pela ilha da madeira (IV)

Dou as boas vindas ao Outono com um último post sobre as férias de Verão na ilha da Madeira. Creio que é tempo de terminar esta temática no Discretamente, apesar do tema de hoje – os seres vivos – sempre terem a nossa atenção durante todo o ano.

Ao longo dos dias que permanecemos na Madeira foram muitos os animais que cruzaram o nosso olhar e que nos “cumprimentaram”, seja em passeios realizados pelo interior da ilha seja na zona costeira.

Começo por aqueles que utilizam o solo como seu habitat principal….

…e aí, a sensação com que ficamos é que os lagartos/lagartixas foram os mais vistos especialmente nas zonas mais periféricas e soalheiras da ilha. De tons diversos, eles estão em muros, pedras ou no calhau rolado, bastando apenas um pouco de atenção para logo os ver. São fugidios mas, se pararmos em pouco, são capazes de se aproximar….de tal forma que estando eu sentada tranquilamente num muro a apreciar o mar…olho para o lado e vejo um a explorar o exterior da minha mochila. Reagi e ele logo fugiu. Digamos que os aprecio, desde que não entrem no meu “território pessoal”…

Leves, ágeis e apreciadores quer da terra quer do mar, os caranguejos merecem uma referência, pois foram muitos os que vimos.

De patas bem assentes no solo mas bem mais possantes e pachorrentas, as vacas  cruzaram o nosso caminho em vários momentos, sempre com aquele ar que as caracteriza que fica entre a indiferença e a tranquilidade. Cabras e ovelhas deram igualmente um ar da sua graça…

Dispersando um pouco o olhar, é altura de me centrar naqueles que conseguem voar. Vejamos primeiro as aves…

…ficamos com a sensação que quem reina na ilha são os sociáveis tentilhões, mais ou menos coloridos consoante o sexo ou idade. A ave que inicia este post é um tentilhão macho já adulto. As fêmeas, como geralmente acontece no mundo das aves, são bem mais sóbrias.

Adaptaram-se tão bem à dinâmica dos muitos turistas que visitam a ilha, que fazem da sua presença uma mais-valia. Constatamos que muitos procuram o final dos trilhos, locais onde a maioria das pessoas pára para descansar, comer qualquer coisa…e aí deixar migalhas! Então é vê-los a aproximar-se sem qualquer medo, como mostram as duas fotos que se seguem.

Este permaneceu perto de mim, por imenso tempo!

Para além dos tentilhões foram poucas as espécies de aves que vimos. Pela minha parte apenas consegui fotografar uma lavandeira (que no continente tem o nome de alvéloa-cinzenta) e um pensativo garajau comum a apreciar a ondulação!

Saltitões ou voadores, os insectos são sempre um desafio. Ainda consegui captar estes gafanhotos (um maior e outro pequeníssimo), um escaravelho (?), uma aranha e vários abelhões, ficando aqui apenas o melhor exemplar deste último.

Por fim, as borboletas! Sempre irrequietas e coloridas, foram muitas as que vimos. Eu porém, apenas consegui fotografar decentemente estes dois exemplares que se seguem.

Mas sendo estas férias partilhadas com o meu companheiro e um tempo inesquecível para ambos, termino com mais três exemplares de borboletas lindamente fotografadas por ele (Jorge Oliveira) e de que gosto muito.

Se estas férias foram um “voo a dois”, que este final seja também de ambos!

Para terminar…

… desejo sinceramente que a mudança de estação hoje ocorrida – Outono para uns e Primavera para outros – seja um tempo de tranquilizar o mundo e, indirectamente, de tranquilizar a Vida de todos nós.

Bom fim-de-semana!🍀

doce notícia!

Dois anos e um mês depois do Vasco ter nascido e de eu adquirir o estatuto de avó, posso agora partilhar convosco que, se tudo correr como previsto, na próxima Primavera serei duplamente avó.

A notícia foi divulgada de uma forma extremamente criativa como bem mostra o grafismo da t-shirt que o meu neto vestiu nesse dia.

Dou os meus parabéns aos papás designers pela engraçada ideia que tiveram e ao meu neto por desempenhar tão bem o papel que lhe foi atribuído neste futuro evento familiar.

Entretanto….se a alegria e a ternura que este tipo de notícia sempre envolve são uma realidade nas minhas emoções, quando a minha parte mais racional prevalece incomoda-me muito o estado do mundo onde esse bebé irá nascer e os meus netos irão crescer.

Diria que aquele optimismo “genético” que sempre me habitou está em fase de reflexão perante tanta insensatez, ganância, guerras absurdas, despotismo, etc., e pelo mais que evidente desequilíbrio ambiental que nos envolve.

Não é agradável pressentir um futuro que não gosto para os meus netos. É certo que eles aprenderão a viver nele, criarão defesas e espero que tudo façam para o melhorar.

Pela minha parte e enquanto a vida me permitir, tentarei ser aquela avó que prefere a paz e a sensatez, que respeita muito o outro e ainda mais a natureza e, especialmente, que sempre valoriza o imenso que temos e que nos rodeia.

Para já, o único e mais profundo desejo é que tudo corra bem com a futura mamã e seu rebento!

(Foto de Diana Oliveira/ André Simóes)

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Porque o teu olhar aprecia a simplicidade…..

…porque prefere “aquele menos” que diz mais…

…e porque sempre consegue encontrar no aparentemente banal aquela linha de força, energia ou estética que pode tornar algo mais belo…

…ofereço-te neste dia uma fotografia que tirei no início deste ano e que muito aprecio. Na sua subtileza encontro uma certa transcendência, seja na nudez dos troncos que revelam o essencial, seja nas névoas que temos que ultrapassar para chegar à clareza, à luz e a um “céu mais azul”.

Gosto da sua harmonia, mensagem e por este pouco me dizer-me tanto. E hoje gosto especialmente porque sei que também a irás apreciar.

A par destas palavras é o que te quero oferecer neste mundo virtual. No real terás muito mais. Haverá presenças, partilha e sentirás aquele abraço especial e aquela ternura que só uma mãe sabe dar. E que tu como mãe, já sabes bem como é profundo, intenso e tudo preenche.

Muitos parabéns minha filha!🧡

ao movimento…

…presente em cada momento!

…no barco que desliza no rio
        num pensamento sem norte,    
        num desejo em desvario
        tentando a sua sorte

…no ramo que vai e volta
        de uma árvore sem idade,
        no pombo ou na gaivota
        que voam pela cidade

…no carro que passa na ponte
        na nuvem levada pelo vento,
        na água que corre da fonte
        p’ra boca de alguém sedento

…nos corpos que vão e vêm
       com raiva, ternura ou dor,
       querendo o que não têm
       ou mostrando o seu amor

…no sangue que te corre nas veias
       na vontade de respiração,
      e na força com que desejas
      o pulsar de uma emoção!

Dulce Delgado, poema não datado

fotografia

Uma fotografia é uma forma mágica de “materializar” um momento que nos toca. Com ela guardamos um instante que será recordação e talvez um dia história…uma boa ou dolorosa emoção…aquele olhar que tocou o nosso sentido estético… ou um momento de sintonização com o mundo que habitamos.

As máquinas de hoje fazem-nos esquecer um pouco a magia associada ao tradicional click que sempre as caracterizou. O facilitismo técnico a que chegaram leva-nos a disparar quase automaticamente. É bom e mau porque, como bem sabemos, tudo o que é fácil torna-se banal.

Seja a fotografia o que for para cada um, neste Dia Mundial da Fotografia não posso deixar de referir o quanto aprecio esta descoberta que teve uma evolução extraordinária no tempo e que faz parte dos nossos dias. De todos os dias, através das formas mais ecléticas de a registar.

Eu tenho a minha forma de a sentir. Através dela gosto especialmente de captar os olhares e os detalhes que me dão tranquilidade… apesar de saber que o mundo real não é exactamente assim.

Com esta imagem, partilho o meu desejo de um tranquilo fim-de-semana!

caracóis

Uma das alterações que o crescimento me provocou foi o deixar de gostar de caracóis cozidos, um petisco deveras apreciado por muitos portugueses. Houve obviamente uma razão para isso, mas tal não é relevante neste post.

Posso não gostar deles como petisco, mas gosto muito de os ver no meio da natureza. Porém, assim como nós mudamos ao longo da nossa existência, também estes pequenos animais foram alterando alguns dos seus hábitos e adaptando-se à evolução dos tempos.

São cada vez mais os caracóis que procuram locais estranhos e bem diferentes das típicas ervas e hastes secas onde os ía apanhar na infância. Agora os caracóis são mais exploradores e vemo-los sobre os nossos carros, em sinais de trânsito, postes eléctricos, sebes metálicas ou plásticas, etc, etc,. sendo tudo um bom lugar para estacionar.

De “personalidade” bastante variável…

…tanto podemos encontrar os caracóis solitários como o da imagem inicial…

…. os que conseguem viver minimamente em sociedade respeitando o espaço dos outros…

… os que apreciam um pouco mais de confusão e convívio, mas ainda seguem algumas regras…

…e especialmente aqueles onde impera a filosofia do “tudo ao molho e fé em Deus”, como diz o velho provérbio. Sem dúvida que estes são o grupo mais abundante!

No meio de tantas possibilidades, surge irremediavelmente a minha vertente romântica que me leva a acreditar que há caracóis que têm um lado “humano e emocional”…. como os da foto ao lado que procuraram um recanto mais sossegado onde viver, namorar e criar a sua prole!

É certo que é um lugar metálico e pouco natural mas, de certa forma, isso está de acordo com a evolução e as escolhas deste nosso tempo…

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Algumas notas adicionais e curiosas sobre caracóis:

– integram-se no grupo dos moluscos terrestes que se protegem dentro de uma concha (gastrópodes)

– são maioritariamente hermafroditas, mas muitos acasalam, sendo os ovos postos por ambos os progenitores

– reproduzem-se na Primavera e Verão, fazendo várias posturas que podem ir até 100 ovos por caracol/postura

– quando eclodem a sua casca é muito frágil. Depois vai sendo fortalecida com cálcio que eles mesmos produzem. Muitas vezes alimentam-se de cascas e de ovos que não eclodiram. Nascem muitos mas também morrem imensos, pois têm muitos predadores

– a vida média de um caracol é de 2 a 5 anos, podendo ser bastante mais se estiver em cativeiro

– desloca-se sobre o pé, um forte músculo que tem na base, e produz uma substância gomosa para facilitar a deslocação

– etc, etc,.

São bem curiosos, não são? 🐌🐌

mar emoção

Mar
emoção
pleno de vida
grávido de ondas e energia
reflexo do meu coração.

Ondas crescentes
acariciam o mar azul
invadem o meu corpo
penetram os meus sentimentos.

Depois de tanta ternura
a alegria da explosão,
na pele do mar vivi
o gosto da aventura!

Numa fusão entre águas
dilui-se a espuma no azul sereno,
alimentando o sonho eterno
dos amores que não deixem mágoas.

(Dulce Delgado, poema antigo, não datado)

coisas pequeninas

Luisa Sobral é uma cantautora portuguesa que se rege pela simplicidade e onde se sente um bater de coração em tudo o que faz. Para além de ter sido a autora do tema cantado pelo seu irmão Salvador Sobral e que permitiu a Portugal em 2017 vencer o Festival da Eurovisão, tem vários álbuns editados com temas carregados de emoções, alguns com dedicatória aos seus filhos e direccionados para um publico mais infantil.

Ao seu estilo, sempre nos alerta para aquilo que vale realmente a pena enquanto seres humanos, para o valor das emoções, o amor que a vida merece, o respeito, mas também para aquele gesto de nada que pode ser tanto no nosso dia-a-dia. É nessa linha que no final de 2021 editou um tema intitulado

Terça-feira (coisas pequeninas)

que já ouvi várias vezes no rádio e que integra o álbum Camomila composto de sete canções de embalar, cada uma dedicada a um dia da semana.

Neste desvario dos dias, das emoções pessoais, das notícias do mundo ou de uma guerra que tanto nos doi… deixemo-nos embalar por algumas das imensas “coisas pequeninas” que animam a vida, a ternura dos dias e que, sem darmos por isso, esquecemos amiúde de apreciar devidamente.

Este post associado a um momento de embalar está um pouco relacionado com a circunstância do meu neto Vasco ficar connosco quatro dias /três noites, uma estadia com uma duração bem acima da média. É nosso desejo que corra bem, mas não deixa de ser uma experiência diferente e um novo sentir para nós, para ele e especialmente para os pais, bastante necessitados de um descanso.

Entre instantes de deleite e outros eventualmente menos simples, vou vivenciar de coração aberto os momentos, os passeios, as brincadeiras, a ternura, os abraços…mas também alguma birra que possa surgir ou as três noites pior dormidas que provavelmente me esperam.

Tudo faz parte das emoções da Vida…sejam elas mais doces e “pequeninas”, sejam elas mais intensas, dolorosas ou exigentes!

Bom fim-de-semana!🌞

primeiro encontro…

Depois de dois anos e dois meses, ele apanhou-me pela garganta, ignorando basicamente o restante corpo. Como entrou? Não faço a mínima ideia! Mas gosto de pensar que talvez tenha vindo com o vento…

Apenas sei que apareceu sorrateiro com uma matinal rouquidão que deixou o meu sotaque algarvio bastante mais sexy do que o habitual. Depois, ao fim do dia deu umas suaves pancadinhas na minha cabeça, algo que foi o  suficiente para me deixar alerta e levar a  realizar um autoteste rápido de antigéno ao SARS-CoV-2.

Seguidas as instruções e após uns momentos de dúvida….lá estava uma ténue risquinha a olhar para mim. Que mais poderia fazer senão aceitar a realidade, encarar o “bicho” de frente e iniciar os trâmites obrigatórios? Foi isso que fiz.

O pensamento inicial de que iria ficar horas em espera na linha telefónica SNS 24 revelou-se falso, uma vez que fui surpreendida com um sistema automatizado para utentes com autoteste positivo de uma eficiência que me espantou. Em pouco tempo tinha comigo os códigos necessários para o teste de confirmação em clínica e para acesso à declaração de isolamento. Objectivamente, um ritual que todos se queixam de ser lento e que na passada quarta-feira foi de uma eficiência sem mácula e que me deixou extremamente orgulhosa do nosso Serviço Nacional de Saúde.

No dia seguinte…o “bicho” estava raivoso e mordendo estupidamente a metade esquerda da minha garganta como se fosse o fim do mundo. O acto inconsciente e habitual de engolir a saliva tornou-se um suplício, também porque a dor daí resultante se alongava até ao ouvido, órgão que colaborou silenciosamente na parceria. Sem saber bem o que fazer ou tomar, ainda consegui contactar o meu médico de família que me medicou devidamente.

Foi apenas ao quinto dia que o intruso resolveu dar-se por rendido, depois de uma luta cerrada e desagradável que incluiu algumas noites mal dormidas. Agora, a restante contenda será entre as minhas defesas imunitárias e a sua agonia final.

Deste encontro, resta-me o conforto de saber que, para já, não fui “ponte de passagem/transmissão” para contactos próximos. Ou seja, por aqui parece que “ele” não deixou prole!


Apesar de ter consciência que este é um assunto difícil, seja pelo número de vítimas que a pandemia causou nos últimos dois anos, seja pelas sequelas deixadas em milhões de habitantes deste planeta a todos os níveis, a verdade é que este tema entrou e ficará para sempre nas nossas vidas.

Este vírus aparecerá com variantes diferentes, mais ou menos social, mais ou menos “esfomeado”, mas teremos que viver com ele. Por tudo isso, e pelos resultados comprovados da vacinação que continua a ocorrer, talvez seja altura de começarmos a enfrentar a situação com outra atitude, maior segurança, mais racionalidade e especialmente com menos carga emotiva. E a encarar a sua presença como mais uma experiência associada a este conturbado século XXI.

Sabemos que qualquer “dor” nos pode levar a crescer e a ser mais resistentes. Pessoalmente, e restringindo-me apenas à minha sintomatologia, sei que esta experiência me levará a relativizar qualquer outra dorzinha de garganta que tenha futuramente. É pouco…quase nada…mas é uma pequena aprendizagem!

Amanhã sairei do isolamento e a vida continua. Entretanto “sr. bicho”….espero que não nos encontremos nos próximos tempos pois, apesar de não ter sido nada de grave, realmente não foi um prazer conhecê-lo!

(Versão do “intruso” desenhada por Dulce Delgado)