presépio de emoções

 

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Regressou o presépio à luz do dia, numa espécie de ritual anual de preservação de memórias. As diferenças surgidas durante a sua montagem estarão certamente associadas a questões estéticas, porque a carga emocional presente renova-se em cada ano nos dias 1 ou 8 de Dezembro. Porém, muito mais do que o significado religioso de um presépio, na minha vida ele é essencialmente um recordar de pessoas e momentos…

…com ele regressa a minha avó materna através das figuras de barro que ofereceu há cinquenta e muitos anos;

…regressa a minha mãe da sua viagem pelo tempo sem tempo, para me recordar a  genuína aptidão que tinha para presépio, construções que sempre fazia com musgo, montes, cavernas e um lago. O meu, é apenas uma versão muitíssimo simplificada dos seus!

…voltam os meus filhos-crianças, quando se divertiam a complementá-lo com bonecos que colocavam no meio das figuras tradicionais. Hoje, ainda mantenho uma ovelha em plástico dessa época;

…e regressamos nós, eu e o meu companheiro, a um dia de gestos que se repetem com alegria há mais de vinte anos….

Primeiro, fazendo um passeio matinal à Serra de Sintra em busca de musgo, incursão este ano envolta em frio, chuviscos e num denso manto de nevoeiro que deu uma magia especial ao momento; depois, passando a tarde a erigi-lo, começando por construir um monte e uma gruta que permita proteger aquele eterno recém-nascido do frio ou a encontrar a localização adequada para cada figura…porque as ovelhas , por exemplo, não se podem perder do seu pastor, e seria um triste Natal para o anjo se desse uma queda e partisse uma asa ou uma perna! Também a estrela, já meio desfeita, continua ano a ano a emanar uns ténues raios de luz sólida que orientam os Reis Magos…

Por fim, uma vela …

…a luz que ilumina e aquece aquele lugar, que aquece o nosso olhar e todas estas memórias e, principalmente, que agradece mais um ano de vida e de saúde concedido a esta família!

 

 

vento norte

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Sopra forte
o vento norte.

Força o vidro
assobia na fresta
e esperançoso,
espera.

A janela
sente a corrente,
mas mostra-se indiferente…

Que pena,
pensa o vento,
é tão bela e transparente!

Que pena,
pensa a janela,
que bom seria ser vela
enfunar
e loucamente viajar
ao sabor deste vento!

 

(Dulce Delgado, Dezembro 2017)