experimentações #26

Um pouco em simultâneo com os desenhos que partilhei nos últimos posts, esses ainda realizados em folhas soltas, comecei em 1992 a utilizar blocos como base de anotação de sentires, pensamentos/poesias, mas também de desenhos, recortes, colagens, etc,.

Funcionaram como uma espécie de diário gráfico onde materializava o que me sensibilizava, as emoções que me trespassavam, mas também os sentires sobre o que acontecia no mundo ou sobre manifestações culturais a que assistia. Uma heterogeneidade de modos de expressão que, de certa maneira, funcionaram como um escape num tempo que não foi linear nem fácil na minha vida

Apesar de muitas das folhas desses blocos não estarem datadas, algumas contêm essa referência, o que possibilita uma localização mínima no tempo, mesmo que não seja no dia certo.

Neste e no próximo post desta série, irei partilhar algumas páginas do primeiro desses blocos, datado de 1992. Além de ser o “primogénito”, exteriormente é o mais bonito, o que lhe concedeu um valor acrescentado nesta “colecção” de registos.

(Dia do tiroteio no cemitério de Santa Cruz, em Timor Leste)
Já não recordo a origem destas palavras/frases, daí não poder mencionar o autor/ fonte
Depois de ver uma exposição da escritora e artista plástica portuguesa Ana Hatherly (1929-2015)
E após uma ida ao teatro ver uma peça baseada na obra do artista Hieronymus Bosch
Dulce Delgado
(Colagens, aguarela, lápis de cor, caneta e  tinta da China sobre papel) 

38

Este primeiro dia de Setembro apareceu envolto num nevoeiro morno e agradável, daquele que o corpo não rejeita. Por esse cinzento deambulei um pouco logo pela manhã na zona ribeirinha de Lisboa, levando comigo o sentir luminoso que vivi neste mesmo dia há 38 anos atrás, data em que tu nasceste e eu fui mãe pela primeira vez.

Sempre que os filhos fazem anos, como mães voltamos atrás e vibramos entre recordações e um mar de emoções. As minhas são doces e fluidas, como foi todo o processo do teu nascimento e como têm sido estes 38 anos da nossa relação. Hoje também tu és mãe e eu uma feliz avó do teu filho!

Entretanto a vida foi acontecendo neste planeta/universo. A Terra deu trinta e oito belíssimas voltas ao Sol… mas em nós a sensação é de rapidez… de um tempo fugaz…como aquele gesto simples e meio inconsciente de rasgar ou de riscar mais uma folha do calendário que “gere” o tempo. Não deveria ser assim…

Nestes 38 anos demos incontáveis passos como pessoas individuais. Tu no teu caminho e eu no meu. Atravessamos nevoeiros, céus azuis, dias soalheiros, certezas e incertezas, momentos de pura felicidade e alguns de tristeza. Mas ambas sabemos que é na atenção pelo outro, no estar presente, no aconchego, na troca e no jogo entre o dar e o receber que está tudo o que vale realmente a pena no desenrolar dos dias e da Vida.

Isso é a essência. Diria mesmo que é o Sol que sempre está presente mesmo nos dias de nevoeiro!

Muitos Parabéns minha filha, e continuação de uma boa viagem pela Vida!

(Dulce Delgado, 1 Setembro 2021)

chilreios

Num intenso chilreio…

… talvez partilhem alguns detalhes da grande viagem anual de regresso à Europa e sobre os milhares de quilómetros percorridos…

… talvez troquem sentires sobre o que viram numa Africa instável, com conflitos de difícil resolução e de sofrimento acumulado…

… talvez estejam a discutir a instabilidade meteorológica do planeta e como isso vai afectando os ritmos da sua espécie….

… talvez partilhem as condições dos beirais escolhidos para construir os ninhos…ou os locais com mais insectos voadores, a sua principal fonte de alimentação…

… talvez falem dos filhos que planeiam ter este ano…

… ou talvez não estejam a comunicar absolutamente nada e os seus sons sejam apenas de alegria por terem superado mais uma viagem fundamental à sobrevivência da espécie e regressado para mais uma Primavera!

As andorinhas são “marcadores de tempo”… e uma forma doce de percebermos que passou mais um ano na nossa vida!

comunicando

Comunicar com quem está perto de nós pode ser fácil (ou difícil…) e fazemo-lo através da voz, do olhar, do gesto, etc,. Mas comunicar à distância pode ser um acto bastante fácil com a panóplia de meios disponíveis que num instante nos levam a qualquer parte do mundo, seja através de um fio ou cabo submarino, seja através de satélite ou de outras formas que eu pouco entendo.

Agora é assim, mas antes não era, sendo que a evolução neste campo foi enorme e continua a ser uma constante….talvez porque o termo “velocidade” impregnou os nossos dias.

Recuando no tempo…

Na minha infância havia um telefone em casa. Porém, quando se pegava no auscultador aparecia uma voz feminina, uma telefonista intermediária que estava na central e a quem se pedia a chamada, sendo ela a fazer a ligação.

Este pequeno texto revela muito bem como evoluímos…

Nessa altura, eu até poderia saber que a voz se transmitia por fios, mas não poderia imaginar que cem anos antes de eu ter nascido já fora instalado um cabo submarino que atravessava o Oceano Atlântico para ligar a Inglaterra aos Estados Unidos e assim permitir as ligações telefónicas entre os dois continentes.

Foi há pouco tempo que percebi a importância e a dimensão desses cabos submarinos que atravessam os nossos mares e oceanos, assim como o papel do meu país nessa matéria em virtude da sua localização. A cidade da Horta, por exemplo, situada na ilha do Faial (Açores), chegou a ser ponto de amarração de quinze cabos da rede telegráfica submarina internacional.

A imagem que se segue mostra a extensão de alguns dos cabos submarinos existentes.

Sobre este assunto e outros relacionados com meios de comunicação, é imensa a informação disponível no Museu das Comunicações (Lisboa), local onde captei as imagens deste post. A segunda e a ultima pertencem à exposição permanente Vencer a distância – Cinco séculos de Comunicações em Portugal e a primeira e a terceira à exposição temporária Cabos submarinos, aí patente até ao final de 2021.

Visitar este museu é fazer uma intensa viagem no tempo, perceber o avanço vertiginoso das formas de comunicar – de todas as formas e de tudo o que lhe está associado – e é igualmente uma viagem por detalhes e memórias da nossa própria vida. Por tudo isso, recomendo vivamente.

Um aspecto da sala dedicada às pequenas obras de arte que são os selos

Neste dia em que se comemora o Dia Mundial das Telecomunicações e da Sociedade de Informação, não poderia deixar de referir este Museu e sobretudo de lembrar que, para chegarmos ao gesto já banalizado de pegar no nosso telemóvel para nos ligarmos ao mundo, foi necessário um caminho complexo, difícil, trabalhoso…mas seguramente genial!

moinhos

Na infância, os moinhos de papel eram sonho, construção, movimento e com eles voamos felizes ao vento. Depois crescemos e naturalmente os esquecemos.

Os outros, os reais – sejam de vento, de água ou de maré – ainda vão resistindo na paisagem. A maioria estará destruída, muitos foram recuperados para habitação ou musealizados, sendo poucos os que ainda se mantêm íntegros e conseguem funcionar.

Gosto especialmente dos moinhos de vento, porque sempre que o meu olhar os encontra sente-se bem acolhido. Com eles é muito fácil voltar à ingenuidade dos desenhos de infância em que um moinho com quatro velas não podia faltar no cimo de uma paisagem com montes.

Neste Dia Nacional dos Moinhos, 7 de Abril, partilho convosco alguns dos muitos moinhos de vento que o meu país ainda acolhe… com mais ou menos carinho.

– Conjunto de cinco moinhos recuperados para funções diversas no Alto da Pinhôa, Moita de Ferreiros, Lourinhã

– Conjunto de vinte e três Moinhos da Serra da Atalhada, Friúmes, Penacova. Alguns estão recuperados para habitação.

-Conjunto de catorze moinhos em Gavinhos, Penacova. Alguns estão recuperados e creio que actualmente um deles ainda funciona com moleiro, provavelmente para escolas.

-Moinhos de Portela de Oliveira, Penacova. Originalmente seriam quase duas dezenas, sendo que alguns foram reaproveitados para habitação, outros estão em ruína ou em mau estado, e um deles, que pertenceu ao escritor Vitorino Nemésio, foi totalmente recuperado pela Câmara Municipal de Penacova, estando funcional. Anexo a um desses moinhos foi instalado o Museu do Moinho Vitorino Nemésio.

Este escritor adorava moinhos, tendo possuído três naquela região. O seu apreço era tanto que chegou a ser Presidente da Associação Portuguesa dos Amigos dos Moinhos.

-Aqui e ali, no cimo dos montes ou em zonas mais ventosas, eles convidam a um olhar terno e sempre delicioso.

Outros continuam activos por tradição, seja para fins educativos seja como complemento de um negócio. É o que sucede com o Moinho dos Caixeiros (Silveira, Torres Vedras), cujas velas a rodar são um chamariz para visitar uma padaria tradicional com um excelente pão.

– Por fim, uma simbólica homenagem a todos os que foram abandonados e engolidos pelo tempo, talvez a grande maioria dos que existem em Portugal. Pedra a pedra foram-se desmoronando… caindo… e naturalmente voltando à terra. Não tiveram fôlego para lutar contra o esquecimento e aguentar o avanço da civilização.

Mas gosto de pensar que um dia já foram felizes!

páscoa feliz!

E uma borboleta da cor do Sol pousou com ternura na orelha do coelhinho e sussurrou-lhe ao ouvido “Não estejas tristes, eu faço-te companhia nesta Páscoa!”

À semelhança do que se passou em 2020, ao cumprirmos o que nos é pedido esta será mais uma época festiva longe do calor familiar. Inicialmente acreditamos que este processo seria mais rápido, menos doloroso e nunca nos passou pela mente que um ano depois ele persistiria. A Vida é realmente surpreendente, no bom e no mau sentido.

Não haverá “borboletas da cor do Sol” a fazer companhia aos que vivem sós…e que mais sós se sentirão nesta época em que a família é sempre apoio e aconchego. Até os que vivem acompanhados sentem essa privação do calor familiar. Afinal já temos um ano de afectos em défice e muitos, muitos abraços e beijos em lista de espera.

Sobretudo, e apesar do aperto no peito que tudo isto nos provoca, tentemos que a energia da “borboleta” esteja presente nos pensamentos e na esperança que nos move. E na gratidão sentida pelo facto de, apesar de afastados, estarmos bem e saudáveis. Eu agradeço isso todos os dias.

Sendo a Páscoa um tempo de passagem, de transição e de recomeço….é igualmente um tempo de transformação e de renovação. Como a borboleta tão bem simboliza no seu ciclo de Vida.

Desejo a todos uma boa Páscoa!

esperança primaveril

Com a Primavera que hoje se iniciou às 9h 37m (a.m.), hora de Portugal, chegam os dias maiores e mais luminosos, uma natureza vestida de cor e, em cada detalhe, muita vida em latência brotando para um novo ciclo.

Todavia, apesar de tudo isso sempre me encantar, associo muito esta Primavera a uma “Esperança de Equilíbrio”…a um tempo-força que nos deixará mais próximo de uma estabilidade que acredito será possível nos próximos meses com o controle da pandemia pela vacinação.

E na sequência disso…

…a possibilidade de retornar, mesmo que lenta e progressivamente aos ritmos e gestos conhecidos

… aos afectos sentidos na pele

…à emoção das palavras e gestos sem máscaras

…à espontaneidade social

…aos passeios que não se fizeram

…às rotinas que deixaram saudades

…etc.

Para os que perderam o emprego, a habitação ou algum familiar/amigo durante a pandemia, ou para os que adoeceram e ainda não recuperaram totalmente, talvez os detalhes acima sejam um pouco secundários. Para eles, o equilíbrio estará em arranjar um novo emprego que lhes assegure o que tinham antes, no restabelecimento da saúde, ou no tempo interior necessário ao luto e à aceitação da perda.

Caberá a cada um perceber o que deverá colocar nos “pratos da balança da sua Vida”, para que a estabilidade se instale e seja real. Se for necessário ir à luta, mas sempre tentando envolver essa procura de esperança e de energias construtivas…

…como a boa energia que a Primavera gratuita e silenciosamente nos oferece todos os anos.

Boa Primavera!

(Que esta “esperança de equilíbrio” seja imensa e se estenda igualmente aos meus leitores do hemisfério sul que hoje abraçam o Outono! ) 

a fuga…

Não,
não gosto de sentir
aquela ideia ou pensamento
naturalmente surgidos
e num ápice perdidos
nas névoas da memória
da idade
e do tempo.

Não,
não gosto desta memória
contraditória
que não sabe agarrar
a energia do meu pensar
e que a nega
sem escrúpulos
para depois eu procurar.

E eu,
que não gosto de perder o que é meu,
deambulo paciente
pelos labirintos da mente
buscando uma pista
detalhe ou acção
que me leve
ao que procuro,
e finalmente
agarrar com toda a atenção!

Por vezes consigo…
…muitas não!

(Nestas situações penso: “Pobre memória, não dá para tudo!”
 E sinto-me um pouco melhor…😉)

(Dulce Delgado, Março 2021)