as voltas da vida

Num recanto da cidade
um estendal…
…e uma branca camisa
em sonhos de liberdade!

Ora enfuna com o ar
e na vontade de voar…
ora na corda se enrola
esgotada de tanto lutar.

Na rotina dos dias
o desalento é total,
usada
e depois despida,
na roupa suja é metida
numa indiferença brutal.

Se a lavagem é desventura,
pior é a tortura
dum ferro quente a passar
percorrendo o seu corpo
para os vincos alisar.

Sucedem os dias difíceis
e nada de bom acontece,
até o tal sonho,
gasto de tão usado
em dor se desvanece.

Um dia…

…estando presa no estendal
um fortíssimo vento norte
faz renascer a esperança,
pois nas molas sentiu desnorte
e na corda insegurança.

Uma rajada maior
liberta-a
daquele lugar,
começando ofegante
numa aventura invulgar.

Como um balão insuflado
voou feliz pelo ar,
e quando longe chegou
viu-se com riso e espanto
uma manga a acenar!

(Poema e desenho, Dulce Delgado, 2016)
Há seis anos, quando iniciei o Discretamente, partilhei alguns poemas que tiveram pouquíssimas visualizações, algo comum no início de qualquer blog. Porque os aprecio, tenho a intenção de os publicar novamente.
As voltas da vida” é um deles e foi agora escolhido porque, não estando a vida e os tempos com qualquer tendência para o humor, que seja a imaginação a nos permitir, talvez, um pequeno sorriso. 
Este poema, agora revisto e com ligeiras alterações relativamente ao original, surgiu num dia de grande ventania ao observar uma camisa branca num dos estendais das habitações localizadas nas traseiras do meu emprego.
 

triciclo

 

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A maioria de nós teve um triciclo quando era criança. Pessoalmente, recordo bem o quanto gostava desse brinquedo e as corridas que nele fazia ao longo de um corredor exterior que existia na casa onde vivia, numa distância que, naquela época, me parecia enorme e exigia muitas pedaladas.

Mas outros não tiveram esse privilégio. Além disso, bem cedo deixaram de ser crianças e começaram a trabalhar para ajudar a família, como foi o caso de Jorge Rodrigues. Mas essas circunstâncias não mataram o sonho de um dia ter um triciclo, o que veio a acontecer quando tinha 22 anos…certamente já longe da ideia de nele poder andar!

E depois comprou outro… e mais outro… e muitos mais, tendo hoje uma colecção com mais de seiscentos triciclos, datando o mais antigo do séc. XVIII. Agora decidiu juntar todos os seus “sonhos” e, trabalhando muito para o conseguir, vai abrir o Museu do Triciclo em Mesão Frio, no distrito de Vila Real.

Se acho uma delícia a ideia de existir um museu baseado no triciclo, talvez um dos brinquedos mais apreciados pelas crianças, acho ainda mais interessante a vida do seu criador e a forma como ele lutou para o conseguir.

A sua abertura está prevista para o próximo mês de Setembro. Espero um dia visitá-lo, não só pelo espaço que o triciclo ocupa na minha memória, mas também pelo que este museu significa de trabalho, esforço, empenhamento… e de sonho!

Deixo-vos uma interessante reportagem transmitida no último domingo, dia 28, pela SIC Notícias, sobre este futuro museu e sobre o seu proprietário.

 

Imagem retirada de  http://jogos.colorir.com/triciclo-infante.html