s. martinho

IMG_3690

Segundo a lenda, S. Martinho  de Tours foi uma altruísta alma quando há muitos séculos atrás rasgou ao meio a sua capa para proteger dois mendigos do frio. Por tão bondoso acto, Deus decidiu afastar as nuvens para que o sol aquecesse o seu corpo.

Então o sol, fazendo jus à tradição, foi sempre voltando nos dias de S. Martinho para nos brindar com “três” soalheiros e amenos dias que iluminavam outonos já acinzentados, frescos e chuvosos. Obviamente que este número era variável, mas sempre apareciam e eram bem recebidos.

Mas isto acontecia quando o clima deste nosso planeta era equilibrado. Entretanto…tanto o incomodamos que ele mudou de atitude, ficou alterado, confuso e deixou de ligar às tradições. No meu país, por exemplo, estamos a viver uma espécie de S, Martinho perene, apesar de estarmos a meio do Outono. Meses e meses sem chuva deixaram o país em seca extrema e numa situação muitíssimo preocupante. O céu apenas nos brindou com chuvas muito pontuais, algumas no momento certo de apagar alguns incêndios, mas persiste em continuar muito azul, sendo essa a previsão para os próximos tempos. Apenas o frio está a dar um ar da sua graça.

Diria que o S. Martinho se instalou confortavelmente neste recanto do sudoeste europeu, depois de nos visitar anos a fio apenas como turista.  Agora, parece que se tornou residente…

Por isso, tendo em conta este contexto e neste seu dia…

…peço encarecidamente ao S. Martinho de Tours que faça umas férias noutra região deste planeta, permitindo assim que as nuvens se aproximem e a chuva caia nesta Ibérica Península tão carente desse precioso liquido.

Precisamos que a chuva regue as nossas raízes, as nossas árvores, faça crescer a relva e as culturas dos nossos campos, alimentos vitais, quer para os animais quer para nós.

É ainda urgente que a precipitação tenha alguma continuidade de forma a encher as nossas barragens que estão praticamente vazias, assim como a restabelecer o nível dos aquíferos que alimentam o nosso solo e as nossas fontes naturais, agora quase esgotados.

Ao partir… deixaria o Outono ser, o Inverno acontecer e nós ficaríamos eternamente gratos!

 

Entretanto…enquanto o S. Martinho medita neste pedido que será certamente o de milhões de portugueses, apreciemos as tradições deste dia de convívio, de muitos petiscos e de castanhas assadas acompanhadas de água-pé ou jeropiga. E que em muitas regiões do país, a tradicional prova do vinho novo que hoje se realiza, revele um bom ano vinícola.

Que procuremos a alegria no meio da tristeza!

 

 

 

Advertisements

de olhos fechados

 

IMG_3651

 

De olhos fechados…
…não há mar
céu
ou areia
a entrar no meu olhar.

Fica a brisa a me tocar…
…e o sol,
a luz do sol
nas pálpebras a vibrar
a entrar sem entrar,
pintando imagens sem forma
intensas como o fogo,
quentes,
fortes e tão presentes,
que as agarro neste divagar.

Aqui,
neste lugar,
é tão fácil sentir a paz
que a brisa suave me traz,
e o poder da luz solar
num profundo,
mágico
e intenso afagar!

 

 

(Dulce Delgado, Outubro 2017)

 

 

 

outono aqui…primavera além…

IMG_9335ab

Entre nós e a natureza existem paralelismos, mas igualmente formas muito diferenciadas de adaptação. Diria que a energia-vida que nos alimenta é a mesma, mas a sua elasticidade permite manifestações por vezes opostas. Isto vem a propósito do equinócio de hoje no calendário astronómico e das alterações que entretanto ocorrem.

No hemisfério norte, onde resido, inicia-se o Outono. Os dias mais frescos começam a tocar a nossa pele e a provocar aquele primeiro arrepio que sempre nos surpreende. Os seguintes levam-nos a ir buscar um agasalho e, com o avançar dos dias, progressivamente a roupa mais quente irá proteger-nos e substituir o calor do sol. Isto significa que, para retermos e pouparmos energia, tapamos o nosso corpo, sendo com mais ou menos camadas de roupa que enfrentaremos o frio que o Outono e o Inverno nos irão oferecer.

Mas na natureza o processo pode ser oposto, como se constata em muitas espécies do reino vegetal. Vejamos as árvores, nomeadamente as de folha caduca, que enfrentam o frio e os rigores do Inverno perdendo as suas folhas, ou seja despindo-se, num processo assaz interessante e bem diferente do nosso.

Nesse grupo de árvores, à medida que os dias começam a ficar mais curtos e com menos horas de sol, reduz-se a produção de clorofila, o pigmento verde existente nas folhas e responsável pela captação da luz e produção da energia que a planta necessita. Com menos energia, as folhas começam a ficar amarelas e a adquirir aqueles tons outonais que alimentam e deliciam o nosso olhar. Entretanto, a própria planta produz uma substância que se vai acumular na base das hastes de cada folha, que tem como função destruir as células dessa zona e assim impedir a passagem da água. Sem ela, a folha seca, cai, o que acontece progressivamente com toda a folhagem.

Despida e sem folhas, o objectivo de “poupar” está cumprido, porque a área que permitiria perder os elementos vitais foi drasticamente reduzida. Ficam os troncos, bem mais resistentes ao frio e ao gelo, e capazes de guardar o potencial energético da árvore até à próxima Primavera.

Em suma, a natureza despe-se…e nós adicionamos roupa…duas estratégias de sobrevivência opostas e algo incongruentes, se considerarmos que o mecanismo adoptado pela natureza parece muito mais inteligente e genuíno do que o nosso.

Tendo em conta o descrito, perante o colorido que o Outono irá espalhar na paisagem e oferecer ao nosso olhar, pensemos um pouco na importância e na beleza do processo escondido que está a acontecer em cada árvore e em cada folha. Simultâneamente, porque não sentir alguma gratidão no gesto banal de ir buscar um agasalho mais quente e confortável, uma vez que isso significa que, também nós, estamos a iniciar um novo Outono nas nossas vidas?

Entretanto…na metade sul do planeta, o equinócio dará lugar à Primavera e os agasalhos voltarão progressivamente ao roupeiro. Na natureza reaparecerão as folhas nos troncos das árvores… folhas que irão captar a luz e produzir a energia necessária ao ciclo de reprodução que se aproxima e que naturalmente será cumprido.

Aqui…ou além… é constante e activa a adaptação da natureza a este planeta que vagueia pelo universo e onde nós somos apenas convidados. Recordando isso…desejo a todos uma vivência consciente e tranquila do Outono…ou da Primavera!

 

 

 

pela beira-mar…

 

IMG_0933

 

À beira-mar, a areia, a luz do sol e o mar convivem numa harmoniosa parceria, dando origem a belíssimas “obras de arte” especialmente durante a maré vazia.
Um olhar mais atento encontra pinturas…desenhos…baixos-relevos…ou apenas simples detalhes que alimentam a imaginação em tempo de férias e de disponibilidade.

Pessoalmente deliciam-me esses momentos com cheiro a maresia!

 

IMG_0899

 

IMG_0839

 

IMG_0863

 

IMG_0929

 

IMG_0903

 

IMG_0882

 

IMG_0958

 

IMG_0874

 

IMG_0898

 

IMG_0905

 

Agradeço o vosso olhar!

 

 

(Dulce Delgado, Julho 2017)

 

 

 

sol

 

IMG_8923a

 

Em cada segundo, ele nasce para milhões de seres vivos deste planeta. Vinte e quatro horas por dia. Ilumina a existência, permite a vida, dá energia e é uma fonte de saúde e de inspiração.

Neste Dia do Sol, este foi o meu segundo…e esta imagem, a forma mais objectiva de reconhecer a sua importância e grandiosidade!

 

 

misterioso sol

 

No primeiro dia de Fevereiro de 1905, faz hoje 112 anos, nasceu a minha avó materna. Deram-lhe o nome de Adelina.

Poderia dizer mil coisas sobre ela, sobre a sua vida ou sobre a relação que tivemos, mas por respeito, sinto que devo manter isso na esfera privada.

Contudo, alguns anos antes de falecer, contou-me um episódio da sua infância, uma história sobre o seu sentir, muito simples, mas reveladora da ingenuidade e da forma de estar de uma criança que vivia num monte algarvio no início do século XX.

Agarrei nele e fiz este poema que hoje partilho e ao qual dei o nome de Misterioso sol.

Estou certa que a minha avó, que também escrevia poesia, não se importaria de ver a sua vivência escrita desta forma pela neta. E para mim, é uma pequena homenagem a alguém que muito admirava.

 

Nasceu a sul este poema.
E viveu no imaginar
de uma criança de outro tempo,
que perto da sua casa
gostava de se sentar,
de sonhar com o mar que não conhecia,
de ver o horizonte
e o céu azul,
ou o sol a nascer
e o dia a desaparecer.

A casa
onde morava
olhava os montes,
suaves e ondulantes,
que encantavam
a menina
naquele lugar onde vivia.

Ao lado da porta
havia uma pedra,
a sua pedra,
o lugar onde se sentava
para descansar,
olhar
muito pensar
tudo imaginar
e sempre divagar…

…sobre o sol…

…que mistério o levaria
a num lado se esconder
e no outro a aparecer?
Por onde andaria
nesse tempo de escuridão
até de novo ser dia
e o voltarmos a rever?

Cansada de tanto pensar
e na esperança
de entender,
teve um dia uma lembrança
e a certeza,
de finalmente descobrir
aquele grande mistério
que sempre via acontecer.

Então,
acreditou profundamente
que depois do anoitecer,
o sol percorria
devagar
e escondidinho
para ninguém o ver,
aquele longo caminho
monte após monte,
até ao lugar
de novamente aparecer.

E aí,
ele voltava a espreitar,
o dia a brilhar
e o tempo a aquecer!

 

(Dulce Delgado, Fevereiro 2017)

 

 

carícia

 

caricia-2

O desejo de a tocar
e sentir
era imenso,
mas era densa
a barreira
que impedia tal agir.

Sem desistir,
tentou dissuadir
aquele húmido
e disforme cinzento,
que soturno
e enorme,
negava o seu intento.

Mas quem ama nunca desiste!

Então insistiu,
brilhando com tanta energia
e ardor,
que as negras nuvens
não resistindo ao calor,
evaporaram
ou sumiram.

Delirante,
finalmente o sol acariciou a terra,
a sua mais bela amante!

 

(Dulce Delgado, Dezembro 2016)