu início à nossa história.

Ilusório será pensar
que as imagens
do passado,
se agarram à linha do tempo
para sempre aí ficar.

Mas não.

Como um vento
de outono
que leva as folhas pelo ar,
também um sopro de tempo
traz o passado ao presente,
e com ele,
os momentos de alegria
as mágoas
a inquietação
os sentimentos de culpa
e talvez…
…talvez o sábio perdão!

Com o passar dos anos,
pode essa linha do tempo
tentar voar com o vento
e fugir,
ou apenas desvanecer.
Mas uma ponta
é sempre nossa,
como um cordão virtual
umbilical,
que une a vida que nos foi oferecida
com a vida por nós vivida
e aquela que iremos ceder.

Um dia,
em paz ou inquietação.

 

 

(Dulce Delgado, Fevereiro 2018)

 

 

 

dois tempos

 

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Esta imagem conta uma história, para além das histórias incógnitas de cada uma das pessoas que nela aparecem.

Entre a inauguração desta ponte sobre o rio Tejo que ocorreu em 1966 e a inauguração em 2016 do Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (MAAT), cuja fachada aparece parcialmente à esquerda, passaram cinquenta anos na história da cidade. Nasceram duas gerações de cidadãos, saímos de uma ditadura para uma democracia, o país aprendeu a respirar e a explorar o seu potencial, e Lisboa, sempre na vanguarda desse processo, acompanhou com grande disponibilidade essa abertura ao mundo.

Nesta imagem, a ponte e o museu, o passado e o presente, estão em profunda harmonia. Sente-se na cumplicidade das linhas que “desenham” ambas as estruturas, no rio que justifica a sua presença nestes locais ou, ainda, na forma como atraem o nosso olhar, que se deleita com tal elegância.

A luz que tudo envolve, não é passado nem presente, é eterna presença.

É simplesmente a luz de Lisboa!

 

 

ontem e hoje

 

crianças

 

Em criança, a brincadeira em liberdade fazia parte do meu dia-a-dia. Havia espaço, uma certa autonomia e muita actividade. Depois da escola, a tarde era passada a brincar com amigos, especialmente na rua, onde as corridas e o movimento eram uma constante e as energias saudavelmente gastas a jogar ao manecas, às escondidas, ao badminton, ao jogo do mata ou a saltar à corda. O nosso mundo era restrito… mas era tão salutar!

Duas gerações depois, as diferenças são enormes. O controle pelos pais passou a ser proporcional ao perigo que estes sentem como latente (rapto, abuso, etc.), porque a sociedade ficou “doente” e a liberdade das crianças doente ficou. Porém, mais grave do que isso, é a falta de movimento/actividade que implicou para as crianças o rápido aparecimento de tantos meios tecnológicos e de comunicação, que ocupam desde cedo demasiado espaço nas suas vidas.

As energias são essencialmente gastas com o olhar, com os dedos, com a cabeça, mas não com o corpo. Sentados na sala de aula, o computador está presente; a um canto do recreio está o ecran do telemóvel, do smartphone ou do tablet; e em casa, no sofá, têm isso tudo e ainda a televisão e os jogos de vídeo. E porque os hábitos se enraízam sem darmos por isso, facilmente se acomodam a tal inércia, surgindo desajustes e desequilíbrios, quer a nível do corpo e da mente, quer do comportamento. Então a sociedade “adoptou” a natação e outras actividades extra-curriculares, para tentar colmatar a inactividade em que as crianças vivem. Obviamente que ajuda, mas não é o mesmo.

A culpa não será apenas dos pais nem da escola, porque estou certa que a maioria fará o melhor que pode dadas as suas condicionantes. Mas, a sociedade que somos e que construímos tendo por base a liberdade e a modernização tem muita culpa, pois conseguiu em pouco tempo trocar determinados valores que a orientavam por outros bem menos saudáveis: trocou a liberdade da minha infância pelo controle e pelo medo; trocou o movimento e a actividade pelo sedentarismo; trocou a imaginação e a criatividade pela dependência tecnológica; trocou a valorização das coisas simples, pelo valor da marca e pelo poder do marketing; trocou o respeito, por uma irreverência que por vezes roça a má criação; e trocou principalmente uma série de princípios de igualdade e de partilha que as crianças tinham por um espírito competitivo, de posse e de querer mais.

Obviamente que não quero generalizar, que isso fique bem claro, mas sinto que é o que se passa numa grande parte da nossa sociedade.

O mais curioso é o facto de, em Portugal, estas transformações decorrerem nas últimas décadas tendo por base a liberdade conquistada com o 25 de Abril de 1974, um marco indiscutível e importantíssimo na história do nosso país e do nosso povo. A liberdade adquirida permitiu a escolha, permitiu abrirmo-nos para o mundo, acompanhar o boom tecnológico e todas as mudanças que nele foram sucedendo, as boas e as más. Porém, muitas das escolhas do mundo e da sociedade não foram as melhores nem as mais saudáveis. Para perceber isso, basta estar atento às crianças de hoje, que vivem rodeadas de paredes, reais e virtuais, em vez de céu e de ar livre.

 

 

 

Imagens retiradas de
 https://es.123rf.com/photo_29757149_ninos-y-ninas-jugando-a-las-escondidas-en-el-parque-con-el-cabrito-que-el-conteo-se-inclina-en-arbol.html
http://www.presenteparacrianca.com.br/crianca-conectada/