o plano

Não sei o plano
que o Tempo e a Vida me reservam,
nem se estarei de acordo com ele…
…ou se ele estará de acordo comigo.

Mas se o Tempo e a Vida
tiverem um plano para cada um,
sendo tantas as pessoas e tantos os planos,
certamente que os confundem
baralham…
…e no final,
muitos serão trocados!

O melhor será
não planear demais…
…nem lhes dar importância a mais!

(Poema e desenho de Dulce Delgado)

os dias dos dias

Vinte e quatro horas separam estas imagens captadas sobre a região de Lisboa. Vinte e quatro horas envoltas numa certa magia, uma vez que também as separa um ano tendo em conta que a primeira se refere ao nascer do último dia de 2021 (31 Dezembro) e a segunda ao nascer do primeiro dia de 2022 (1 de Janeiro).

A natureza não conhece passagens de ano nem as festas do nosso calendário. As suas festas envolvem equinócios e solstícios, movimentos, alinhamentos e rotações de planetas, cometas, estrelas, etc, tudo numa dimensão que nada tem a ver com a nossa. Contudo, fazemos parte e dependemos dessas “festas” planetárias e passagens de ciclos, apesar de esquecermos amiúde essa conexão e interdependência.  

Mas voltando às duas imagens acima, aos nossos dias e à nossa dimensão humana…

…nada se repete pois não há dias, emoções ou olhares iguais. Assim como variam as neblinas no horizonte da terra e nas certezas ou incertezas do nosso olhar, também as nuvens que interferem com as nossas emoções podem ser reais ou falseadas por interferências alheias. E aquele detalhe que o olhar percepciona, ou não, talvez possa fazer toda a diferença, seja nas escolhas, seja na beleza dos nossos dias.

O tempo passa demasiado rápido e cada dia que acontece é menos um na nossa vida. Olhemos por isso com humildade para a riqueza de cada um desses detalhes do tempo. Como? Estando Presentes com um P grande e apreciando e valorizando as particularidades que eles sempre nos apresentam.

Para finalizar, pode parecer uma comparação um pouco absurda, mas para mim tem sentido o que vou escrever: assim como o ouro, o incenso e a mirra oferecidos ao menino simbolizavam humildade e de certa forma submissão dos reis magos perante o Rei/energia acabado de nascer (realmente o menino não precisaria minimamente dessas riquezas materiais…), também o nosso olhar perante a Vida deve sobretudo basear-se na humildade e no enaltecer dos valores que são realmente essenciais. Não há “ouro, incenso ou mirra” que valha, se outros valores não habitarem a nossa alma.

Um bom dia para todos…e um bom Dia de Reis para os que vão seguindo a tradição cristã!

inverno

O Inverno chegará hoje ao hemisfério norte quando faltar um minuto para as 16 horas. .

Neste cantinho da Europa prevê-se um dia cinzento, chuvoso e desagradável, fazendo justiça às suas melhores qualidades. Nós agradecemos, esperando que assim continue. A realidade diz-nos que precisamos dele bem molhado, porque o solo e os aquíferos precisam da sua frescura. Certo é que, sem excepção de raça, credo ou riqueza, todos dependemos desse precioso líquido para viver.

A essa vertente húmida e desagradável mas cada vez mais importante responderemos com protecções, aconchego…e paciência! Pelo menos os que podem dispor disso…

Bem vindo Inverno a este estranho 2021! Que seja um profícuo tempo de recolhimento e interiorização!

(para os que vivem abaixo da linha do Equador, que seja um Verão a gosto de cada um!)

memória e ternura

Se estivesse connosco a minha mãe teria agora noventa e quatro anos. Porém, a sua passagem por esta vida terminou em 1998, faz hoje precisamente vinte e três anos (30 de Novembro).

É raro o dia em que a sua imagem não passa como uma brisa pelo meu pensar, seja por isto… por aquilo …ou por quase nada. Detalhes que a memória guardou, que aparecem nas circunstâncias mais variadas e que eu gosto de sentir como um “olá” que ela me está a dar…

Há muito que essas memórias não são associadas a dor, mas apenas a uma enorme e doce ternura que me habita e que considero o seu principal legado. Da sua personalidade sempre recordo a disponibilidade e a atenção que tinha com todos, a constante actividade e energia “tipo formiguinha”, o cozinhar muito bem, a capacidade de fazer tudo e mais alguma coisa, e ainda o facto de gostar bastante de conversar. Além disso, adorava a natureza e sabia o nome de imensas espécies de plantas e flores.

De vez em quando gosto de ir ao encontro da sua sensibilidade…e das suas mãos. Encontro isso em vários recantos da minha casa, seja através de uma colcha em crochet que me ofereceu, nos lençóis ou toalhas que bordou para o seu enxoval e que hoje são das filhas, nos deliciosos casaquinhos que fez para os meus filhos quando eles nasceram, etc., etc.

Mas há outros detalhes um pouco diferentes que habitam dentro de uma caixa. É o caso de alguns desenhos… rendas de vários tipos…muitas amostras de pontos de tricot com a explicação escrita por si….escritos diversos…poemas…etc, etc.

Ao optar por constituir família e ser “dona de casa”, afastou de certa forma a sua criatividade no sentido mais artístico, uma vez que tinha jeito para o desenho e grande precisão de mão.

Creio que focalizou essa energia e vontade criativa em actividades manuais como o tricot, crochet, bordados ou nas costuras que fazia com grande perfeccionismo. Eram pequenas obras de arte que nasciam do seu dia-a-dia orientadas para a família, aquele círculo que foi decididamente o centro do seu mundo.

Neste dia de memórias… a ternura e a gratidão tudo preenchem! Seja pelo que foi na sua enorme simplicidade, seja pelo que representou nas nossas vidas. E pessoalmente, por tudo o que deixou em mim, especialmente o invisível.

O seu nome era Maria Teresa.

experimentações #28

Dando continuidade aos dois posts anteriores desta série, diria que outros blocos se seguiram preenchidos com o mesmo tipo de registos “gráfico-emocionais”, como eu gosto de lhes chamar. Inicialmente isso aconteceu com uma certa continuidade, mas amiúde os intervalos foram aumentando e os registos sendo cada vez menos. Até desaparecerem simplesmente.

Não minto ao dizer que nos últimos anos da década de noventa as minhas “experimentações” ficaram reduzidas a postais de aniversário e/ou de Natal para oferecer, e ainda a um ou outro desenho realizado em férias.

A criatividade passou nitidamente para um plano muito secundário, porque outras dinâmicas surgiram na minha vida, nomeadamente a necessidade de fazer trabalhos extra, acompanhar o estudo e crescimento dos filhos de uma forma mais atenta e ainda o início da relação com o meu actual companheiro. Ou seja, muita coisa para me ocupar/preencher… e uma total falta de tempo e de disponibilidade para a vertente criativa.

Em muitos momentos não foi fácil lidar com esse “desligar”…mas era assim, não poderia ser de outra forma e no futuro logo se veria. Diria que a criatividade estava no final da lista de prioridades… mesmo que por vezes bastante intranquila e irrequieta.

E foi assim que cheguei ao século XXI!

experimentações #26

Um pouco em simultâneo com os desenhos que partilhei nos últimos posts, esses ainda realizados em folhas soltas, comecei em 1992 a utilizar blocos como base de anotação de sentires, pensamentos/poesias, mas também de desenhos, recortes, colagens, etc,.

Funcionaram como uma espécie de diário gráfico onde materializava o que me sensibilizava, as emoções que me trespassavam, mas também os sentires sobre o que acontecia no mundo ou sobre manifestações culturais a que assistia. Uma heterogeneidade de modos de expressão que, de certa maneira, funcionaram como um escape num tempo que não foi linear nem fácil na minha vida

Apesar de muitas das folhas desses blocos não estarem datadas, algumas contêm essa referência, o que possibilita uma localização mínima no tempo, mesmo que não seja no dia certo.

Neste e no próximo post desta série, irei partilhar algumas páginas do primeiro desses blocos, datado de 1992. Além de ser o “primogénito”, exteriormente é o mais bonito, o que lhe concedeu um valor acrescentado nesta “colecção” de registos.

(Dia do tiroteio no cemitério de Santa Cruz, em Timor Leste)
Já não recordo a origem destas palavras/frases, daí não poder mencionar o autor/ fonte
Depois de ver uma exposição da escritora e artista plástica portuguesa Ana Hatherly (1929-2015)
E após uma ida ao teatro ver uma peça baseada na obra do artista Hieronymus Bosch
Dulce Delgado
(Colagens, aguarela, lápis de cor, caneta e  tinta da China sobre papel) 

38

Este primeiro dia de Setembro apareceu envolto num nevoeiro morno e agradável, daquele que o corpo não rejeita. Por esse cinzento deambulei um pouco logo pela manhã na zona ribeirinha de Lisboa, levando comigo o sentir luminoso que vivi neste mesmo dia há 38 anos atrás, data em que tu nasceste e eu fui mãe pela primeira vez.

Sempre que os filhos fazem anos, como mães voltamos atrás e vibramos entre recordações e um mar de emoções. As minhas são doces e fluidas, como foi todo o processo do teu nascimento e como têm sido estes 38 anos da nossa relação. Hoje também tu és mãe e eu uma feliz avó do teu filho!

Entretanto a vida foi acontecendo neste planeta/universo. A Terra deu trinta e oito belíssimas voltas ao Sol… mas em nós a sensação é de rapidez… de um tempo fugaz…como aquele gesto simples e meio inconsciente de rasgar ou de riscar mais uma folha do calendário que “gere” o tempo. Não deveria ser assim…

Nestes 38 anos demos incontáveis passos como pessoas individuais. Tu no teu caminho e eu no meu. Atravessamos nevoeiros, céus azuis, dias soalheiros, certezas e incertezas, momentos de pura felicidade e alguns de tristeza. Mas ambas sabemos que é na atenção pelo outro, no estar presente, no aconchego, na troca e no jogo entre o dar e o receber que está tudo o que vale realmente a pena no desenrolar dos dias e da Vida.

Isso é a essência. Diria mesmo que é o Sol que sempre está presente mesmo nos dias de nevoeiro!

Muitos Parabéns minha filha, e continuação de uma boa viagem pela Vida!

(Dulce Delgado, 1 Setembro 2021)

chilreios

Num intenso chilreio…

… talvez partilhem alguns detalhes da grande viagem anual de regresso à Europa e sobre os milhares de quilómetros percorridos…

… talvez troquem sentires sobre o que viram numa Africa instável, com conflitos de difícil resolução e de sofrimento acumulado…

… talvez estejam a discutir a instabilidade meteorológica do planeta e como isso vai afectando os ritmos da sua espécie….

… talvez partilhem as condições dos beirais escolhidos para construir os ninhos…ou os locais com mais insectos voadores, a sua principal fonte de alimentação…

… talvez falem dos filhos que planeiam ter este ano…

… ou talvez não estejam a comunicar absolutamente nada e os seus sons sejam apenas de alegria por terem superado mais uma viagem fundamental à sobrevivência da espécie e regressado para mais uma Primavera!

As andorinhas são “marcadores de tempo”… e uma forma doce de percebermos que passou mais um ano na nossa vida!