entre prosa e poesia…

Dezembro seria um mês banal se não fosse o Natal, aquela festa familiar, bem enraizada e de sabor tradicional.

Em Portugal o mês começa com um feriado, dia que nos relembra um momento fundamental da independência nacional. Uma semana depois um novo feriado, este religioso, para uns algo indiferente e para outros valioso. Mas para a grande maioria, devido à pandemia foram dias sem igual…pelo confinamento geral!

E Dezembro continua… colorido…luminoso…vestindo-se de Natal…e aquecendo com ternura a esperança nacional.

Sem planeamento, qualquer mês de Dezembro pode ser louco em demasia, pelo desejo de comprar algo certo para ofertar a amigos e família. Nesse deambular natalício, sempre surge na minha mente aquele difícil pensamento que opõe o espírito de Natal com o lucro comercial.

Curiosamente, neste peculiar Dezembro de um ano tão impar, não houve confronto mas sintonia, ciente que tudo o que comprarmos ajudará uma economia bastante debilitada em virtude da pandemia.

E assim, passo a passo e sem conflito prosseguirá o ritual que levará ao Natal deste ano inesquecível. E ao mais desejado reencontro familiar – nessa data possível sem esquecer a segurança – mas sobretudo a um tempo de fé e de profunda esperança numa real mudança.

O mundo deseja e o mundo precisa. Esperemos que assim seja!

(Dulce Delgado, Dezembro 2020)

em dia de s. martinho…

castanha

…e das deliciosas castanhas a ele associadas, volto pela quarta vez a este tema desde que em 2016 iniciei o blog, reflectindo uma tradição que o tempo continua a guardar e que na minha família gostamos de celebrar.

Por questões logísticas, este ano o habitual encontro aconteceu de véspera, ontem portanto. Em volta da mesa os presentes e os ausentes, e em cima da mesa, para além das castanhas, outras iguarias tradicionais como o quente caldo verde, o chouriço e a batata doce assada, a tábua de queijos, as azeitonas, o doce de abobara e outros complementos que sempre aparecem para adoçar o evento.

O vinho acompanhou o degustar dos petiscos e o ritmo da conversa. Ele não foi “o primeiro vinho maturado do ano” como mandaria a tradição para esta data. Porém, não havendo agricultores ou vinhas na família, recorre-se ao supermercado onde a escolha é vasta. Também a jeropiga, um licor de vinho doce típico desta época esteve presente na hora de degustar as castanhas.

Da tradição faz parte um brinde colectivo, um tchim-tchim direccionado aos presentes, à saúde, à Vida e aos projectos pessoais. E ao mundo também, porque bem precisa de boas energias! Intimamente lembramos ainda os ausentes, já falecidos ou não. Afinal eles são as nossas raízes, o tronco de onde nascemos.

Ontem, num flash, esta imaginação trouxe igualmente para a mesa o S. Martinho de Tours envergando metade da sua capa vermelha. A outra metade ficou algures no séc. IV protegendo um pedinte da chuva e do frio, ou no corpo de Jesus como visionou o santo. Diz ainda a lenda que depois do S. Martinho agasalhar o pedinte, as nuvens desapareceram do céu e o sol brilhou durante três dias para os aquecer.

Este ano o S. Martinho não se fez acompanhar desses típicos “três dias de Verão”, presenteando-nos com um estranho leque de condições meteorológicas. Até ele foi obrigado a se a adaptar à instabilidade dos tempos…

Neste seu dia será celebrado e lembrado em muitos lugares… pela minha parte, gosto de pensar que ontem, virtualmente sentado à nossa mesa, ele apreciou a companhia, o calor humano, a boa disposição e os petiscos!

Obrigada Lena!

 

(Dulce Delgado, Novembro 2019)

 

 

 

 

artes e ofícios

 

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Numa sociedade predominantemente tecnológica e em que os saberes tradicionais passaram para um segundo plano, prezo saber que na capital do meu país tem havido algum cuidado na preservação desses conhecimentos, sendo certo que qualquer apoio que se associe à vontade, ao esforço e ao investimento dos próprios artífices, é potencialmente positivo.

Se há algum tempo divulguei aqui a iniciativa das Lojas com História, hoje quero referir a Rede de Artes e Ofícios de Lisboa, onde é possível encontrar, por zona da cidade ou ramo de actividade, uma série de profissões que o tempo colocou num segundo plano e que requerem conhecimentos especializados, técnica e sensibilidade. Nesta rede encontramos ofícios de todo o género, assim como os contactos de quem os realiza.

No sentido de divulgar estas actividades, também abriu recentemente o Mercado dos Ofícios do Bairro Alto, iniciativa que resultou de uma parceria entre o Município, a Misericórdia e entidades especializadas em ofícios tradicionais.

Por último, apesar de se situar numa vertente um pouco diferente, não quero deixar de referir os concursos para atribuição de ateliers municipais a baixo custo e com contrato de exploração por quatro anos, um sistema ideal para artistas em início de carreira e com poucos recursos, uma vez que o arrendamento é bastante baixo tendo em conta os altos valores do parque habitacional da capital.

Explorem os links acima e ajudem na sua divulgação.

 

 

 

dia da espiga

 

espiga

 

Segundo o calendário católico, quarenta dias após a Ressurreição de Cristo ocorre a festa da Ascensão, evento religioso que sempre sucede a uma quinta-feira. Este ano é a 10 de Maio, hoje portanto.

Por todo o país, mas especialmente a sul de Portugal onde o cultivo de cereais é mais abundante, este dia está associado ao Dia da Espiga, uma tradição que consiste na recolha de várias espécies vegetais e com elas compor um ramo que irá passar um ano pendurado atrás de uma porta, até ser substituído por um novo no ano seguinte.

Nesse período, ele protegerá a habitação de energias menos boas e chamará a abundância. A sua boa energia estará relacionada com o facto de ser recolhido no auge da Primavera, uma época de luz, cor e vitalidade, e que para além de marcar o início da época das colheitas está associada à fecundidade da terra. Nesse ramo…

…as espigas de cereal representam o pão; as papoilas vermelhas o amor e a vida; o ramo de oliveira, o azeite, a paz e a luz; os malquereres, o ouro e a prata, ou seja a riqueza; o alecrim, a saúde e a força; e o ramo de videira, o vinho e a alegria.

 

Neste dia, todos os anos regresso à infância. E recordo a imagem de minha mãe, mulher nascida a sul e aberta a tradições, a cumprir o ritual da apanha da espiga com as filhas a acompanhar. Depois o tempo passou, a vida mudou, as circunstâncias também e esse detalhe foi-se perdendo no tempo.

De vez em quando um ramo de espiga oferecido ou comprado (porque na cidade não existem prados…e as quintas-feiras são dias de trabalho!), entra serenamente em minha casa e aí se instala…até ser substituído por outro mais activo e com energias “actualizadas”.

Gosto destas tradições que ainda circulam na memória da vida e dos povos. Porque, se pensarmos um pouco mais nesta ideia de “unir” num ramo as energias que nos movem e que dão sabor à vida é algo de encantador. Manter este “microcosmos” literalmente pendurado na alma da nossa casa protegendo e energizando a nossa vida, poderá ser um absurdo para muitos ou visto apenas como algo do passado por outros….eu acho um acto delicioso, curioso e muito simbólico!

Termino com o link para a página de onde retirei a imagem acima e que descreve com algum detalhe outros aspectos associados a este dia e à forma como ele é vivido em várias regiões do país.

 

 

 

dia de reis

 

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Depois de um mês literalmente a marcar passo e cansados de estar em cima dos respectivos camelos com as oferendas nas mãos, Gaspar, Baltazar e Belchior chegaram finalmente junto do Menino para o saudar e oferecer os presentes. Isto aconteceu no meu presépio… e em todos aqueles que cumprem e prezam esta tradição do Dia de Reis.

Para os estudiosos fica a investigação sobre a veracidade deste episódio contado nos evangelhos e o seu real significado. Abstraindo-me de todos esses aspectos, o que quero aqui partilhar é apenas o prazer do ritual meio mágico e infantil associado a este tempo que hoje termina no calendário festivo, mas materializado em certos gestos, por vezes sem sentido apesar de sentidos, que se repetem ano a ano, tais como…

…o alterar a localização de algumas figuras do presépio, nomeadamente das ovelhas, imaginando que a “erva” que as alimenta pode estar mais saborosa e fresca noutro sítio …

…pegar de vez em quando nos Reis Magos e “ajudá-los” a avançar dois ou três centímetros no caminho que os levará à gruta onde está o Menino…

…regar a searinha de trigo (outra tradição de família), que na altura do Natal cresce verdejante no meio do musgo…

…recolocar a estrela que orienta os Reis Magos no lugar, porque teima sempre em cair e, sem ela, os Reis Magos podem perder a orientação e não chegar ao objectivo…

…acender uma vela no presépio, apenas porque fica tudo muito mais bonito e mágico, imaginando que o seu calor consegue aquecer a gruta e o menino meio despido…

…ou, finalmente, como sucedeu hoje quando coloquei os Reis Magos junto do Menino, consciencializar-me que se fechou mais uma vez este ciclo que mistura a Vida, a minha e a da minha família, com a tradição, o imaginário, o maravilhoso, a brincadeira, a ternura, o aconchego e a esperança…

 

…a esperança que estes gestos se repitam muitas vezes, talvez um dia também partilhados com netos, num jogo dinâmico, envolvente e, nessa circunstância, certamente ainda mais lúdico!

 

 

s. martinho

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Segundo a lenda, S. Martinho  de Tours foi uma altruísta alma quando há muitos séculos atrás rasgou ao meio a sua capa para proteger dois mendigos do frio. Por tão bondoso acto, Deus decidiu afastar as nuvens para que o sol aquecesse o seu corpo.

Então o sol, fazendo jus à tradição, foi sempre voltando nos dias de S. Martinho para nos brindar com “três” soalheiros e amenos dias que iluminavam outonos já acinzentados, frescos e chuvosos. Obviamente que este número era variável, mas sempre apareciam e eram bem recebidos.

Mas isto acontecia quando o clima deste nosso planeta era equilibrado. Entretanto…tanto o incomodamos que ele mudou de atitude, ficou alterado, confuso e deixou de ligar às tradições. No meu país, por exemplo, estamos a viver uma espécie de S, Martinho perene, apesar de estarmos a meio do Outono. Meses e meses sem chuva deixaram o país em seca extrema e numa situação muitíssimo preocupante. O céu apenas nos brindou com chuvas muito pontuais, algumas no momento certo de apagar alguns incêndios, mas persiste em continuar muito azul, sendo essa a previsão para os próximos tempos. Apenas o frio está a dar um ar da sua graça.

Diria que o S. Martinho se instalou confortavelmente neste recanto do sudoeste europeu, depois de nos visitar anos a fio apenas como turista.  Agora, parece que se tornou residente…

Por isso, tendo em conta este contexto e neste seu dia…

…peço encarecidamente ao S. Martinho de Tours que faça umas férias noutra região deste planeta, permitindo assim que as nuvens se aproximem e a chuva caia nesta Ibérica Península tão carente desse precioso liquido.

Precisamos que a chuva regue as nossas raízes, as nossas árvores, faça crescer a relva e as culturas dos nossos campos, alimentos vitais, quer para os animais quer para nós.

É ainda urgente que a precipitação tenha alguma continuidade de forma a encher as nossas barragens que estão praticamente vazias, assim como a restabelecer o nível dos aquíferos que alimentam o nosso solo e as nossas fontes naturais, agora quase esgotados.

Ao partir… deixaria o Outono ser, o Inverno acontecer e nós ficaríamos eternamente gratos!

 

Entretanto…enquanto o S. Martinho medita neste pedido que será certamente o de milhões de portugueses, apreciemos as tradições deste dia de convívio, de muitos petiscos e de castanhas assadas acompanhadas de água-pé ou jeropiga. E que em muitas regiões do país, a tradicional prova do vinho novo que hoje se realiza, revele um bom ano vinícola.

Que procuremos a alegria no meio da tristeza!

 

 

 

presenças

 

O Natal é a época do ano em que a tradição tem mais força. Associada a essa tradição está a memória dos que já partiram…pelos seus hábitos… pelos objectos que nos deixaram e que por vezes são apenas utilizados em épocas mais festivas… pelo legado gastronómico…ou simplesmente pela saudade!

Eu acrescentaria até, que na maioria das mesas da noite ou do dia de Natal, existe uma ou mais “cadeiras invisíveis”, onde se sentam as memórias daqueles que já não podem fisicamente estar ali a partilhar aquele momento.

É sobre essas presenças que fala o escritor Manuel Alegre no poema que passo a transcrever, e cujo título é exactamente Presenças. Porque aprecio a sua obra, tanto em prosa como em poesia, hoje cedo-lhe a palavra.

 

Eles estão por dentro. Nas
palavras
e nos actos.

Nas cadeiras
nas gavetas
nos cabides e nos fatos.

Quando menos se espera
fogem
dos retratos.

Tem cuidado quando te calças
eles podem esconder-se
nos sapatos.

Na sopa e na maçã
quem sabe se
no vinho.

Vê bem por onde vais
eles gostam das curvas
do caminho.

Na cama onde te deitas
nas camisas
e nas meias

no lençol com que te enxugas
no remédio que tomas para
desentupir as veias

no garfo sobre a mesa
nos copos
e nos pratos

eles estão por dentro e estão por fora.
Podes crer que nunca ficam
nos retratos.

 

Extraído do Livro do Português Errante, Publicações D. Quixote, Lisboa, 2001

 

sem escolha

 

Como mulher e cidadã deste país, tenho a liberdade que quero e nada nem ninguém me impede de fazer o que quiser, a não ser eu própria e o que me faz sentir confortável ou não. Aliás, não precisamos de pensar na nossa liberdade, porque ela é um dado adquirido neste século XXI. Mas bem longe desta realidade estão muitos países do médio oriente, onde a vida das mulheres é controlada pelas famílias, pelas leis vigentes e tradições fortemente influenciáveis pela moral e pelo poder religioso, aspectos que têm ainda mais força fora das grandes cidades.

A escolha deste tema, vem a propósito de um filme que passou recentemente nos cinemas, “Mustang“, da autoria da cineasta turca Deniz Gamze Ergüven, e de um livro em Bd que acabei de ler intitulado “Love story à l’iranienne” com textos de Jane Deuxard e desenhos de Zac Deloupy.

Sobre o filme, e para quem não o viu, é passado na Turquia actual e conta a história de cinco jovens/adolescentes, irmãs e órfãs, que ficaram ao cuidado de uma avó e de um tio. Uma sucessão de episódios leva à vontade de as “despacharem” ou seja, casá-las. Uma teve a sorte de casar com quem gostava e namorava às escondidas, outra entra apaticamente num casamento arranjado pela família, a terceira suicida-se porque não concebe uma situação semelhante, e as duas que restam, inconformadas, fogem, num final que nos alimenta a esperança mas que, caso ocorresse na vida real, nos levaria a questionar qual seria o seu futuro. No meio desta história entram muitos aspectos que regem aquela sociedade, tal como a relação entre sexos, os testes de virgindade, os abusos feitos às escondidas, etc.

O livro, por sua vez, descreve o Irão actual e revela o conteúdo de entrevistas realizadas clandestinamente e sempre com algum risco pela autora e jornalista, a jovens entre os 20 e 30 anos, que aceitaram falar-lhe das relações amorosas, dos seus sonhos, desejos e também da política vigente e da força que o poder religioso tem sobre a sociedade.

O que ambos nos transmitem tem muito em comum na forma como as mulheres são vistas e tratadas nestes dois países. Gostava de destacar vários aspectos, apesar de alguns serem do conhecimento da maioria:

– O normal são os casamentos combinados pelas famílias, logo casamentos sem amor; para a família da mulher é fundamental que o futuro noivo tenha emprego estável, apartamento e carro.

– Teoricamente não pode haver contactos sexuais antes do casamento. Mas por vezes existem aproximações e explorações entre namorados. Se a mulher não for virgem, e uma vez que é grande a probabilidade da família do noivo pedir um teste de virgindade antes do casamento, se tiver dinheiro fará uma operação para reconstituição do hímen. Muitas, por não terem capacidade monetária, suicidam-se por medo dos pais, da família e do futuro marido. Mesmo que a mulher diga e insista que é virgem, a palavra dela não vale nada e o teste normalmente é pedido e realizado. Excepcionalmente, os noivos provenientes de famílias menos tradicionais e em que há a certeza de que o teste de virgindade não é pedido, mantêm uma vida sexual activa, mas sempre às escondidas;

– As mulheres foram educadas para servir o homem, para se preocuparem em tratar da casa, da família e em estarem bonitas. Os homens ditam as regras nas ruas, elas ditam-nas em casa.

 

Mas no Irão, particularmente, sendo uma sociedade muito mais tradicional e fortemente influenciada pelas leis dos líderes religiosos, outras regras se impõem:

– Homens e mulheres não podem frequentar espaços públicos sem estarem casados. Se o fizerem, podem ser obrigados a casar. Apenas no campus universitário, único lugar onde existem aulas mistas, isso é possível sem levantar suspeição;

– A falta de “alquimia” e de amor nos casamentos tradicionais leva actualmente a muitos divórcios, apesar das implicações morais para a mulher e do valor do “mehrieh” estar a aumentar consideravelmente. Este valor é determinado pelas famílias antes do casamento e é sempre dado pelo homem à mulher em caso de divórcio, mesmo que a iniciativa seja dela. Porém, as mulheres divorciadas são vistas como traidoras pela família;

– Os divorciados podem ter uma autorização dada pelos mollahs (líderes religiosos islâmicos) para “frequentarem” outra pessoa, sem risco de serem presos. Assemelha-se a um casamento temporário, mas com a condição de não viverem juntos. Uma mulher divorciada dificilmente é aceite por outra família para casamento;

– Estes mollahs, por sua vez, podem ter contactos sexuais fora do casamento tradicional, pois criaram leis para eles próprios. Instituíram o “sigheh”, que são autorizações temporárias, que podem durar dias ou anos, e que lhes permite, por exemplo, ir ter com prostitutas fora do país;

– A infidelidade é totalmente proibida, especialmente nas mulheres;

– Tudo é proibido, mas quase tudo se faz às escondidas: amar, fumar, dançar, etc;

– Existem a circular na rua os “bassidgis”, milhares de homens à paisana que tudo controlam relativamente aos costumes e comportamento de homens e mulheres;

– Para as mulheres é obrigatório o uso do véu e de um casaco ¾ quando estão na rua. Na via pública, existem mulheres que têm como função controlar os trajes femininos, nomeadamente a altura das calças, pois os pés não podem ser mostrados;

– É comum, e um sinal de poder e de emancipação, uma mulher iraniana fazer uma operação estética ao nariz para o arrebitar. Para elas é sinónimo de beleza e, consequentemente, a possibilidade de arranjarem melhores pretendentes e um melhor casamento;

 

Mas também noutros campos, o controle é severo. Deixo aqui alguns exemplos:

– Só é permitida a música em cerimónias religiosas, mas esta ouve-se e toca-se às escondidas noutros locais. Se quem os toca for apanhado, os instrumentos são confiscados; mas depois adquire outro, pois, apesar de proibidos, estão à venda;

– As cadeias de televisão estrangeiras são igualmente proibidas, mas através de uma ligação via net, muitas pessoas contornam isso por períodos limitados. A televisão por satélite também é proibida, mas cerca de 70% das famílias possui uma parabólica. De vez em quando aparecem brigadas de homens que circulam pelos telhados a destruí-las ou a roubá-las. E depois compram-se mais, porque também estas estão à venda….

– Os animais domésticos, nomeadamente os cães, por serem considerados impuros, são proibidos, abatidos e os donos sancionados. Porém, pessoas com mais posses têm-nos às escondidas….

 

Este resumo é sintomático do controle e da falta de liberdade que existe nesses países e sociedades. A esperança de mudança está latente na maioria dos jovens, mas eles têm a noção de quanto vai ser difícil quebrar com as tradições, tão ou mais fortes que o poder político. Levará muitas gerações.

Quem se deu ao trabalho de ler este post até aqui, poderá estar a pensar: nada disto é novo, já sabemos que é assim. Certo, mas a verdade é que realmente não sabemos, nem fazemos ideia do que será este tipo de vivência. Porque apesar das incongruências que existem na nossa sociedade, a verdade é que temos livremente acesso a tudo. E temos o mais importante: a liberdade de escolha, a liberdade de poder dizer sim ou não e a liberdade de amar quem queremos e de exprimir livremente os sentimentos que nos vão na alma.

Mesmo assim somos por vezes tão insatisfeitos e resmungões!