a nuvem

 

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Sempre
em movimento,
percorreu o mundo
ao lado do vento.

No céu espalhou beleza,
foi chuva
sombra
e tempestade,
vivendo em pleno
a sua liberdade.

Agora deseja parar
e ficar,
apenas naquele lugar.
E do alto do céu azul
apreciar a beleza da terra,
de dia
pelo sol afagada
de noite,
no escuro aconchegada.

Sem pressa,
quer seguir com o olhar
as aves a voar,
os aviões a riscar o ar
ou as ondas a rolar no mar.
E feliz,
acenar aos ventos e nuvens,
que continuam a viajar.

Sonha apenas sentir
outro modo de estar,
porque a vida,
só é plenamente entendida,
quando no outro lado
somos capazes de nos colocar!

 

 

(Dulce Delgado, Maio 2017)

 

 

 

as voltas da vida

estendal

Um estendal
num recanto da cidade…
… e uma camisa branca,
cansada da realidade!

Ora enfuna com o ar
na lembrança
de voar,
ora na corda se enrola,
cansada
de tanto lutar.

Na rotina da vida,
o desalento é total.
Usada
e depois despida,
na roupa suja é metida
numa indiferença brutal.

Se a lavagem
é uma desventura,
pior é a tortura
de um ferro a queimar,
percorrendo o seu corpo
para os vincos alisar.

Sucedem
os dolorosos dias,
onde nada
de bom acontece.
Até o sonho,
cansado
de tão usado,
se desvanece.

Um dia,
um fortíssimo vento
norte
faz renascer a esperança,
sente nas molas
o desnorte,
e na corda insegurança.

Uma rajada maior
liberta-a
daquele lugar,
começando ofegante
numa aventura invulgar.

Como um balão insuflado
volteou feliz pelo ar,
e quando longe chegou
viu-se com riso e espanto
uma manga a acenar!

 

 (Dulce Delgado, Setembro 2016)

 

 

o voo da buganvília

 

No início deste blog revelei o meu gosto por buganvílias. Poucos dias depois, no começo de Maio, foi-me oferecido um exemplar desta espécie repleto de flores (post do dia 10 de Maio, intitulado Buganvilia II).

Sendo uma planta de exterior e não possuindo a minha casa uma varanda, fiquei expectante relativamente à sua adaptação/ sobrevivência, pelo que a coloquei num móvel que se encontra junto ao parapeito de uma janela que normalmente está aberta.

Duas semanas depois começou a perder as flores, que desapareceram totalmente em poucos dias. Fiquei então com uma buganvília sem flores, mas com muita esperança que a sua adaptação ainda fosse possível.

Um dia chegamos a casa e a buganvília não se encontrava no lugar. Senti um grande aperto no coração e rapidamente percebi que a sua ausência só poderia resultar do vento muito forte que se fazia sentir naquele dia… muita trepidação… pequenos deslizes sucessivos… e a buganvília só poderia ter caído do décimo andar onde vivo! Um voo de dez andares!!!

Desci rapidamente até à rua. Procurei-a e encontrei-a junto a um canteiro, perto de um pequeno monte de terra, com as raízes todas visíveis e as três hastes murchas e sem qualquer vitalidade.

Peguei nela cuidadosamente, levei-a para casa e coloquei-a em nova terra e novo vaso. Em poucas horas algumas das folhas ganharam alguma firmeza, iniciando-se a fase dos “cuidados intensivos”, com muito acompanhamento, diálogo e obviamente, um “cinto de segurança” para impedir novas quedas.

Duas das hastes conseguiram recuperar, sendo que a outra secou definitivamente. Após duas semanas, reparei que estavam a nascer novas folhas. Dias depois apareceram pequenos pontos de cor, que pareciam flores. E foram mesmo, o que se revelou uma enorme alegria para mim!

Um mês e meio após a queda, a minha buganvília estava a ficar cheia de flores e a crescer a olhos vistos. Até foi passar uns dias de férias ao Algarve, para uma varanda, estadia que seguramente lhe agradou, dada a sua evolução.

Voltou para casa e continua muito bonita, como mostra esta fotografia tirada recentemente. Parece feliz e espero que assim continue. Porque eu também estou!

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Mas, tão importante como essa alegria que sinto, é a lição que ela tem dado a todos os que a temos acompanhado nos últimos tempos: mesmo após uma grande queda, podemos dar a volta e recuperar para a vida e voltar a ser felizes. O ser vivo é, por natureza, um lutador e um sobrevivente. E se tivermos a sorte de ter alguém que goste e cuide de nós, que nos ampare e incentive nesses momentos, então a recuperação será mais provável, fácil e rápida!