mudança de hora

 

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O tempo controla os nossos dias… inclusive quando nos recusamos a usar um relógio no pulso porque não o queremos “agarrado” à nossa pele!
Mas a verdade é que, com ou sem relógio, ele rege a nossa existência, esvai-se quando estamos a realizar algo de agradável e distende-se na situação contrária. Ou seja, brinca connosco numa espécie de “jogo de escondidas” em que normalmente é ele que se esconde e somos nós que o procuramos.

Apesar disso, não gosto da ideia de “pagar com a mesma moeda”, ou seja, da humana decisão de brincar com ele ao alterar a hora duas vezes no ano, como sucedeu mais uma vez esta madrugada em Portugal e em vários países. Magicamente, às 2.00 da manhã, a hora de Verão transformou-se em 1.00 da manhã da hora de Inverno. E daqui a seis meses, se nada for alterado, acontecerá o contrário.

Para estas mudanças alegam-se questões economicistas e de poupança de energia, aspectos que nada têm a ver com o que está na base da vida de cada um de nós e com o elo que nos liga ao Universo.

Apesar da reconhecida necessidade de nos gerirmos por relógios uma vez que vivemos em relação/função de outros, o mais acertado seria acompanhar o fluir dos ritmos do planeta e adoptar definitivamente o ciclo horário mais próximo da verdadeira hora solar. Apesar desta estrela ser apenas um ponto neste gigantesco sistema, é o astro que nos permite aqui viver. E isso é Tudo!

Creio que o horário que mais se aproxima da hora/ciclo solar é o de Inverno, aquele que hoje se iniciou. Ao adoptá-lo definitivamente, estaríamos a permitir uma natural  e gradual adaptação do nosso corpo, sistemas e sentidos a cada uma das estações do ano e aos ciclos de mais ou menos luz que lhes estão associados. De certa forma, estaríamos simplesmente de acordo com o Universo!

Haverá porventura alguma razão mais importante e verdadeira de orientarmos a nossa Vida do que essa?

 

 

Imagem retirada de  http://www.astropt.org/2011/10/28/mudanca-da-hora/

 

 

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final de agosto…

 

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Para quem vive no hemisfério norte…termina hoje o mês mais ambíguo do ano!

Sendo o mais desejado para gozo de férias pela maioria, é sobre ele que recai o receio de que não cumpra devidamente os atributos meteorológicos que a fama lhe foi dando ao longo do tempo. Apesar disso, normalmente ele presenteia-nos com alguma chuva!

Curiosamente, ele também é desejado pela minoria que não o escolhe para férias, sendo tranquilamente saboreado nos locais de trabalho, nos transportes públicos agora mais vazios ou pela fluidez do trânsito de acesso às cidades. Porém, para quem é visitante e pretende ver os locais mais turísticos, Agosto é um mês insuportável!

Em Agosto, muitos vêm…e voltam a partir! Refiro-me aos milhares de emigrantes que regressam aos países de origem para descansar e rever a família. Com essa chegada, permitem que temporariamente as saudades se anulem ou que saiam voando pelas janelas das suas habitações, agora abertas e deixando o sol entrar. No final do mês é novamente altura de partir, de agarrar a saudade, fechar as janelas e deixar esses refúgios voltarem à solidão a que já estão habituados.

No entanto, são muitos também os que partem… e depois regressam! Vão para a praia, para o campo, para a cidade de sonho ou para a viagem planeada durante meses. Todos envoltos em expectativas. Depois voltam, cheios de muito, cheios de mundo, talvez com outro olhar, quiçá com alguma desilusão. Mas as suas casas voltam a sorrir e as janelas dessas casas a abrir!

Em Agosto, o Verão atinge o auge e entra rapidamente em decadência. Literalmente. Com o seu fim a sociedade muda de “canal” e de prioridades. Para muitos, as férias e a praia dão lugar ao “cansaço” do início do ano escolar, aos problemas do dia-a-dia e aos problemas do país, às quezílias político-partidárias regressadas de férias ou, ainda, ao campeonato nacional de futebol que entretanto recomeçou. Por outro lado, as preocupações com o fato de banho, com o bikini ou com a celulite, dão lugar às preocupações com a nova colecção Outono/Inverno que felizmente tudo tapa e que, curiosamente, já em Julho estava nas lojas a dar um ar da sua graça e ansiando um olhar.

Agosto chega hoje ao fim. Neste período o mundo deu trinta e uma voltas sobre si próprio e rolou mais um pouco no vazio cósmico..sem suspeitar que leva consigo alguns loucos em fase crescente de loucura!

Eu diria que, para muitos, foram trinta e um dias de…

…chegadas e partidas

…idas e regressos

…saídas e entradas

…abraços e separações

…saudações e despedidas

…desejos e desilusões

…sonhos e realidade

…descanso e cansaço

…amores e desamores

…relaxar e preocupar

…olhares e suspiros

…inspirar…

…expirar…

…e simplesmente perceber… que em breve… o Natal estará a chegar!

 

 

ser imagem

 

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Antes do nascimento
somos uma imagem,
ecográfica
idealizada
imaginada
de luminosa esperança
uma ideia-criança.

Ao nascer,

saímos desse estado de matéria
etérea,
e passamos a concretos seres
humanos
emocionais
racionais
espirituais
banais ou especiais
e pontualmente ideais!

 

Passa a vida…

Chega a morte…

 

E naturalmente,
voltamos ao virtual
fluído
e intemporal
estado de imagem,
talvez recordada com saudade
presente na ausência
que habita numa moldura
envolta em ternura
que se desvanece no tempo…

…imagem história

…imagem memória

 

Ou imagem, apenas.

 

 

(Dulce Delgado, Julho 2017)

 

 

 

 

 

entre linhas

 

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  • A linha da vida, dizem, está na palma das nossas mãos. Talvez sim…ou talvez não. Eu prefiro pensar na vida como um emaranhado de linhas, ora rectas, ora curvas, ora cruzadas…e de muitas imaginadas!
  • A linha de pensamento precisa de muita segurança para não ter desvios, mas flexibilizá-la revela no mínimo alguma inteligência;
  • A linha do tempo é a história do mundo, mas igualmente a nossa história, com muitos momentos marcantes…e muito outros sentidos como semelhantes. E nesse fluir, o tempo vai alterando o mundo, a natureza e transformando-nos também. E vai escrevendo em nós e na nossa pele, aquelas linhas expressivas, tão belas quanto difíceis… como são as rugas!
  • No olhar, a linha está em tudo. Pura, como contorno ou escondida na perspectiva, ela é a essência. Aliás, basta pensar como o desenho sintetiza a sua presença. De uma forma geral não temos consciência dessa multitude de linhas e de contornos, porque os volumes ou as cores são mais chamativos e atractivos ao nosso olhar. Porém… a linha está sempre, mas sempre presente.
    Pontualmente reparamos nessa essência, nessa linha, mas apenas quando nos provoca uma emoção: ao ver as elegantes linhas arquitectónicas de um edifício, o bonito perfil de um rosto, o contorno de um corpo ou o recorte de uma agradável paisagem. E reparamos na linha do horizonte, pela carga emocional que desperta ao estar associada ao além e ao desconhecido;
  • Visíveis ou invisíveis, as linhas estão nas páginas de um caderno ou nas folhas dos livros. E formam a pauta onde vivem as claves, as notas musicais…e tantos símbolos mais!
  • Na ponta de um lápis ou de uma caneta que seguramos, nascem as infinitas linhas que formam as letras, as palavras e que desenham o mundo. Estas linhas são arte, são prosa, são poesia…e são parte da magia que alimenta o nosso dia!

 

Mas são muitas outras as linhas que nos envolvem:

  • Na terra que habitamos, existem os virtuais paralelos e meridianos, sendo o mais popular o de Greenwich; e existem as linhas de fronteira…a linha de costa…as linhas de água…as linhas férreas… a linha de metropolitano…
  • O céu… é o campo das linhas aéreas e, mais longuiquamente, das linhas-órbita dos planetas e de outros astros, ou ainda das imaginadas linhas que dão forma e nome às constelações de estrelas;
  • Na atmosfera e na meteorologia, temos as linhas isotérmicas…as isobáricas… e outras do género mas que não sei o nome.

 

Também na sociedade que construímos elas são imensas:

  • Começando pelas linhas telefónicas, temos as de emergência…de informação…de apoio ao cliente…de saúde…etc;
  • Noutros campos, temos as linhas de crédito…as linhas de montagem…as de costura, crochet e afins…
  • As linhas de fogo… marcam as guerras deste mundo;
  • E no desporto, temos a linha de partida…a desejada linha da meta…a linha de meio campo…a linha de baliza…etc.

 

E existem ainda as linhas mais invisíveis, psicológicas, de comportamento, de conduta…  linhas  que seguimos…que nos perseguem…que transgredimos… e os “fios da navalha” das nossas vidas…

Estamos rodeados de linhas, visíveis e invisíveis. E muitas haverá que certamente esqueci. É muito interessante pensar nesse “emaranhado”de linhas que nos envolvem… regem… usamos… seguimos… vemos…

…mas curiosamente, neste tão amplo contexto, o “manter a linha” é uma das tarefas mais difíceis!!!

 

 

entre pais… e filhos

 

Somos filhos
somos pais,
pais dos filhos sempre seremos
estranho é,
sermos pais dos nossos pais!

Avança o tempo
rápido e indiferente…
…pelos filhos,
que seguem a sua vida
mas ficam no pensamento;
…por nós,
nesta bela, doce, mas difícil corrida;
…e pelos nossos pais,
que os anos simplesmente
fazem voltar para trás!

Num ápice,
somos pais
de duas gerações,
uma cheia de idade
e vinda do passado,
outra olhando um futuro
inseguro,
mas replecto de intenções
e de algumas ilusões.

Como filhos,
é tempo de cuidar dos pais,
entrando num novo filme
em plena meia-idade,
um tempo deveras diferente
no corpo,
na energia
e na paciência,
que arduamente
luta pela sobrevivência.

Eu sei que à minha frente,
tenho apenas meio-tempo
porque o tempo ficou para trás.

Por isso…
…preciso tanto de acreditar
que o cansaço deste poema
ocupa um pequeno espaço,
apenas
um ínfimo espaço,
que os dias do meu meio-tempo
ajudarão a superar!

 

 

(Dulce Delgado, Março 2017)