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Dooois? Onde estás?

– Quem me chama?

– Eu, o Seis. Anda aqui!

…?

– Senta-te aqui a meu lado!

O Dois senta-se pouco convicto à direita do Seis. Este último sorri e diz:

– Chegou a tua vez de ficar aqui deste lado. O Um foi ontem embora e tu és o seguinte. Não posso ficar sozinho, preciso de me encostar a ti durante um ano…

– E eu tenho que ficar quietinho?

– Sim. Podes espernear mas não sair…

Sentado mas inseguro, o Dois está surpreso e sente-se estranho. Fica silencioso, reflecte, medita… e momentos depois mais consciente da situação diz:

– Ok, se chegou a altura de eu ficar um ano a teu lado e ambos um ano na vida da Dulce, então devemos cumprir o melhor possível essa missão. Já estivemos juntos há muito tempo, quando eu estava no outro lado… éramos mais novos….e tínhamos todos outra energia. Agora, com um pouco mais de experiência tudo devemos fazer para tornar os próximos 365 dias de vida da nossa amiga saudáveis, criativos, afectivos, atentos, de partilha e tranquilos, apesar de se vislumbrar um ano de fortes emoções já que será avó pela primeira vez e está muito feliz com isso. Temos que tentar que tudo corra bem!

– Vamos a isso, diz o Seis! Sejamos então uns simpáticos Sessenta e Dois!

 
Discretamente e com muito carinho, agradeço a intenção do 6 e do 2…dos 62…e desejo com esperança, emoção e do fundo do coração que tais palavras se concretizem e sejam uma realidade!

 

 

(Dulce Delgado, 7 Maio 2020)

 

 

 

 

 

um olhar criativo

 

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A criatividade é algo que é de todos, apenas mais activa em alguns porque lhe deram atenção e um lugar mais ousado na sua vida. Permitiram-se olhar com outro olhar e não apenas ver, experimentar mesmo sem acreditar, dar lugar ao pulsar e explorar o potencial mesmo sem o conhecer.

É assim que eu vejo a criatividade. E neste Dia Mundial da Criatividade e da Inovação vou contar-lhes uma história, pessoal porque foi por mim vivida e, no meu entender, a melhor forma que encontro para justificar o meu conceito de criatividade.

As histórias pessoais valem o que valem. São detalhes nesta imensidão. Mas podem despoletar algo que leve os outros a pensar e a olhar o que os rodeia de uma outra forma…e com outro olhar!

Aqui vai…

 

Vem de longe a atracção que sinto por pedras e por outros elementos naturais deste planeta que habitamos. Aprecio as suas formas, expressividade, texturas e faces de clivagem, gosto que vem da infância e dos passeios pelos areais algarvios em que cresci e onde adorava observar/apanhar pedras, conchas ou outros materiais trazidos pelo mar.

Passaram muitos anos…

Em meados da década de noventa, na primeira visita que fiz à Pedreira do Galinha, área localizada na região de Ourém/Torres Novas e detentora de longos trilhos de dinossauros, o meu olhar foi atraído por uma pedra de calcário solta que estava no chão. Apanhei-a, olhei-a de um lado, depois do outro, tendo de imediato a sensação que não era uma pedra qualquer e que tinha algo para me dizer. Senti-lhe um enorme potencial, conseguisse eu percebê-lo devidamente.
Foi para a mochila e, a partir daquele instante, mais importante do que todos os dinossauros que por ali passaram, a minha atenção ficou orientada para as pedras que ia encontrando. A mochila veio carregada, mas ainda sem saber para que serviria aquele pesado “tesouro” que trazia às costas.

Dias depois, decidi olhar calmamente e de vários ângulos para a primeira pedra que tinha apanhado. Uma luz rasante ajudou-me a perceber a volumetria, a textura e a “ver” uma imagem em latência que apenas precisava de ser “reavivada”. Foi o que fiz em seguida recorrendo a um fino pincel, a tinta-da-china preta e a toda a paciência que me caracteriza. Para lhe dar alguma verticalidade e valorizar a representação, adaptei-lhe outra pedra mais pequena, que cumpriu com rigor essa missão.

O resultado foi a pedra pintada que dá início a este post e que ainda hoje guardo com todo o carinho. Dizem que não há amor como o primeiro, pelo que esta pedra adquiriu esse estatuto entre todas as que se seguiram, sejam as recolhidas nesse passeio ou, posteriormente, em incursões “clandestinas” a pedreiras calcárias daquela região, uma vez que não encontrei outras com características semelhantes.

Pintei mais de uma centena de pedras com temáticas variadas, situadas entre o real e o puramente abstracto/imaginário, mas sempre aproveitando os relevos e a textura própria do calcário. Foi uma fase louca e de uma criatividade diferente daquela que eu conhecia. O desafio nascia do olhar e da capacidade de “comunicar” com cada pedra. Era algo orgânico, de “corpo para corpo” e uma espécie de jogo de afectos e empatia. Ou sentia, ou não sentia. E houve pedras que não entendi, pelo que foram devolvidas à natureza.

Muitas delas foram oferecidas a amigos e outras tantas vendidas. Pela minúcia do trabalho, começou a ser fisicamente desgastante, pelo que deixei de o fazer há alguns anos. Hoje guardo as fotografias de todas e reservo algumas como legado, incluindo esta primeira. E fico extremamente feliz quando reencontro alguma em casa de amigos ou familiares.

Foi uma fase da vida que passou, de um modo tão natural como surgiu. Já o gosto pelas formas da natureza continua bem enraizado e será sempre foco da minha atenção. Quem sabe, talvez um outro olhar me leve ainda a uma nova aventura criativa!

Termino com a imagem de outras pedras que continuam a viver comigo, porque nelas encontro um simbolismo muito especial.

 

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(Dulce Delgado, 21 Abril 2020, Dia Mundial da Criatividade e Inovação)

 

 

 

 

 

 

experimentações #7

 

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Vivia um tempo em que as emoções me tocavam de uma forma muito nova, sendo igualmente nova a tentativa de tentar compreender a nossa existência, escolhas, caminho e evolução por uma via mais espiritualista e esotérica.

Leituras, conversas e amizades estavam muito associadas a essa via, que também acabou por ser temática de muitos desenhos então elaborados.

 

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(Dulce Delgado, lápis sobre papel, 1977)

 

 

 

 

uma páscoa diferente

 

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Este ano de 2020, em tudo incomum, será para muitos de nós o primeiro em que estes dias festivos serão passados sem a presença da família. No meu caso seremos apenas dois, eu e o meu companheiro, dois seres que há três semanas estão em isolamento social mas tentando aproveitar ao máximo as possibilidades caseiras desta situação.

Bem, seremos dois…. e um computador! A tecnologia permitirá fazer um almoço de Páscoa em família, sonoro e visualmente partilhado entre todos. Cinco mesas estarão temporariamente unidas, sem troca de paladares, mas com troca de afectos e de boa disposição.

Não haverá abraços calorosos e ainda não será o tempo de dizer ao vivo o tão desejado “olá Vasquinho” ao futuro neto que se desenvolve no ventre da minha filha. E que eu tenho tanta, mas tanta vontade de estar perto! Não haverá contacto físico entre a família, mas haverá o abraço virtual possível.

Sendo a Vida um acumular de experiências, a actual situação será uma das mais estranhas que vivemos e ficará para sempre gravada nas nossas memórias e afectos. Apesar do lado difícil registemos a sua singularidade…mas com a forte esperança que não se repita.

Voltando à Páscoa…

…a etimologia desta palavra é incerta, mas parece que deriva da ebraica pasach que significa passagem, talvez o termo perfeito para encararmos a situação actual e estes dias festivos em confinamento.

…sabendo que todas as passagens… passam… e levam a algo, esta também nos levará a um outro tempo e olhar, sendo este período de isolamento um mal necessário para essa travessia.

…contudo, se eu/nós e todos os que nos são queridos estiverem bem, activos e saudáveis…não será isso realmente o mais importante nesta dias? Eu creio que sim, especialmente quando são tantos os que já não podem dizer o mesmo.

 

Sendo uma Páscoa diferente… que seja a melhor possível!

 

 

 

 

pequenas emoções

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O hábito de comer diariamente um kiwi já se tornou uma rotina na minha vida. Faço-o não por gostar muito do paladar, mas pelo seu grande teor em vitaminas. Aliás, já escrevi sobre este fruto num post publicado em Maio de 2018, em que me debrucei essencialmente sobre a sua estrutura e beleza.

Ontem fui surpreendida por um detalhe delicioso no decorrer da tal rotina, pois o kiwi guardava no interior um coração muito bem delineado.

Este coração não batia… mas o meu bateu! E emocionei-me…

…pelo inesperado

…pelo facto de estar atenta durante este gesto tantas vezes repetido

…porque nestes tempos estranhos, de imagens dolorosas e envoltos em pensamentos complexos encontrei um detalhe especial e tão diferente 

…pelo valor simbólico de um coração

…e por ele sempre representar acção, movimento e Vida, ou seja, aquilo que tanto ansiamos!

 

Um exagero sentimental lamechas? Talvez sim… ou talvez não!

Porque não – e simplesmente – o facto de actualmente estarmos sempre em estado de alerta, extremamente reactivos e com as emoções e sensibilidade à flor da pele? E nesse estado… qualquer coisa diferente se tornar num acontecimento emocionante?

Depois de o fotografar…saboreei-o agradecida e com ternura!

 

 

 

experimentações #6

 

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Num tempo de imensas descobertas, a natureza no geral e a Serra de Sintra em particular tiveram um grande impacto no meu percurso de vida,  assim como a integração/socialização num grupo de pessoas com objectivos e filosofia comuns.

Foi um tempo de exploração e expansão, de grande envolvimento, de muitas emoções e partilha, mas também de tentar perceber o meu lugar neste mundo.

A lápis/grafite fui desenhando essas experiências e esse entendimento/crescimento. Hoje, quando olho para alguns desses desenhos… sorrio…e sinto uma enorme ternura!

 

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(Dulce Delgado, lápis sobre papel, Dezembro 1977)

 

 

 

pela primavera

 

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Manifesta-se com elegância a energia da Primavera, seja no alongar das horas de luz dos nossos dias, seja no aparecimento de temperaturas mais amenas nas emoções da nossa pele… e sempre, sempre no imenso acordar da natureza que está a acontecer em nosso redor.

Neste momento das nossas vidas e dadas as circunstâncias de retenção e de isolamento social em que estamos…

…não tenho um prado com flores para deleitar o olhar, mas tenho a florescência de algumas plantas de interior que aqui e ali dão cor a minha casa;

…posso não ter o aroma da terra, mas tenho o aroma intenso de um manjericão;

…não tenho a liberdade de ir passear e de proporcionar ao corpo e aos sentidos a vital energia deste início de estação, mas tenho o privilégio de ter uma casa com boa vista, muita luz e muita natureza no seu interior;

Apesar de confinada a algumas paredes e com o corpo e a mente claramente centrados num receio/medo que se pegou à nossa pele e ao nosso pensamento, eu tenho quase tudo. Em meu redor acontece o desenrolar silencioso da nova estação, os novos rebentos que brotam, as folhas em busca de um espaço próprio ou as flores revelando o seu potencial de forma e cor. 

É essa Primavera que hoje quero partilhar convosco.

 

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A viver numa varanda fechada (apesar de ser uma planta de exterior), a minha buganvília está cheia de flores e de rebentos neste início de Primavera, como revelam as primeiras três imagens. Tenho por ela um carinho muito especial uma vez que me foi oferecida após a publicação do texto que marcou o início deste blog e onde mencionei a empatia que sinto por esta espécie vegetal.

 

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Também o azevinho, outra planta de exterior a viver no interior, acompanha a vitalidade da buganvília e a sua energia expansiva. As pequenas flores brancas estão a dar lugar aos frutos, que um dia serão vermelhos.

 

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Todas as violetas estão felizes, cheias de botões e de vontade de partilhar as suas flores!

 

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Se as flores das begónias espalham o seu tom rosado, já o clorófito oferece a singeleza das suas pequenas flores brancas pontuadas pelo amarelo da antera dos estames.

 

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Contrariamente à planta-melancia, cujas flores são tão minúsculas que quase não se vêem, as orquídeas têm vaidade no tamanho das florescências, agora ainda em botão.

 

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Os fetos e as avencas não apresentam flores, mas são imensas as folhas que neles desabrocham…

 

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…assim como no Lírio da Paz ou no Scindapsus, acontecendo o mesmo em várias outras espécies.

 

Termino com o cheiroso mangericão porque ele, como sucede na maioria das aromáticas, é uma planta “sociável” e que sempre dá algo em troca. Na vossa imaginação deixo o seu  aroma e na fotografia a evidente vontade de multiplicação das suas folhas.

 

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Nestes tempos loucos que estamos a viver precisamos, mais do que nunca, de ser um pouco como os mangericões: sermos troca, sermos dar e receber. Como?

Procurando a beleza que continua viva perto de nós e cheia de vontade do nosso olhar. Procurando os detalhes positivos, porque eles são alimento. Procurando descobrir os pequenos prazeres que podem ser gratificantes e gerar uma boa energia. Procurando aqueles detalhes que podemos dar, receber e trocar mesmo à distância, sem toque, afagos ou abraços.

Precisamos muito…seja por nós, seja pelos outros.