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Lisboa ameniza o cinzento e a inconstância desta estranha Primavera com a beleza dos jacarandás que recentemente iniciaram a floração, como um relógio da natureza que marca o tempo no colorido da cidade.

Em muitos recantos o seu lilás abraça o céu e as nuvens, noutros encosta-se aos edifícios ou delicia-se a pintar os passeios e as estradas com as flores já caídas, atraindo docemente o nosso olhar……olhar que espera que o sol apareça sem filtros e puro, para saturar as cores, contrastar a cidade e permitir apreciar esta época de uma forma mais viva e límpida.

A cor dos silenciosos jacarandás pontua e acompanha a energia e a confusão das festas da cidade e dos santos populares que agora se vive. E pontua a nossa! Afinal o reaparecimento deste lilás também significa mais um ano no livro da nossa história, no nosso corpo e nas emoções que nele vibram. E indica que a Primavera está prestes a terminar….e que brevemente outro Verão aparecerá no calendário.

Pela minha parte….

…para o ano aqui estarei mais uma vez para partilhar a minha satisfação pela sua presença nos meandros da cidade e, obviamente, nos caminhos do meu olhar!

 

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dia da espiga

 

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Segundo o calendário católico, quarenta dias após a Ressurreição de Cristo ocorre a festa da Ascensão, evento religioso que sempre sucede a uma quinta-feira. Este ano é a 10 de Maio, hoje portanto.

Por todo o país, mas especialmente a sul de Portugal onde o cultivo de cereais é mais abundante, este dia está associado ao Dia da Espiga, uma tradição que consiste na recolha de várias espécies vegetais e com elas compor um ramo que irá passar um ano pendurado atrás de uma porta, até ser substituído por um novo no ano seguinte.

Nesse período, ele protegerá a habitação de energias menos boas e chamará a abundância. A sua boa energia estará relacionada com o facto de ser recolhido no auge da Primavera, uma época de luz, cor e vitalidade, e que para além de marcar o início da época das colheitas está associada à fecundidade da terra. Nesse ramo…

…as espigas de cereal representam o pão; as papoilas vermelhas o amor e a vida; o ramo de oliveira, o azeite, a paz e a luz; os malquereres, o ouro e a prata, ou seja a riqueza; o alecrim, a saúde e a força; e o ramo de videira, o vinho e a alegria.

 

Neste dia, todos os anos regresso à infância. E recordo a imagem de minha mãe, mulher nascida a sul e aberta a tradições, a cumprir o ritual da apanha da espiga com as filhas a acompanhar. Depois o tempo passou, a vida mudou, as circunstâncias também e esse detalhe foi-se perdendo no tempo.

De vez em quando um ramo de espiga oferecido ou comprado (porque na cidade não existem prados…e as quintas-feiras são dias de trabalho!), entra serenamente em minha casa e aí se instala…até ser substituído por outro mais activo e com energias “actualizadas”.

Gosto destas tradições que ainda circulam na memória da vida e dos povos. Porque, se pensarmos um pouco mais nesta ideia de “unir” num ramo as energias que nos movem e que dão sabor à vida é algo de encantador. Manter este “microcosmos” literalmente pendurado na alma da nossa casa protegendo e energizando a nossa vida, poderá ser um absurdo para muitos ou visto apenas como algo do passado por outros….eu acho um acto delicioso, curioso e muito simbólico!

Termino com o link para a página de onde retirei a imagem acima e que descreve com algum detalhe outros aspectos associados a este dia e à forma como ele é vivido em várias regiões do país.

 

 

 

olá, primavera!

 

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O calendário da natureza vive da passagem das estações e hoje, no hemisfério norte, mais uma vez iremos assistir à chegada da Primavera, evento que ocorrerá exactamente às 16 horas e 15 minutos.

Para a receber condignamente, as abundantes chuvas com que Março nos tem presenteado deram uma pequena trégua, estando previsto o reaparecimento do sol a partir do meio da manhã, para quebrar a humidade e o cinzento das últimas semanas.

Na natureza, voltam a expandir-se as energias do renascimento e da procriação entre espécies. E será o tempo da sedução, do namoro e dos afectos sentidos e partilhados. O tempo do Amor.

Hoje detenho-me nesta última palavra, ou não seja a imagem que escolhi o detalhe de um vaso de “amores-perfeitos” que me foi oferecido por uma amiga de infância da minha filha, uma bióloga com a natureza no sangue, que os elegeu como forma de agradecer uma lembrança dada pelo seu casamento. Eles são o simbolismo de um amor, estão plenos de vigor e, visivelmente felizes, partilham a sua beleza com a vista da minha janela.

Gosto da ideia de começar a Primavera com estes “amores-perfeitos” por perto, apesar de não acreditar em amores perfeitos. Acredito em amores trabalhados, amores construídos e amores partilhados no dia-a-dia. Com risos e com momentos difíceis. Com verdade e respeito. E com muitas palavras ditas, porque há palavras que não devem ficar guardadas sob pena de se transformarem em mágoas. E acredito nos momentos de felicidade sentidos nos amores imperfeitos!

Nesta renascida Primavera, a trilogia “amor-sentir-energia” irá manifestar-se em cada um de nós de acordo com a passagem do tempo pelas nossas vidas, ou melhor, consoante o número de Primaveras já vividas. Nos mais novos, estará mais presente na vitalidade dos corpos, dos afectos e dos sentidos. Na minha idade, eu diria que ela entra pela pele e pelo olhar, alimenta o fervilhar das ideias que querem ser, intensifica a vontade de partilha, reanima a necessidade de viver mais intensamente o exterior e a natureza, e como consequência, o gosto em observar a vida em ebulição que nela renasce em cada recanto.

Que mais poderemos querer?

 

Por tudo isto, que seja essencialmente um tempo de descoberta e de renovação!

(Para outros, que este equinócio se revele um refrescante e aconchegante Outono!)

 

 

 

s. martinho

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Segundo a lenda, S. Martinho  de Tours foi uma altruísta alma quando há muitos séculos atrás rasgou ao meio a sua capa para proteger dois mendigos do frio. Por tão bondoso acto, Deus decidiu afastar as nuvens para que o sol aquecesse o seu corpo.

Então o sol, fazendo jus à tradição, foi sempre voltando nos dias de S. Martinho para nos brindar com “três” soalheiros e amenos dias que iluminavam outonos já acinzentados, frescos e chuvosos. Obviamente que este número era variável, mas sempre apareciam e eram bem recebidos.

Mas isto acontecia quando o clima deste nosso planeta era equilibrado. Entretanto…tanto o incomodamos que ele mudou de atitude, ficou alterado, confuso e deixou de ligar às tradições. No meu país, por exemplo, estamos a viver uma espécie de S, Martinho perene, apesar de estarmos a meio do Outono. Meses e meses sem chuva deixaram o país em seca extrema e numa situação muitíssimo preocupante. O céu apenas nos brindou com chuvas muito pontuais, algumas no momento certo de apagar alguns incêndios, mas persiste em continuar muito azul, sendo essa a previsão para os próximos tempos. Apenas o frio está a dar um ar da sua graça.

Diria que o S. Martinho se instalou confortavelmente neste recanto do sudoeste europeu, depois de nos visitar anos a fio apenas como turista.  Agora, parece que se tornou residente…

Por isso, tendo em conta este contexto e neste seu dia…

…peço encarecidamente ao S. Martinho de Tours que faça umas férias noutra região deste planeta, permitindo assim que as nuvens se aproximem e a chuva caia nesta Ibérica Península tão carente desse precioso liquido.

Precisamos que a chuva regue as nossas raízes, as nossas árvores, faça crescer a relva e as culturas dos nossos campos, alimentos vitais, quer para os animais quer para nós.

É ainda urgente que a precipitação tenha alguma continuidade de forma a encher as nossas barragens que estão praticamente vazias, assim como a restabelecer o nível dos aquíferos que alimentam o nosso solo e as nossas fontes naturais, agora quase esgotados.

Ao partir… deixaria o Outono ser, o Inverno acontecer e nós ficaríamos eternamente gratos!

 

Entretanto…enquanto o S. Martinho medita neste pedido que será certamente o de milhões de portugueses, apreciemos as tradições deste dia de convívio, de muitos petiscos e de castanhas assadas acompanhadas de água-pé ou jeropiga. E que em muitas regiões do país, a tradicional prova do vinho novo que hoje se realiza, revele um bom ano vinícola.

Que procuremos a alegria no meio da tristeza!

 

 

 

outono aqui…primavera além…

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Entre nós e a natureza existem paralelismos, mas igualmente formas muito diferenciadas de adaptação. Diria que a energia-vida que nos alimenta é a mesma, mas a sua elasticidade permite manifestações por vezes opostas. Isto vem a propósito do equinócio de hoje no calendário astronómico e das alterações que entretanto ocorrem.

No hemisfério norte, onde resido, inicia-se o Outono. Os dias mais frescos começam a tocar a nossa pele e a provocar aquele primeiro arrepio que sempre nos surpreende. Os seguintes levam-nos a ir buscar um agasalho e, com o avançar dos dias, progressivamente a roupa mais quente irá proteger-nos e substituir o calor do sol. Isto significa que, para retermos e pouparmos energia, tapamos o nosso corpo, sendo com mais ou menos camadas de roupa que enfrentaremos o frio que o Outono e o Inverno nos irão oferecer.

Mas na natureza o processo pode ser oposto, como se constata em muitas espécies do reino vegetal. Vejamos as árvores, nomeadamente as de folha caduca, que enfrentam o frio e os rigores do Inverno perdendo as suas folhas, ou seja despindo-se, num processo assaz interessante e bem diferente do nosso.

Nesse grupo de árvores, à medida que os dias começam a ficar mais curtos e com menos horas de sol, reduz-se a produção de clorofila, o pigmento verde existente nas folhas e responsável pela captação da luz e produção da energia que a planta necessita. Com menos energia, as folhas começam a ficar amarelas e a adquirir aqueles tons outonais que alimentam e deliciam o nosso olhar. Entretanto, a própria planta produz uma substância que se vai acumular na base das hastes de cada folha, que tem como função destruir as células dessa zona e assim impedir a passagem da água. Sem ela, a folha seca, cai, o que acontece progressivamente com toda a folhagem.

Despida e sem folhas, o objectivo de “poupar” está cumprido, porque a área que permitiria perder os elementos vitais foi drasticamente reduzida. Ficam os troncos, bem mais resistentes ao frio e ao gelo, e capazes de guardar o potencial energético da árvore até à próxima Primavera.

Em suma, a natureza despe-se…e nós adicionamos roupa…duas estratégias de sobrevivência opostas e algo incongruentes, se considerarmos que o mecanismo adoptado pela natureza parece muito mais inteligente e genuíno do que o nosso.

Tendo em conta o descrito, perante o colorido que o Outono irá espalhar na paisagem e oferecer ao nosso olhar, pensemos um pouco na importância e na beleza do processo escondido que está a acontecer em cada árvore e em cada folha. Simultâneamente, porque não sentir alguma gratidão no gesto banal de ir buscar um agasalho mais quente e confortável, uma vez que isso significa que, também nós, estamos a iniciar um novo Outono nas nossas vidas?

Entretanto…na metade sul do planeta, o equinócio dará lugar à Primavera e os agasalhos voltarão progressivamente ao roupeiro. Na natureza reaparecerão as folhas nos troncos das árvores… folhas que irão captar a luz e produzir a energia necessária ao ciclo de reprodução que se aproxima e que naturalmente será cumprido.

Aqui…ou além… é constante e activa a adaptação da natureza a este planeta que vagueia pelo universo e onde nós somos apenas convidados. Recordando isso…desejo a todos uma vivência consciente e tranquila do Outono…ou da Primavera!

 

 

 

a nespereira

 

Tenho o privilégio de trabalhar diariamente numa sala com muita luz natural, luminosidade que entra por uma grande janela de onde se desfruta uma razoável vista sobre Lisboa. Para um lado, o olhar pousa na belíssima ponte 25 de Abril e no seu inseparável companheiro Cristo-Rei e, no lado oposto, sobre as cúpulas de alguns edifícios da Baixa da cidade. Mas permite igualmente um olhar mais humanizado, uma vez que esta janela se enquadra nas traseiras de alguns edifícios de habitação.

Naquela “ilha” vive a intimidade de um pedaço da cidade, por vezes nua, por vezes crua, mas muitas vezes doce e soalheira. Há trinta e seis anos que acompanho o tempo a passar por ali, seja nos apartamentos que se foram renovando, seja nos edifícios que perderam a corrida do tempo a favor da degradação e das ervas daninhas, seja no envelhecimento natural dos seus habitantes ou, ainda, através da renovação de gerações, reveladas ao nosso olhar pelo minúsculo vestuário que de vez em quando aparece nos estendais.

E o tempo passou também por uma árvore de fruto, por uma nespereira, a razão de ser deste post. Vimo-la crescer, mas julgo que com os anos se tornou meio selvagem, uma vez que grande parte da copa está sobre telhados de difícil acesso. Talvez por isso, a maioria dos seus frutos secam e morrem na árvore.

Apesar de aparentemente abandonada, estou certa que é uma nespereira feliz, pois está enorme, apanha muito sol, produz imensos frutos e cumpre com rigor o seu ciclo anual de vida. Quando se inicia a Primavera algumas nêsperas já estão amarelas e maduras, começando a servir de alimento a várias espécies de aves que, em divertidas acrobacias, as saboreiam em vários momentos do dia.

Delicia-me assistir a este processo que se repete ano a ano. Por isso, num dia desta Primavera decidi tirar algumas fotografias através do vidro da referida janela, uma vez que todas as tentativas de a abrir resultaram em voos para parte incerta.

Em pouco tempo vi um periquito-de-colar…

 

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…e toutinegras-de-barrete jovens e adultas, cuja diferenciação reside, respectivamente, na mancha castanha ou preta que possuem na cabeça.

 

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Este adulto era um belíssimo cantor!

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Fotografei ainda um pardal…

 

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….e uma rola!

 

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Em momentos não registados em imagens, vi igualmente melros de bico amarelo, pombos e outros pássaros que não identifiquei. Mas estas fotografias permitem ter uma pequena ideia da actividade que se gera em torno daquela árvore de fruto nesta altura do ano. Estou certa que, para além da cor que empresta a este recanto escondido, esta solitária nespereira é um parceiro importante no ciclo de vida das aves que habitam esta área da cidade.

O futuro levará seguramente à repetição deste ciclo. E se a vida o permitir, serei espectadora e cúmplice por mais alguns anos.

Há rotinas que sabem bem!

 

 

 

revisitar

 

Voltar a certos lugares anos depois, sempre permite descobrir algo de novo. Para além da natural transformação física que neles ocorre, nós também estamos diferentes, acompanhando o nosso olhar essa evolução. E se esse lugar é no meio da natureza, basta que a estação do ano, a hora do dia ou as condições atmosféricas sejam distintas, para tudo parecer diferente e quase novo.

Andar “por aí”, termo que gosto de usar e a que associo um certo espírito de aventura e exploração, é sempre um prazer acrescentado, apesar da vida e da logística não permitirem fazê-lo tão amiúde quanto gostaria. E quando essas explorações são partilhadas com alguém que tem um olhar diferente do nosso e está atento a outros pormenores, esses momentos sabem ainda melhor e deixam-nos reciprocamente mais ricos.

Foi nesse espírito que, alguns anos depois, voltamos à zona da ribeira de Murches e ao Parque urbano das Penhas do Marmeleiro, no concelho de Cascais, distrito de Lisboa.

 

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A bonita envolvência revelou surpresas…

…começando pela pior, porque gosto sempre de terminar com a parte positiva, foi com tristeza que encontramos o passadiço em madeira que personaliza esse espaço com vários troços destruídos, quer por incêndio quer por evidente vandalismo/desleixo.

Há perto de um ano referi esse equipamento num post intitulado Passadiços, mas actualmente uma grande parte dele está intransitável, ou apenas ultrapassável se o espírito de aventura e alguma agilidade física ainda superarem o receio de uma queda.

Preferi não inserir aqui a fotografia do estado em que se encontra e envia-la para a Câmara Municipal de Cascais, lamentando a situação e esperando que a mensagem que envolve essa imagem possa contribuir para uma futura resolução do problema.

Ultrapassada esta visão, seguimos ao longo das margens da Ribeira de Vinhas, para montante. E nesse trajecto o olhar foi encontrando pequenas preciosidades que gostaria de partilhar.

 

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Não faltou a presença de um rebanho de ovelhas e cabras, cujos guizos acompanhavam o chilrear dos pássaros e davam uma sonoridade lindissima e bucólica a todo o ambiente.

 

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Rapidamente esquecemos a visão negativa dos passadiços destruídos, porque a envolvência era tão calma e bonita, e a luz filtrada pelo céu azul tão transparente, que aquele mesmo trajecto já percorrido há alguns anos, foi uma revelação.

Neste caso, a grande diferença estará no facto de, aquando da primeira incursão, estarmos em pleno Verão e agora no início da Primavera. Então predominava a secura e a falta de água da ribeira, o que não aconteceu agora, em que a água e o verde eram presença em cada recanto.

Tudo muda, a natureza muda e nós mudamos. O importante é não cristalizar nas ideias já feitas, nas opiniões definitivas ou nas imagens já vistas, e permitir sempre uma certa abertura para acolher a mudança, seja através de um pensamento, de uma sensação ou de um novo olhar oferecido pelo mundo.

Seja ele mais ou menos bom.