final de agosto…

 

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Para quem vive no hemisfério norte…termina hoje o mês mais ambíguo do ano!

Sendo o mais desejado para gozo de férias pela maioria, é sobre ele que recai o receio de que não cumpra devidamente os atributos meteorológicos que a fama lhe foi dando ao longo do tempo. Apesar disso, normalmente ele presenteia-nos com alguma chuva!

Curiosamente, ele também é desejado pela minoria que não o escolhe para férias, sendo tranquilamente saboreado nos locais de trabalho, nos transportes públicos agora mais vazios ou pela fluidez do trânsito de acesso às cidades. Porém, para quem é visitante e pretende ver os locais mais turísticos, Agosto é um mês insuportável!

Em Agosto, muitos vêm…e voltam a partir! Refiro-me aos milhares de emigrantes que regressam aos países de origem para descansar e rever a família. Com essa chegada, permitem que temporariamente as saudades se anulem ou que saiam voando pelas janelas das suas habitações, agora abertas e deixando o sol entrar. No final do mês é novamente altura de partir, de agarrar a saudade, fechar as janelas e deixar esses refúgios voltarem à solidão a que já estão habituados.

No entanto, são muitos também os que partem… e depois regressam! Vão para a praia, para o campo, para a cidade de sonho ou para a viagem planeada durante meses. Todos envoltos em expectativas. Depois voltam, cheios de muito, cheios de mundo, talvez com outro olhar, quiçá com alguma desilusão. Mas as suas casas voltam a sorrir e as janelas dessas casas a abrir!

Em Agosto, o Verão atinge o auge e entra rapidamente em decadência. Literalmente. Com o seu fim a sociedade muda de “canal” e de prioridades. Para muitos, as férias e a praia dão lugar ao “cansaço” do início do ano escolar, aos problemas do dia-a-dia e aos problemas do país, às quezílias político-partidárias regressadas de férias ou, ainda, ao campeonato nacional de futebol que entretanto recomeçou. Por outro lado, as preocupações com o fato de banho, com o bikini ou com a celulite, dão lugar às preocupações com a nova colecção Outono/Inverno que felizmente tudo tapa e que, curiosamente, já em Julho estava nas lojas a dar um ar da sua graça e ansiando um olhar.

Agosto chega hoje ao fim. Neste período o mundo deu trinta e uma voltas sobre si próprio e rolou mais um pouco no vazio cósmico..sem suspeitar que leva consigo alguns loucos em fase crescente de loucura!

Eu diria que, para muitos, foram trinta e um dias de…

…chegadas e partidas

…idas e regressos

…saídas e entradas

…abraços e separações

…saudações e despedidas

…desejos e desilusões

…sonhos e realidade

…descanso e cansaço

…amores e desamores

…relaxar e preocupar

…olhares e suspiros

…inspirar…

…expirar…

…e simplesmente perceber… que em breve… o Natal estará a chegar!

 

 

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areia sentida

 

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A cada estação do ano associamos determinados rituais. Com o final da Primavera e o início do Verão, o corpo ganha um protagonismo diferente, desnuda-se e solicita um vestuário e calçado mais leve, num ritual que leva a pele a inspirar lentamente a sensação de “ar livre”. Esse progressivo arejamento permite também uma maior fluidez de gestos e atitudes.

Uma das melhores sensações que estas estações do ano nos oferecem, é o momento em que, depois de meses de recolhimento entre meias e sapatos, os nossos pés finalmente libertos penetram na macieza da areia seca de uma praia. Eles ficam felizes…e riem…apertam a areia… afagam…quase dançam!

É uma sensação que dura segundos, apenas o tempo dos primeiros passos ou até a mente se distrair e nos levar para outro sentir.

Momento bastante efémero, sem dúvida…talvez até indiferente para muitos…talvez desagradável para os que não gostam de areia…mas pessoalmente, um momento marcante, inspirador e deveras libertador!

 

 

junho…

 

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Para quem vive no hemisfério norte, o mês de Junho é, claramente, o tempo que faz a transição para o Verão e para o principal período de férias do ano.

Há medida que o mês avança e a temperatura atmosférica vai subindo, vamos sentindo na pele e no corpo uma vontade de movimento e de exterior, numa espécie de antecipação ao que está para vir. Diria que é o mês em que as férias saem do “mapa de férias” afixado no placard dos locais de trabalho e deixam de ser apenas uma ideia, uma perspectiva ou um desejo, passando a algo mais físico e emocional.

Se por um lado o corpo fica mais irrequieto, também começa a ser muito mais fácil a nossa mente sair por aí e iniciar um imenso voo em tons de céu, de verde ou de mar e, num ápice sem tempo nem conta-quilómetros, nos levar àquele lugar que está planeado na agenda, escrito no bilhete de avião real ou electrónico, ou apenas guardado como projecto ou desejo.

Depois… tão naturalmente como partiu, a mente volta à casa-mãe e, com um sorriso invisível leva-nos a pegar novamente na caneta, no teclado do computador ou em qualquer objecto/tarefa que faça parte do nossa actividade diária e pede que continuemos… e nós vamos continuar, certos que o processo se vai repetir… até chegar o primeiro dia de férias!

Digamos que o mês que o antecede, Maio, ainda nos permite estar na quietude do tempo, do espaço e das rotinas que nos envolvem com uma certa tranquilidade. Mas Junho, o irrequieto mês de Junho, é sinónimo de uma agradável inquietude, de um fervilhar e do desejo de outro respirar. E muitas vezes, vontade de outro lugar!

Indiscutivelmente…Junho está comigo!

 

 

o ex-presidente

 

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A simples possibilidade de possuir este blog, em que tenho a liberdade de utilizar as palavras que quero ou de abordar qualquer temática à escolha, apenas se tornou possível neste país porque houve muitas pessoas que lutaram, sofreram, resistiram e até morreram para que a liberdade, nomeadamente a de expressão, fosse alcançada.

Um desses lutadores foi, sem qualquer dúvida, o Dr. Mário Soares, cuja vida e opções tiveram sempre como principal objectivo o uso da liberdade e a vivência da democracia. Por isso, sinto que lhe devo dedicar algumas linhas neste blog. Obviamente que não vou falar do seu percurso político, porque isso deve ser feito por especialistas. Eu prefiro uma aproximação mais humana, baseada no que observei e na minha vivência, mas que me deu a oportunidade de perceber algumas características da sua personalidade.

Gostava de começar pela sua atitude em tempo de férias algarvias e durante os habituais passeios à beira-mar que realizava na zona das praias do Alvor e do Vau. Eram normalmente percorridos a bom ritmo e em amena conversa com os companheiros de trajecto, mas igualmente pelos guarda-costas que sempre o seguiam. Simpático e com a sua habitual bonomia, cumprimentava os veraneantes, especialmente os que nele reparavam ou que se lhe dirigiam. Diria que a sua presença, tal como a da sua esposa, mas esta de uma forma mais recatada, faziam parte da dinâmica dos verões daquela zona do Algarve.

Com características bem diferentes, vivenciei há muitos anos um momento que demonstrou bem o seu espírito curioso e em que nada nem ninguém o impedia de chegar onde queria. Nos idos anos noventa do século passado, mais precisamente em 1992, integrei a equipa de técnicos de conservação e restauro do então denominado Instituto José de Figueiredo, que intervencionou o tecto pintado da Sala das Bicas, espaço localizado na Presidência da Républica e onde normalmente decorrem as conferências de imprensa e os encontros com os jornalistas. Era, nessa época, o Dr. Mário Soares o nosso Presidente da República.
O tecto onde decorriam os trabalhos era bastante alto, pelo que foi necessário a montagem de um andaime com plataforma, para a qual se subia totalmente na vertical, o que exigia bastante cuidado. Hoje, felizmente, e por imposição de regras da CEE, aquele tipo de andaime já não é permitido, sendo obrigatório incorporar-lhe vários lances de escadas.

Um dia, o Dr. Mário Soares foi visitar-nos. Vendo que estávamos a trabalhar lá em cima e a agilidade com que uma nossa colega subia aquela estrutura, decidiu também o fazer, apesar do evidente nervosismo e preocupação de quem o acompanhava. Na verdade, aquela não era uma subida adequada aos 67 ou 68 anos que possuiria na altura, mas não desistiu. Apesar de bastante fatigado, chegou lá acima. Não subiu totalmente para a plataforma, mas penetrou o suficiente na abertura de acesso para, bem agarrado ao andaime, conseguir ver o trabalho em curso, fazer algumas perguntas e interagir connosco com simpatia. Foi seguido nessa ascensão por um acompanhante que, por obrigação, solidariedade ou com a intenção de o agarrar caso surgisse algum desiquilíbrio, deu para perceber pela sua expressão que não apreciou minimamente a aventura.

No final, o Dr. Mário Soares agradeceu o nosso trabalho e desceu o andaime, com todo o cuidado, porque a situação assim o exigia. Estou certa que aquela terá sido a última vez em que aqueles dois seres humanos subiram um andaime totalmente na vertical!

Este episódio faz parte das memórias do nosso instituto e obviamente da memória dos técnicos que estavam presentes. E ele mostra bem o espírito curioso, decidido e aventureiro que caracterizava o nosso ex-presidente Dr. Mário Soares. Contra tudo e contra todos, ele fazia o que queria. Ponto final.

Talvez por isso ele deixou tanto entre nós…e muito terá levado consigo da sua passagem por esta vida!

 

 

(Imagem retirada da página http://arepublicano.blogspot.pt/2017/01/soares-65-o-anuncio-do-lider_8.html)

 

nevoeiro de verão

 

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Manhã de Setembro…Praia de Santo Amaro de Oeiras…

 

O nevoeiro
apareceu em onda gigante
a partir do horizonte.
Em breve engoliu
o farol do Bugio,
e de cinzento vestiu
o céu
o mar
e o meu olhar.

Na praia,
procurei no céu
o azul que se escondia,
e no mar,
as velas do barco
que o olhar já não via.

Figuras esbatidas
percorriam a beira mar,
visão invulgar
que o olhar absorvia,
pela magia
e beleza sem par.

Muitas ondas
depois
recuou o nevoeiro,
deixando um azul
ténue e rasteiro.
Sem pressa,
retomou a praia o seu lugar,
envolta agora
num manto
quente,
abafado,
mudo e sem ar.

E eu afastei-me
sem pena
nem dor.
Aquele Verão incolor,
fora lindo
refrescante
profundamente envolvente
e bem mais inspirador!

 

(Dulce Delgado, Setembro 2016)