voltando ao cinema…

 

 

Lucky é o primeiro filme realizado por John Carroll Lynch e o último representado por Harry Dean Stanton, actor que faleceu com 91 anos no passado mês de Setembro, antes desta película ser estreada.

Algures numa América desconhecida e ao ritmo da idade e das rotinas que caracterizam o último tempo da vida, este bonito filme mostra o processo de consciencialização e preparação de um idoso para o fim que se aproxima. Curiosamente, entre a ficção e a realidade estava um actor, que entretanto morreu, talvez sorrindo com aquele sorriso revelador e sábio com que terminou este filme.

Poderia escrever muito mais, mas não o vou fazer. Vou deixar aqui as palavras do crítico de cinema Luís Miguel Oliveira, publicadas no Cinecartaz do jornal Público porque, no geral, me identifico bastante com a sua análise.

Num período do ano em que os cinemas funcionam para as “massas”, este filme é uma pequena pérola que se visualiza tranquilamente em salas quase vazias. Só por isso, merece toda a atenção e divulgação.

 

 

 

Advertisements

ao mar do meu olhar…

 

IMG_3493a

 

…neste Dia Nacional do Mar!

Este poema é um “mar-divagar” pessoal e nada diz sobre a real importância deste elemento na vida de todos os portugueses. O mar é a nossa história, o nosso percurso e estou certa que será uma parte fundamental do nosso futuro.
Pretende-se apenas que, neste dia, cada um relembre o seu próprio Mar!

 

Mar,
de longo e infinito olhar
onde é fácil imaginar
aquele lado da vida
que a vida não nos quer dar.

Horizonte de poesia
que me leva a passear,
deixando os pensamentos
profundos
ou em fragmentos,
pelas águas navegar.

Uns mergulham nas ondas
e ficarão sempre a nadar,
outros preferem voar
levados por um véu de água
que se evapora no ar,
e muitos,
felizes e sem mágoa,
diluem-se na branca espuma
que na areia vai descansar.

Tranquilamente,
percorro a beira-mar…

…talvez a procurar
um pensamento
meu,
escondido numa concha,
morando no coração
de um búzio,
ou dormindo na areia
que os meus pés estão a pisar!

 

(Dulce Delgado, Novembro 2017)

 

 

ioga sentido

 

34a

(Este post complementa outros publicados com esta temática, em especial ioga III )

 

Como resiste à realidade e ao dia-a-dia, o bem-estar geral sentido após uma aula de ioga?

Diria simplesmente que a duração desse período está directamente relacionada com o tempo de prática desta actividade que, no meu caso, tem perto de dezoito anos, pelo que não estou a falar sem conhecimento de causa.

Nos primeiros tempos, o bem-estar sentido era efémero. Bastava o trânsito no trajecto para casa ou a ideia de uma ida ao supermercado, para terminar com a “magia” da aula de ioga. Digamos que era demasiado vulnerável e rapidamente absorvido pelos meandros dos momentos seguintes.

Porém, à medida que os anos foram passando, a sensação foi-se alterando progressivamente. É certo que foi muito lentamente, mas começou a suceder o processo inverso, ou seja, o bem-estar da aula de ioga, começou a “absorver” e a resistir à realidade dos dias e da vida. Digamos que foi calmamente integrado a todos os níveis e formando uma espécie de “almofada” que atenua as dificuldades, os choques, as irritações, etc, etc. No geral, tudo é sentido, olhado e compreendido com outra postura, relativizando as situações e tentando dar-lhe o devido valor. Ou colocando-as no lugar que devem ocupar.

Isto não significa que se fique imune ao que nos rodeia ou a pairar por aí. Nada disso. Antes pelo contrário. Significa sim, que se está muito mais atento e com uma maior consciência do mundo em que estamos integrados e, simultaneamente, uma maior consciência do nosso corpo e das suas capacidades e limites. Também as “dores e resmunguices” que ele sempre nos oferece são percepcionadas e aceites de uma forma mais consciente e dialogante. Para quê nos zangarmos, se é ele que nos permite estar neste mundo? Temos é que o ir tratando o melhor possível, ter cuidado com o que lhe damos de alimento e levá-lo ao médico quando realmente não o entendemos.

Para concluir, eu diria que a prática continuada de ioga permite uma harmonização geral com esta vida que nos foi “emprestada”. Nesse sentido, temos que a tratar o melhor possível, tentando transformar/sublimar as energias menos boas que todos possuímos em algo de melhor, para que um dia, quando ela nos for retirada, possa continuar calmamente o seu caminho e a sua evolução.

 

 

 

perspectivas

 

IMG_1568

 

A corda revela
…força… presença…ser… estar… matéria… corpo… espaço que se ocupa… realidade… consistência… objectivos…

a sombra
…ausência de luz… não presença… vazio… o que não se mostra… obscuridade… cegueira…indiferença… o lado mais negro…

o reflexo…
…influência… imagem… desejo escondido… o que não é físico… luz interior… esperança… irrealidade… sonho… ilusão…

 

Três perspectivas que fazem parte da Vida de cada um de nós…perspectivas que ora confluem, ora divergem, ora se equilibram ou desequilibram…

…e que, simbolicamente, estavam ali perante o meu olhar…num passeio à beira-mar!

 

 

 

 

outono aqui…primavera além…

IMG_9335ab

Entre nós e a natureza existem paralelismos, mas igualmente formas muito diferenciadas de adaptação. Diria que a energia-vida que nos alimenta é a mesma, mas a sua elasticidade permite manifestações por vezes opostas. Isto vem a propósito do equinócio de hoje no calendário astronómico e das alterações que entretanto ocorrem.

No hemisfério norte, onde resido, inicia-se o Outono. Os dias mais frescos começam a tocar a nossa pele e a provocar aquele primeiro arrepio que sempre nos surpreende. Os seguintes levam-nos a ir buscar um agasalho e, com o avançar dos dias, progressivamente a roupa mais quente irá proteger-nos e substituir o calor do sol. Isto significa que, para retermos e pouparmos energia, tapamos o nosso corpo, sendo com mais ou menos camadas de roupa que enfrentaremos o frio que o Outono e o Inverno nos irão oferecer.

Mas na natureza o processo pode ser oposto, como se constata em muitas espécies do reino vegetal. Vejamos as árvores, nomeadamente as de folha caduca, que enfrentam o frio e os rigores do Inverno perdendo as suas folhas, ou seja despindo-se, num processo assaz interessante e bem diferente do nosso.

Nesse grupo de árvores, à medida que os dias começam a ficar mais curtos e com menos horas de sol, reduz-se a produção de clorofila, o pigmento verde existente nas folhas e responsável pela captação da luz e produção da energia que a planta necessita. Com menos energia, as folhas começam a ficar amarelas e a adquirir aqueles tons outonais que alimentam e deliciam o nosso olhar. Entretanto, a própria planta produz uma substância que se vai acumular na base das hastes de cada folha, que tem como função destruir as células dessa zona e assim impedir a passagem da água. Sem ela, a folha seca, cai, o que acontece progressivamente com toda a folhagem.

Despida e sem folhas, o objectivo de “poupar” está cumprido, porque a área que permitiria perder os elementos vitais foi drasticamente reduzida. Ficam os troncos, bem mais resistentes ao frio e ao gelo, e capazes de guardar o potencial energético da árvore até à próxima Primavera.

Em suma, a natureza despe-se…e nós adicionamos roupa…duas estratégias de sobrevivência opostas e algo incongruentes, se considerarmos que o mecanismo adoptado pela natureza parece muito mais inteligente e genuíno do que o nosso.

Tendo em conta o descrito, perante o colorido que o Outono irá espalhar na paisagem e oferecer ao nosso olhar, pensemos um pouco na importância e na beleza do processo escondido que está a acontecer em cada árvore e em cada folha. Simultâneamente, porque não sentir alguma gratidão no gesto banal de ir buscar um agasalho mais quente e confortável, uma vez que isso significa que, também nós, estamos a iniciar um novo Outono nas nossas vidas?

Entretanto…na metade sul do planeta, o equinócio dará lugar à Primavera e os agasalhos voltarão progressivamente ao roupeiro. Na natureza reaparecerão as folhas nos troncos das árvores… folhas que irão captar a luz e produzir a energia necessária ao ciclo de reprodução que se aproxima e que naturalmente será cumprido.

Aqui…ou além… é constante e activa a adaptação da natureza a este planeta que vagueia pelo universo e onde nós somos apenas convidados. Recordando isso…desejo a todos uma vivência consciente e tranquila do Outono…ou da Primavera!

 

 

 

sombra ausente

IMG_1308 - Cópia

Somos gente,
matéria e sopro de vida
em corpo de sangue
quente,
gente de fé
de pensamento
e de tanto sentimento!

Mas somos sombra
igualmente,
sombra parceira da luz
elástica
fresca
e transparente,
sombra eterna
que nos persegue
ao ritmo do movimento.

Sombra
sempre anulada
pelo brilho de um espelho,
face única
e transcendente
onde a sombra fica ausente
e a luz
é permamente.

Face de viva magia
fronteira do aparente,
lugar imagem…
lugar miragem…
mas sempre lugar de viagem
ao outro lado da gente!

 

 

(Dulce Delgado, Setembro 2017)