experimentações #4

 

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A leitura do ensaio Elogio da mão da autoria do Historiador de Arte Henri Focillon foi tão marcante no final da minha juventude que me levou a fazer algumas colagens baseadas em frases do seu conteúdo. Também me interessou a perspectiva de outros autores que escreveram sobre estas incríveis ferramentas que nos ligam ao mundo e a que raramente damos o devido valor.

Partilho algumas das colagens então realizadas, uma técnica que me cativou imenso pelas suas potencialidades e a que recorri posteriormente em vários momentos criativos.

 

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(Dulce Delgado, colagens em papel, 1981 (?)

 

 

 

 

genérico/ créditos finais

 

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Seja em casa ou no cinema, a visualização de um filme é um momento de partilha e uma apreciação do trabalho de todos os que nele colaboraram, apareçam ou não no écran.

Especialmente numa sala de cinema em que os créditos finais são bastante perceptíveis pela dimensão das letras, não compreendo que a maioria dos espectadores se levante e abandone a sala mal aparecem as primeiras palavras que se seguem à última cena do filme. Sistematicamente isso acontece, sendo raros os que ficam até ao fim.

Com essa atitude, não apenas tapam a vista e incomodam os que permanecem sentados e atentos ao que continua a acontecer no écran, como perdem por vezes cenas que surgem durante ou após a passagem do genérico e que dão pistas importantes ao próprio filme ou a sequelas que ele possa ter. Mas, principalmente, ignoram as pessoas que contribuíram para aquele momento de lazer que acabaram de usufruir.

Creio que esta atitude estará relacionada com a “aceleração” em que se vive…com o não pensar nos outros… mas, essencialmente, com o facilitismo que prolifera por aí.

Na verdade, tudo é fácil e um dado adquirido. Moldados neste espírito, uma grande maioria consome o imediato, o momento, o que gera estímulo. Pouco mais interessa, muito menos o trabalho dos outros.

Se esses espectadores que se levantam tivessem o seu nome no genérico, certamente ficariam até ao fim. O ego precisa de alimento… então, porque não o fazer como forma de agradecer aos outros, ao “contingente silencioso” que lhes permitiu aquele momento?

Se a leitura deste post tiver como consequência que uma única pessoa permaneça na sala, atenta, até ao final do genérico da próxima vez que for ao cinema… ele já valeu a pena.

 

 

A imagem inicial é um detalhe dos créditos finais do filme Um ano especial, realizado por Ridley Scott (2006)

 

 

valor relativo

 

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Talvez as nossas mãos sejam o principal meio de transporte que lhes permite “mudar de casa”, seja para uma caixa registadora, para um porta-moedas, um mealheiro ou uma algibeira, sendo o tempo de permanência nesses lugares uma verdadeira incógnita. Mas no período que permeia entre o chegar e o partir, podem mudar de cidade ou de país, sendo por isso as melhores turistas do acaso da nossa sociedade.

As moedas vêm e vão, passando por nós de uma forma quase indiferente. Apenas nos apercebemos da sua real importância em situações muito específicas, como no momento de “alimentar” um parquímetro ou qualquer outra máquina automática que delas depende para cumprir a sua função. Apesar de tudo, nenhum mecanismo actual consegue destronar as verdadeiras “comedoras” de moedas como eram as antigas cabines telefónicas, clássicas referências de um tempo em que a moeda virtual ainda estava bem longe do nosso dia-a-dia.

De vez em quando sentimo-las de uma forma mais emocional e menos fria ou metálica. É o caso daquela moeda que segue o seu caminho como recompensa pelo momento agradável que uma performance artística nos proporcionou no meio da cidade, ou a moeda que damos a alguém mais necessitado e cujo olhar, ou silêncio, nos tocou especialmente. Estas serão recebidas com uma energia diferente, mais humanizada e provavelmente trocadas por um sorriso ou por um obrigado.

De certa forma, as moedas são a parte mais visível, palpável e até “pura” de uma enorme engrenagem que tudo controla sem dó nem piedade e cujo objectivo é o lucro, quantas vezes desumano e desenfreado. Se, para muitos, elas são míseras e não valem nada, para outros valem imenso e podem contribuir para que as suas vidas sejam menos miseráveis.

É estranha e tão injusta, esta dialéctica da sociedade em que vivemos.