trinta anos

 

 

Comemoram-se na próxima quarta-feira, 23 de Fevereiro, os trinta anos do falecimento de José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, mais conhecido por José Afonso (1929-1987), sendo vários os eventos e concertos previstos no decorrer deste ano.

Muitas palavras serão ditas e escritas por pessoas bem mais avalizadas do que eu sobre a importância deste cantautor, nomeadamente pela forma como utilizou a música e as palavras na luta contra um regime que impedia o pleno uso da liberdade e a melhoria das condições de vida do povo deste país. Foi certamente um dos artistas que melhor transmitiu, até ao 25 de Abril de 1974, o que muitos pensavam e sentiam, mas não eram capazes de o dizer.

Porque aprecio o seu trabalho, não posso deixar de o relembrar neste meu espaço. E faço-o, partilhando uma das canções mais emblemáticas do seu percurso, o tema Menino do bairro negro, que integra o álbum “Baladas de Coimbra” editado em 1963. Foi criado após uma ida do cantor ao Porto, viagem que o impressionou pelas imagens que viu nas zonas mais degradadas e pobres da cidade. É a essa negritude que o poema se refere.

As palavras são simples mas intensas. A música e a voz de José Afonso lindíssimas. Por tudo isso, sinto que partilhar este tema é partilhar também um pouco do passado do nosso país, de uma geração que lutou pela liberdade, que fez história e que permitiu que hoje possamos livremente escolher o nosso caminho.

 

oceano

 

oceano-pacifico

 

Imenso,
suave
e soberano,
estende-se o olhar
pela planura do oceano.

Puro engano!

O oceano
não é plano
nem linear,
mas um amplo e vasto monte
formado de mil horizontes
unidos por longas pontes
nascidas do nosso olhar!

 

(Dulce Delgado, Fevereiro 2017)

 

 

Imagem retirada de http://www.techenet.com/2014/02/ventos-sobre-o-oceano-pacifico-podem-ter-travado-o-aquecimento-global/

 

rádio

 

IMG_3193

 

Em tempo de internet com e sem fios, de plataformas digitais com tecnologias de última geração, de transmissões por cabo, satélite e de tantas outras inovações… vou dedicar este post à rádio, no dia que lhe é dedicado em todo o mundo.

Este meio de difusão leva-me a algumas memórias emocionais, todas associadas a um aparelho de rádio Nordmende, que ainda guardo e ouço com muita ternura. No início dos anos sessenta, teria eu quatro ou cinco anos de idade, não havia televisão em casa mas havia esse rádio que tocava todo o dia e nos colocava em contacto com o mundo. Nele se ouvia música, notícias, reportagens e as célebres radionovelas. Nessa época, este aparelho estava colocado a uma certa altura e longe do meu alcance, sentindo-o como algo estranho e que não entendia.

Uma mudança de residência aos seis anos, colocou-o num lugar de fácil acesso. Finalmente podia vê-lo de perto e mexer-lhe nos botões. Um deles fazia movimentar um cursor de sintonização e o outro regulava o volume. À esquerda, uma misteriosa coluna verde e preta (que eu julgava ser um olho que nos via …), diminuía ou aumentava de tamanho consoante o som era melhor ou pior. Tinha ainda muitas teclas mas isso era secundário, porque o que me cativava era o seu mistério. Na verdade, adorava aproximar-me para ouvir o som que dele saía e, especialmente, de espreitar para dentro da zona iluminada do visor. E então pensar que só poderiam ser pessoas muito pequeninas que estavam lá dentro a fazer aqueles sons, ou seja, a falar, a cantar e a tocar música. Mas onde estariam, se eu só conseguia ver umas coisas em vidro e uns fios? Só poderiam ser muito pequeninos e estar bem escondidos….

Santa ingenuidade a minha!

Não sei durante quanto tempo vivi nesse mundo liliputiano, mas esses pensamentos foram tão marcantes que quase consigo senti-los tantas décadas depois.

No final dos anos sessenta esse rádio foi “destronado” com a compra de uma televisão. Entretanto muitos anos passaram e eu fiquei com ele, tratando-o com toda a  estima. Hoje, o seu cursor aprecia especialmente as frequências da Smooth FM e da Antena 1, mas recordo com emoção as muitas noites que com ele naveguei por imensos Oceanos Pacíficos, programa que muito apreciava na RFM e que actualmente só existe em versão online.

Neste início do século XXI, não consigo imaginar os meus dias sem a companhia de um rádio. Porque me actualiza, distraí, ensina e faz rir!

 

 

nolwenn leroy

 

Um dos pioneiros do uso da música com fins terapêuticos foi o Professor Alfred Tomatis (França, 1920-2001), que utilizava gravações de Mozart e de canto gregoriano com doentes possuidores de perturbações de vária ordem, pois considerava que determinados timbres e sons favoreciam a harmonização das suas funções orgânicas. Sempre que possível, também recorria à voz materna dos pacientes nos seus actos terapêuticos. A sua técnica de tratamento ficou conhecida por APP (Audio-Psyco-Phonology).

Após a sua morte, seguidores do Método Tomatis descobriram que a sonoridade vocal da cantora bretã Nolwenn Leroy (que ganhou um concurso televisivo em 2002), tinha efeitos terapêuticos superiores aos da música de Mozart. O pioneiro dessa teoria é o neurocirurgião canadiano Dr. Frederick R. Carrick, especialista em situações de coma e lesões cerebrais. Vários médicos aliaram os tratamentos médicos com a voz desta cantora e os resultados foram surpreendentes, inclusivamente em doentes oriundos de vários países e que não conheciam nem as canções nem a língua. Será pois o seu timbre que fará a diferença.

Sabemos que a voz, assim como tudo o que nos envolve, é vibração e energia. Partindo desse princípio e ainda que os nossos sentidos e a nossa percepção são limitados, podemos aceitar a possibilidade de sermos estimulados por determinadas formas vibratórias de que não temos consciência.

Como é natural, este tipo de matéria tem defensores e acusadores. De uma forma geral, a medicina é bastante fechada quando se depara com terapias menos usuais, porque são muitos os interesses instalados que as rejeitam. Contudo, muito lentamente uma “brisa de mudança” vai surgindo na sociedade e, com ela, alguma abertura no reconhecimento de métodos terapêuticos alternativos. Este será um deles.

Abstraindo essas polémicas, este assunto não deixa de ser interessante. Por isso, gosto de pensar que estou a partilhar boas vibrações com os meus leitores, ao deixar aqui os dois temas de Nolwenn Leroy mais utilizados nessas experiências e que se intitulam 14 de février e Suivre une étoile.

 

 

 

 

purificar

 

dscf9751a

 

Entre o nascer e o partir
absorvemos a vida,
como esponjas de um tempo
saboreado,
sofrido,
mas sempre vivido.

Por vezes
sentimos
que não há espaço para mais,
apetecendo depurar o corpo
purificar a alma,
retirar o que não interessa
e guardar
apenas a essência.

Então,
limpos por dentro e por fora,
voltaríamos a nascer para a vida
e para o mundo,
vivendo o aqui
e o agora,
em cada segundo
em cada minuto
e em cada hora!

 

(Dulce Delgado, Fevereiro 2017)

 

zeus

 

573375

 

O apelo à liberdade e ao despojamento já foi certamente sentido por muitos de nós. Mas não o seguimos, prevalecendo o medo do desconhecido, a insegurança da situação, a família e, principalmente, o facto desse apelo não ter sido suficientemente forte para nos fazer mudar. E ficamos, adaptamo-nos, esquecemos e, apesar de tudo, conseguimos ser felizes assim.

Outros porém seguem-no e ele transforma-se em escolha. Deixam tudo para trás, até a família, e seguem o seu caminho, tendo como único objectivo o respirar a liberdade, fazer o que lhes apetece, dar asas aos desejos e à sua criatividade, aproveitando cada momento e bebendo a vida em toda a sua grandeza.

Foi isso que fez o sétimo presidente da República Portuguesa, Manuel Teixeira Gomes, um homem culto e de grande personalidade. Vivia-se em Portugal uma época de grande perturbação política, em que os jogos e interesses minavam a sociedade portuguesa e os ideais de direita iam criando fortes raízes. Em simultâneo, a moral tinham muita força numa sociedade preconceituosa e sustentada por valores católicos nem sempre bem aplicados. Crítico de todos esses valores, decidiu que não queria compactuar com eles nem com a mesquinhez vigente. Apesar de republicano convicto, deixou para trás a posição social, o estatuto, a família e duas filhas, os bens materiais que juntara como coleccionador de arte e seguiu esse apelo, tendo como principal objectivo ser livre, escrever e gozar os prazeres da vida. A sensualidade tinha muita força na sua natureza, o que o levou a escrever livros com uma componente erótica marcada, completamente vanguardistas para a época e que chegaram a ser utilizados contra si durante a sua presidência.

Assim, foi neste contexto que no final de 1925 decidiu pedir a demissão do cargo de presidente, optando pelo auto-exílio. Apanhou o primeiro cargueiro que passou no porto de Lisboa, o “Zeus”, e nele seguiu para a Argélia fixando-se em Bougie, país onde permaneceu até falecer em 1941, mantendo durante muito tempo o anonimato. Eram as cartas que o ligavam ao mundo, à família, aos amigos, sendo igualmente a forma que utilizou para gerir os bens que deixou em Portugal. Foi ajudado e servido durante muitos anos por um argelino, a sua grande companhia, que tratou quase como um filho e que foi um fiel amigo até ao último momento.

É baseado nesta biografia que o realizador Paulo Filipe Monteiro construiu o filme “Zeus”, muito bem interpretado pelo actor Sinde Filipe. Complementa-o uma bonita banda sonora que acompanha eficazmente as suas dinâmicas, os silêncios e as paisagens que integra. O filme possui algumas sequências menos conseguidas, mas tal não lhe tira o interesse.

Porém, mais do que o filme em si, o que me fascinou e me levou a escrever este post, é a personalidade de Manuel Teixeira Gomes e tudo o que ela representa. Assumindo a minha ignorância em História e Humanidades, resta-me dizer que conhecê-lo foi uma bela surpresa porque apreciei imenso….

…a sua energia, a profunda alegria de viver e como saboreava e respirava os seus dias
…o prazer com que apreciava as suas rotinas
…o olhar atento para os que o rodeavam
…a sua impulsiva necessidade de escrever
e a forma genuína de saudar a vida através de inspirações conscientes e a que associava movimentos com os braços, num ritual muito próprio e tão natural para ele como estranho para os outros.

Mas, o que mais apreciei, foi ele ser capaz de aos 65 anos e no contexto da época em que vivia, olhar para dentro de si e aceitar a sua natureza. E segui-la, simplesmente porque percebeu que isso era mais importante que tudo o que já tinha conseguido e construído na vida, inclusivamente os laços afectivos.

Difícil de entender….mas uma visão fascinante!

 

 

– Nesta data,o filme “Zeus” apenas está em exibição numa sala de Lisboa. Agradeço a quem me alertou para a sua existência!

 

(Imagem inicial retirada de http://cinecartaz.publico.pt/Filme/367073_zeus)

 

 

misterioso sol

 

No primeiro dia de Fevereiro de 1905, faz hoje 112 anos, nasceu a minha avó materna. Deram-lhe o nome de Adelina.

Poderia dizer mil coisas sobre ela, sobre a sua vida ou sobre a relação que tivemos, mas por respeito, sinto que devo manter isso na esfera privada.

Contudo, alguns anos antes de falecer, contou-me um episódio da sua infância, uma história sobre o seu sentir, muito simples, mas reveladora da ingenuidade e da forma de estar de uma criança que vivia num monte algarvio no início do século XX.

Agarrei nele e fiz este poema que hoje partilho e ao qual dei o nome de Misterioso sol.

Estou certa que a minha avó, que também escrevia poesia, não se importaria de ver a sua vivência escrita desta forma pela neta. E para mim, é uma pequena homenagem a alguém que muito admirava.

 

Nasceu a sul este poema.
E viveu no imaginar
de uma criança de outro tempo,
que perto da sua casa
gostava de se sentar,
de sonhar com o mar que não conhecia,
de ver o horizonte
e o céu azul,
ou o sol a nascer
e o dia a desaparecer.

A casa
onde morava
olhava os montes,
suaves e ondulantes,
que encantavam
a menina
naquele lugar onde vivia.

Ao lado da porta
havia uma pedra,
a sua pedra,
o lugar onde se sentava
para descansar,
olhar
muito pensar
tudo imaginar
e sempre divagar…

…sobre o sol…

…que mistério o levaria
a num lado se esconder
e no outro a aparecer?
Por onde andaria
nesse tempo de escuridão
até de novo ser dia
e o voltarmos a rever?

Cansada de tanto pensar
e na esperança
de entender,
teve um dia uma lembrança
e a certeza,
de finalmente descobrir
aquele grande mistério
que sempre via acontecer.

Então,
acreditou profundamente
que depois do anoitecer,
o sol percorria
devagar
e escondidinho
para ninguém o ver,
aquele longo caminho
monte após monte,
até ao lugar
de novamente aparecer.

E aí,
ele voltava a espreitar,
o dia a brilhar
e o tempo a aquecer!

 

(Dulce Delgado, Fevereiro 2017)