os tons da vida

 

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No meu dia-a-dia profissional, o olhar pousa amiúde sobre uma paleta com tintas e acompanha o gesto de encontrar um tom específico que logo será depositado em determinada área de uma pintura em fase de restauro.

Neste vai-e-vem do olhar e da mão, a atenção não fica presa ao acto em si, algo já bastante automatizado depois de anos e anos de experiência. O pensamento vagueia por ali, com e sem objectivo, factor que também depende dos dias, dos momentos, das preocupações e até do grau de empatia com o trabalho.

Neste divagar, recentemente percebi algo interessante…

Na paleta, eu sei com segurança…

…as cores a misturar para certo tom encontrar
…como neutralizar um tom que se quer afirmar
…que misturas não é conveniente fazer
…a importância de um toque mínimo ou de uma velatura no resultado final
…ou o efeito do tempo sobre camadas aplicadas à pressa.

Na Vida, eu nem sempre sei

…que escolha fazer
…como resolver de imediato um problema que tenho pela frente
…as consequências exactas dos meus actos
…como evitar um problema de se agravar
…ou o que o tempo e o futuro dirão das minhas opções

Ou seja, nesta paleta de emoções, de escolhas e de partilha que é a Vida, a mistura de “cores” é totalmente imprevisível. Aqui prevalece a incerteza e as circunstâncias que podem levar de um momento para o outro a uma mudança de rumo ou de estratégia.

Apesar disso, estará na pureza, na qualidade e na escolha dessas “cores” a possibilidade de o “tom final” ser mais genuíno, enriquecedor e duradouro.

 

(e continuei a trabalhar…)

 

 

 

 

teimosia…

 

Já não é a primeira vez que publico um post e no dia seguinte, num acto de pura magia, ele desaparece da primeira página do blog e vai aparecer algures, normalmente um ou dois meses para trás.

Ontem, mais uma vez aconteceu isso, e mais uma vez fiquei danada com estes humores repentinos do WordPress que eu não sei controlar. Uma vez que quem manda no Discretamente sou eu, hoje vou voltar a publicar o desenho e o poema de ontem. Se alguém quiser ver o post original, ele foi estacionar com alguns likes e dois comentários no dia 22 de Junho de 2020.

Eu sou uma pessoa paciente e tranquila, mas também sou teimosa q.b. Então, fazendo jus ao final do poema em causa “..aceitar o que a vida tem para me dar!  (mas nem sempre o consigo!)“, desta vez não consigo realmente aceitar as tropelias do WordPress nem quero ficar com a irritação sentida anteriormente. 

Por teimosia, volto a publicar o poema. Porque o seu tempo é agora…. e não há dois meses atrás!

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Pelo tempo

Voando pelo tempo
eu vou,
planando ou batendo asas
e sentindo o vento
que sou.

Por vezes tropeço
nos sonhos
e foge-me o arco-íris,
então rodopio hesitante
na verdade do tempo
e do instante.

Ele não pára…
…o tempo,
e eu continuo
a avançar
sem meta onde chegar.

Nesse caminhar eu sigo
mais ou menos tranquila,
tentando inspirar
apreciar
aprender
e aceitar,
o que a Vida tem para dar!

 

(…mas nem sempre o consigo! )

 

(Se algum dos meus leitores me souber elucidar sobre este fenómeno de migração de posts para datas passadas, agradeço a informação. Sou bastante leiga nestes assuntos…..)

 

 

 

nascimento

 

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O Vasco nasceu hoje para o mundo, para a família e para uns pais vibrantes de felicidade.
A chegada do meu primeiro neto despoletou uma infinidade de sentimentos que apenas as horas e os dias ajudarão a acalmar e a colocar no devido lugar. Agora as emoções ainda estão ao rubro.

Eu não senti no meu corpo as transformações desta gravidez nem os desconfortos do parto que o fez nascer. Apenas revivi tudo isso através da minha filha durante os últimos meses e senti a ansiedade natural das horas que hoje antecederam o seu nascimento. Depois chorei de emoção e alegria. Que mais poderia eu realmente fazer?

Por questões de segurança apenas o verei daqui a dois dias, quando mãe e filho saírem da maternidade. Até lá, a sua presença estará em imagens, em detalhes reais e imaginados, em palavras emocionadas e no desejo que a vida seja simpática e que me permita ir acompanhando o seu crescimento.

Bem-vindo meu neto, a este estranho, difícil…e belo mundo!

E obrigada aos pais por nos proporcionarem este feliz momento!

 

(Fotografia de Diana Oliveira)

 

 

 

 

sempre o tempo…

 

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Permitiram os últimos tempos dar tempo a tudo e também a “organizar” o passado. Gavetas, caixas e dossiers onde o tempo e os momentos da minha vida foram guardados com ternura ao longo dos anos, foram agora revisitados, lidos, relembrados, surpreendidos…

Nesse rol emocional e afectivo de mensagens, cartas e postais recebidos, encontrei uma folha  que me foi oferecida há alguns anos por um amigo com um poema da autoria da escritora Maria Teresa Horta, uma mulher interventiva, lutadora e com um papel importante na sociedade portuguesa nas últimas seis décadas.

Porque aprecio este poema, vou hoje partilhá-lo. Intitula-se O Tempo e centra-se naquele tempo que passa célere por nós…que num instante se foi…e na vida que passou. Um tema sempre actual e a ter presente todos os dias. A Vida assim o merece.

 

O Tempo

Seria já…ou ontem?
Não me lembro…

O que interessa o tempo
neste caso?
Se não fosse Agosto era Dezembro
As horas que se gastam não refazem

Seria já…ou ontem?
Não me lembro

Os anos voam
num instante de asa
E nós não o querendo vamos sendo
e sem dar por isso a vida passa.

 

(Este poema está incluído no livro Destino, editado pela Quetzal Editores em 1998)

 

(Obrigada Zé!)

 

 

 

 

pelo tempo

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Voando pelo tempo
eu vou,
planando ou batendo asas
e sentindo o vento
que sou.

Por vezes tropeço
nos sonhos
e foge-me o arco-íris,
então rodopio hesitante
na verdade do tempo
e do instante.

Ele não pára…
…o tempo,
e eu continuo
a avançar
sem meta onde chegar.

Nesse caminhar eu sigo
mais ou menos tranquila,
tentando inspirar
apreciar
aprender
e aceitar,
o que a Vida tem para dar!

 

(…mas nem sempre o consigo!😊)

 

(Dulce Delgado, Agosto 2020)

 

 

 

liberdade em dia

 

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Neste Dia da Liberdade…

…posso ler e pensar o que quiser,
partilhar as ideias que me apetecer,
voar com o imaginar,
e ser livre de pensamento
e com ele passear ao vento.

Porém,
neste Dia da Liberdade…

…estou presa em grades invisíveis
e isolada da comunidade,
com movimentos limitados
e liberdades impossíveis.

Hoje,
quarenta e seis anos depois
vivemos o paradoxo da Liberdade de Abril,
uma liberdade que nos limita os dias
os movimentos
e os gestos,
é certo,
mas que existe e é nossa.

Agora,
a liberdade espera-nos atrás da porta
e canta nas varandas do país,
respira na criatividade das redes sociais
revela-se em gestos generosos
nos detalhes partilhados
e vive,
segura e adulta,
nos direitos por Abril conquistados.

Hoje,
neste Dia da Liberdade
e um tanto à revelia,
a Liberdade é nossa
a Liberdade está em dia!

 

Dulce Delgado
(Portugal, 25 Abril 1974 / 25 Abril 2020)

 

 

 

 

uma páscoa diferente

 

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Este ano de 2020, em tudo incomum, será para muitos de nós o primeiro em que estes dias festivos serão passados sem a presença da família. No meu caso seremos apenas dois, eu e o meu companheiro, dois seres que há três semanas estão em isolamento social mas tentando aproveitar ao máximo as possibilidades caseiras desta situação.

Bem, seremos dois…. e um computador! A tecnologia permitirá fazer um almoço de Páscoa em família, sonoro e visualmente partilhado entre todos. Cinco mesas estarão temporariamente unidas, sem troca de paladares, mas com troca de afectos e de boa disposição.

Não haverá abraços calorosos e ainda não será o tempo de dizer ao vivo o tão desejado “olá Vasquinho” ao futuro neto que se desenvolve no ventre da minha filha. E que eu tenho tanta, mas tanta vontade de estar perto! Não haverá contacto físico entre a família, mas haverá o abraço virtual possível.

Sendo a Vida um acumular de experiências, a actual situação será uma das mais estranhas que vivemos e ficará para sempre gravada nas nossas memórias e afectos. Apesar do lado difícil registemos a sua singularidade…mas com a forte esperança que não se repita.

Voltando à Páscoa…

…a etimologia desta palavra é incerta, mas parece que deriva da ebraica pasach que significa passagem, talvez o termo perfeito para encararmos a situação actual e estes dias festivos em confinamento.

…sabendo que todas as passagens… passam… e levam a algo, esta também nos levará a um outro tempo e olhar, sendo este período de isolamento um mal necessário para essa travessia.

…contudo, se eu/nós e todos os que nos são queridos estiverem bem, activos e saudáveis…não será isso realmente o mais importante nesta dias? Eu creio que sim, especialmente quando são tantos os que já não podem dizer o mesmo.

 

Sendo uma Páscoa diferente… que seja a melhor possível!