entre margens

Somos pêndulos em movimento,
fixos à vida
completos entre dois polos.

Por vezes…
somos dúvida
incapacidade
insegurança
dor,

e noutros momentos …
força
certeza
ternura
amor!

Será esta dualidade
a nossa verdadeira realidade?

Como um rio…
…que flui naturalmente entre margens opostas?

(Dulce Delgado, poema antigo e não datado….mas sempre actual!)

diospiro surpresa

Gosto muito de diospiros de roer, mas não aprecio os de abrir. Nestes últimos nem sempre é fácil perceber o momento ideal em que devem ser consumidos, pelo que estamos sujeitos a sentir aquela desagradável sensação de adstringência que os seus muitos taninos provocam na nossa mucosa bucal quando o fruto não está suficientemente maduro.

Sendo um alimento muito rico em vitaminas A e C, e ainda em potássio, cálcio e fósforo, é excelente para consumir no Outono e no Inverno, época em que são comercializados. Por tudo isso sou uma forte adepta da espécie de roer e à qual dedico hoje este post.

Visualmente é um fruto alegre, de bela cor e que nos oferece de presente uma espécie de flor quando cortado a meio, forma que é mais evidente e perfeita se o diospiro está no grau certo de maturação. Normalmente essa “flor” tem oito pétalas, mais já as encontrei com um número diferente.

O mais curioso foi o ter descoberto há poucos dias, não sei se por estar mais atenta ou por ter feito um corte diferente do habitual…que o diospiro não guarda apenas uma flor…mas que guarda também uma aranha!

Como as demais aranhas, esta tinha igualmente quatro pares de patas ligadas a um corpo… e facilmente a visualizei a passear sobre a mesa… e pelos meandros desta imaginação! Acrescente-se, para melhor compreensão, que aprecio aranhas e que tudo faço para as salvar quando decidem ocupar o meu território.

No dia seguinte abri este diospiro. Encontrei a flor…cumprimentei a aranha…captei estas imagens….e depois saboreei-o tranquilamente e com o prazer de sempre.

Gosto imenso destas surpresas que a natureza esconde!

a sul

Sempre que possível, eu e o meu companheiro tentamos fazer umas mini-férias antes do final de cada ano, seja como agradecimento por termos chegado até ali, seja desejando que o novo ano se revele um tempo de bons momentos, de olhares amplos e de possibilidades em aberto.

No final de 2020, devido à pandemia e às restrições de circulação previstas, tivemos apenas três dias para esse respirar, sendo o sul de Portugal a região escolhida. No plano, apenas lugares “fora da civilização” e que nos permitissem estar tranquilamente sem máscara e sem pensar no distanciamento físico, algo que se tornou uma preocupação permanente no ultimo ano. Ou seja, lugares longe de pessoas! Também a escolha de um pequeno apartamento nos permitiu não ter que ir para locais mais frequentados e, sem preocupações, usufruir das refeições já confecionadas que levamos.

As nossas explorações centraram-se em áreas de salinas e sapal localizadas entre a Fuseta e Tavira, lugares amplos, de olhar vasto e propícios à observação de aves. Este é um gosto que ambos partilhamos, o meu companheiro com mais técnica e profissionalismo, e eu de uma forma muito mais amadora, versátil e abrangente, encarando as aves como parte de uma natureza imensa e que sempre me encanta.

As imagens que se seguem revelam um pouco da paisagem que nos envolveu e, sobretudo, a beleza que os nossos olhos respiraram nesse hiato de liberdade e de pura natureza.

Termino com uma foto de várias Pegas-rabudas (Pica pica) pousadas ao amanhecer no topo de uma árvore. Quando as vi, instintivamente transportei esta imagem para a situação de grande instabilidade e insegurança que todos vivenciamos e pensei…como seria bom que nos conseguíssemos equilibrar – individualmente e como sociedade – desta forma tão tranquila e harmoniosa!

importante

Em véspera de um novo período de confinamento decretado para o meu país em virtude da pandemia e que também me irá abranger, sei que por algum tempo não passarei por este lugar de todos os dias e por estes belíssimos olhares que Lisboa me oferece.

No meu íntimo e perante esta imagem, para além de agradecer mais uma vez esta dádiva matinal, desejei sobretudo que a energia emanada por este tranquilo nascer do dia se reflicta na consciência deste país, seja alimentando a esperança que nos habita, seja na lucidez e na atitude responsável com que devemos cumprir rigorosamente o que nos é pedido a partir de amanhã.

E temos a obrigação de o fazer em prol de uma sociedade que neste momento tem recursos a atingir o limite e muita gente afectada pelo cansaço, pelo sofrimento e pelo desgaste emocional provocado por toda esta situação. Sem esquecer obviamente as graves dificuldades económicas que já atingem uma boa parte da população.

Por tudo isso e pelo todo que formamos como país, façamos o nosso melhor.

experimentações #17

E as experiências continuaram orientadas pelo acaso, seja dos materiais seja dos gestos. Muita coisa foi parar ao lixo porque passava aquele ponto chamado “possibilidade” e virava borrão. Digamos que sabia quando isso acontecia…mas não sabia minimamente o que procurava.

Hoje, ao olhar para a maioria destes desenhos encontro pontos comuns entre eles. Encontro a vontade de “guardar algo” versus a vontade de dar/partilhar… encontro um desejo de exteriorização que se manifesta por vezes de uma forma um tanto explosiva…e encontro sempre um lado mais luminoso que contrasta com outro mais sombrio. Como sempre acontece na vida, aliás.

Ao elaborar este post e com um pouco de imaginação, achei muito engraçado o facto de percepcionar no canto inferior direito do último desenho duas figuras semi-ajoelhadas e com as mãos no chão… à semelhança de dois atletas que esperam o tiro de saída numa qualquer pista de atletismo para uma suposta corrida.

Uma espera que levou trinta e três anos a chegar ao meu olhar!

(Dulce Delgado, aguarela e tinta da China sobre papel, 1988)

limites

Portugal tirita de frio nestes primeiros dias de Janeiro e assim continuará na próximos dias. Ontem, na região de Lisboa as temperaturas variaram entre os 2 e os 9 graus Celcius, valores que o vento tornava ainda mais desagradáveis.

De regresso a casa, um céu intenso de fim de dia pedia uma fotografia, registo que aconteceu no lado oriental da Praia do Dafundo, localizada entre Algés e a Cruz Quebrada. Muito bem agasalhada mas apesar disso sentindo algum desconforto apreciei o momento com aquela boa sensação de sexta-feira à tarde e de véspera de fim-de-semana.

Deambulava o olhar por ali, quando de repente tive a maior surpresa do dia tendo em conta a temperatura que se fazia sentir: alguém tomava banho na praia!

Um arrepio percorreu o meu corpo enquanto a curiosidade fotográfica não resistiu a captar o que via, apesar da distância a que me encontrava.

Saindo da água estava uma senhora revelando uma enorme segurança corporal e confiança de gestos. A harmonia entre os tons do fato de banho e os sapatos era evidente, detalhe que achei maravilhoso dado o contexto. Depois, já no areal, limpou-se com a toalha e vestiu-se, seguindo depois caminho ao lado de um companheiro, esse sim vestido mais de acordo com o dia.

Entretanto, uma gaivota solitária continuava a vaguear à beira-mar….

E eu regressei ao carro e ao conforto de casa, envolta em vários pensamentos…

…a postura de segurança e confiança demonstrada por aquela mulher só poderia resultar de um gesto já conhecido e talvez habitual, sendo provavelmente uma daquelas pessoas que tomam banho de mar durante todo o ano, seja qual for a temperatura…

…tudo é relativo nesta vida. O que para mim e para uma grande maioria seria simplesmente inconcebível, para outros pode ser perfeitamente normal…

…se fosse um jovem a estar ali, talvez eu não ficasse tão surpresa com o facto. A surpresa maior foi o perceber que a idade daquela senhora não estaria muito longe da minha…

….e que eu nunca estaria ali!

…contudo, senti uma profunda admiração por aquela mulher, seja pela segurança e coragem demonstrada, seja por fazer uma escolha tão fora dos meus limites e da ideia que eu tenho de prazer para um dia muito frio de Inverno…

…e ainda por reforçar de uma forma muito objectiva aquela ideia que os “limites” devem ser uma fronteira ténue e suficientemente permeável aos limites, necessidades e opções das partes envolvidas. Na verdade, não há razão para o contrário desde que haja respeito, tolerância e aceitação mútua.

Já em casa, bebi um chá bem quente para aquecer o desconforto do dia. E pensei…estará ela fazer o mesmo para aquecer? Apreciará este gesto?

recomeço…

Depois de um pequeno período de férias e de rotinas mais simpáticas, hoje foi dia de levantar cedo, voltar ao trabalho e aos gestos mais iguais. Pela frente temos Janeiro, talvez o mês mais difícil do ano, porque é longo… não tem feriados…e geralmente é o mais frio de todos. Aliás, Portugal está a sentir na pele a frente fria que paira sobre ele.

Apesar disso… soube bem parar o carro, aconchegar a roupa ao corpo, sair para o frio exterior e registar o começo deste quarto dia do mês de Janeiro de 2021. E agradecer o facto da vida me proporcionar esta bela rotina matinal!

Tiradas as fotos, foi tempo de respirar fundo… voltar ao carro e seguir para o emprego. Assim como este avião seguia para o seu destino.

Desejo-vos um dia com detalhes felizes!

2021

Nesta aventura de viver e de acompanhar a passagem do tempo chegamos ao desejado 2021, depois de um inesquecível, turbulento e esperemos que irrepetível 2020. Para muitos de nós, este primeiro dia do ano é o momento de olhar para uma nova agenda… de substituir o calendário na secretária ou na parede…e de encararmos estes novíssimos 365 dias como um “tempo limpo, aberto e disponível”.

O que lhe pedir?

Que seja saudável, íntegro, transparente e equilibrado
Que se revele um tempo gerador/guardador de mentalidades mais iluminadas, solidárias e menos egoístas
Que seja um período de paz, de união e sempre de cooperação

O que lhe podemos oferecer?

Empenho e verdade
Equilíbrio
A nossa curiosidade e espírito de descoberta
Atenção, cooperação, respeito e solidariedade
Gratidão
Genuína alegria

Fazendo uma analogia com o desenho acima, diria que a taça é o tempo “limpo, aberto e disponível” do novo ano, cabendo a cada um de nós proceder ao seu “enchimento” da forma mais adequada e de acordo com os objetivos e princípios que nos orientam.

Mas seja qual for o modo de o fazermos, não esqueçamos de acrescentar aquela irreverência saudável que a vida nos merece, de manter a curiosidade e um certo espírito de aventura, e ainda, de temperar tudo isso com uma genuína alegria. Enfim, não esqueçamos o nosso lado mais infantil e travesso…como esta dupla de coelhinhos sempre me recorda e insiste em mostrar.

Depois de um ano tão denso e sério, desejo a todos vós um 2021 progressivamente mais leve, solto e liberto!