experimentações #10

 

#10 - Julho78ab

 

#10 - Junho 78 ab

 

Continuei a busca por algo que eu não sabia bem o que era… e que foi expressa em muitos desenhos realizados por volta dos meus vinte anos, como mostram os dois exemplos acima.

Entretanto, acompanhava-me uma imaginação um tanto“pueril” e infantil que me levava a penetrar em mundos bastante mágicos e fora da realidade e dos dias…

 

#10 - Agosto 78ab

 

Como sempre acontece, apenas a idade e as experiências vividas nas décadas seguintes me ajudaram a chegar a algumas das respostas que então procurava…e ainda a perceber que a realidade e a imaginação têm muito pouco em comum.

 

 

(Dulce Delgado, lápis cor/grafite sobre papel, 1978)

 

 

 

 

 

experimentações #9

 

julho 78a

 

A cor foi alternando com o preto e branco, da mesma forma que em mim habitavam dois mundos em confronto: um  imaginário leve, etéreo, algo transcendente e infinitamente belo… e a realidade do mundo em que vivia, repleta de injustiça, egoísmo, sofrimento, pobreza e de uma violência absurda que me revoltava e que eu não entendia.

Mais do que a qualidade artística das formas ou da ingénua simplicidade do traço e da anatomia humana, creio que o mais interessante é a expressividade que, apesar disso, as  figuras conseguem transmitir

 

março 78 (2)a

 

(Dulce Delgado, tinta da China, aguarela e lápis sobre papel, 1978)

 

 

 

 

um olhar criativo

 

DSC_0290

 

A criatividade é algo que é de todos, apenas mais activa em alguns porque lhe deram atenção e um lugar mais ousado na sua vida. Permitiram-se olhar com outro olhar e não apenas ver, experimentar mesmo sem acreditar, dar lugar ao pulsar e explorar o potencial mesmo sem o conhecer.

É assim que eu vejo a criatividade. E neste Dia Mundial da Criatividade e da Inovação vou contar-lhes uma história, pessoal porque foi por mim vivida e, no meu entender, a melhor forma que encontro para justificar o meu conceito de criatividade.

As histórias pessoais valem o que valem. São detalhes nesta imensidão. Mas podem despoletar algo que leve os outros a pensar e a olhar o que os rodeia de uma outra forma…e com outro olhar!

Aqui vai…

 

Vem de longe a atracção que sinto por pedras e por outros elementos naturais deste planeta que habitamos. Aprecio as suas formas, expressividade, texturas e faces de clivagem, gosto que vem da infância e dos passeios pelos areais algarvios em que cresci e onde adorava observar/apanhar pedras, conchas ou outros materiais trazidos pelo mar.

Passaram muitos anos…

Em meados da década de noventa, na primeira visita que fiz à Pedreira do Galinha, área localizada na região de Ourém/Torres Novas e detentora de longos trilhos de dinossauros, o meu olhar foi atraído por uma pedra de calcário solta que estava no chão. Apanhei-a, olhei-a de um lado, depois do outro, tendo de imediato a sensação que não era uma pedra qualquer e que tinha algo para me dizer. Senti-lhe um enorme potencial, conseguisse eu percebê-lo devidamente.
Foi para a mochila e, a partir daquele instante, mais importante do que todos os dinossauros que por ali passaram, a minha atenção ficou orientada para as pedras que ia encontrando. A mochila veio carregada, mas ainda sem saber para que serviria aquele pesado “tesouro” que trazia às costas.

Dias depois, decidi olhar calmamente e de vários ângulos para a primeira pedra que tinha apanhado. Uma luz rasante ajudou-me a perceber a volumetria, a textura e a “ver” uma imagem em latência que apenas precisava de ser “reavivada”. Foi o que fiz em seguida recorrendo a um fino pincel, a tinta-da-china preta e a toda a paciência que me caracteriza. Para lhe dar alguma verticalidade e valorizar a representação, adaptei-lhe outra pedra mais pequena, que cumpriu com rigor essa missão.

O resultado foi a pedra pintada que dá início a este post e que ainda hoje guardo com todo o carinho. Dizem que não há amor como o primeiro, pelo que esta pedra adquiriu esse estatuto entre todas as que se seguiram, sejam as recolhidas nesse passeio ou, posteriormente, em incursões “clandestinas” a pedreiras calcárias daquela região, uma vez que não encontrei outras com características semelhantes.

Pintei mais de uma centena de pedras com temáticas variadas, situadas entre o real e o puramente abstracto/imaginário, mas sempre aproveitando os relevos e a textura própria do calcário. Foi uma fase louca e de uma criatividade diferente daquela que eu conhecia. O desafio nascia do olhar e da capacidade de “comunicar” com cada pedra. Era algo orgânico, de “corpo para corpo” e uma espécie de jogo de afectos e empatia. Ou sentia, ou não sentia. E houve pedras que não entendi, pelo que foram devolvidas à natureza.

Muitas delas foram oferecidas a amigos e outras tantas vendidas. Pela minúcia do trabalho, começou a ser fisicamente desgastante, pelo que deixei de o fazer há alguns anos. Hoje guardo as fotografias de todas e reservo algumas como legado, incluindo esta primeira. E fico extremamente feliz quando reencontro alguma em casa de amigos ou familiares.

Foi uma fase da vida que passou, de um modo tão natural como surgiu. Já o gosto pelas formas da natureza continua bem enraizado e será sempre foco da minha atenção. Quem sabe, talvez um outro olhar me leve ainda a uma nova aventura criativa!

Termino com a imagem de outras pedras que continuam a viver comigo, porque nelas encontro um simbolismo muito especial.

 

DSC_0337

 

DSC_0327

 

DSC_0326 a

DSC_0333a

(Dulce Delgado, 21 Abril 2020, Dia Mundial da Criatividade e Inovação)

 

 

 

 

 

 

experimentações #7

 

julho 77 mais leve b

 

Vivia um tempo em que as emoções me tocavam de uma forma muito nova, sendo igualmente nova a tentativa de tentar compreender a nossa existência, escolhas, caminho e evolução por uma via mais espiritualista e esotérica.

Leituras, conversas e amizades estavam muito associadas a essa via, que também acabou por ser temática de muitos desenhos então elaborados.

 

Abril 78 mais leve b

 

(Dulce Delgado, lápis sobre papel, 1977)

 

 

 

 

experimentações #6

 

#6 - dez 77 mais leve

 

Num tempo de imensas descobertas, a natureza no geral e a Serra de Sintra em particular tiveram um grande impacto no meu percurso de vida,  assim como a integração/socialização num grupo de pessoas com objectivos e filosofia comuns.

Foi um tempo de exploração e expansão, de grande envolvimento, de muitas emoções e partilha, mas também de tentar perceber o meu lugar neste mundo.

A lápis/grafite fui desenhando essas experiências e esse entendimento/crescimento. Hoje, quando olho para alguns desses desenhos… sorrio…e sinto uma enorme ternura!

 

#6 - dez 77 mais leve 2

 

(Dulce Delgado, lápis sobre papel, Dezembro 1977)

 

 

 

2020

 

IMG_0649a

 

E assim nasceu o primeiro dia do ano na região de Lisboa, envolto em neblinas e com nevoeiro sobre o rio Tejo. No céu, muitas linhas de aviões, de caminhos para novos lugares, de mudança, e sempre, sempre de esperança.

Que este novo tempo permita mais senso a este mundo do qual todos fazemos parte, e a nível individual a concretização dos desejos surgidos nos instantes que uniram o ultimo dia de 2019 ao primeiro de 2020. Agarremos essas sensações com energia, seja qual for o campo em que se manifestem… e continuemos este caminho, em paz e com saúde! Será esse certamente o maior desejo de todos nós.

Pessoalmente creio que não pensei muito e limitei-me a apreciar o momento, partilhado com alegria sob um belíssimo fogo de artifício. Afinal já cheguei a 2020! Se quando era jovem o ano 2000 era algo bem longínquo, esta data é um marco. Como será no futuro cada ano e cada década que a vida saudavelmente me queira oferecer!

Contudo, os pensamentos mais organizados e de balanço surgidos nos últimos dias aliam-se agora à vontade de fazer pequenas mudanças, nomeadamente num contexto mais criativo, campo onde se insere este blog.

O que será diferente?

A ideia de iniciar cada publicação com uma fotografia ou desenho da minha autoria como sucedeu na maioria dos 460 posts já editados será mantida. Mas pretendo igualmente mostrar essas formas de expressão individualmente, com pouco ou nenhum texto de acompanhamento.

Esta decisão resulta da constatação de que tenho muitas imagens que aprecio (algumas já publicadas no Instagram), assim como desenhos, aguarelas, registos de viagens e colagens que os anos viram nascer. Ao publicar esse material terei mais alguma disponibilidade para voltar a treinar a mão e o olhar de uma forma mais consistente, algo a que a existência deste blog e o acompanhamento de outras páginas veio tirar muito tempo. Mas que para mim é tão importante como continuar com este espaço.

Na prática significa apenas partilhar um pouco mais do passado para ter mais tempo para crescer e construir o futuro. Criativamente falando, obviamente!

Assim, para além da tipologia de publicações já vossa conhecida, surgirão neste Discretamente as séries

.  instantes #1…. #2….#3…, com fotografias

. experimentações #1…. #2….#3…., com desenhos, aguarelas, colagens e tudo o que mais possa surgir.

Serão estas as pequenas mudanças para este novo tempo!

 

Desejo um excelente 2020 para todos!

 

 

 

 

la hulotte

F

 

Quando se agarra um projecto de alma e coração, ele tem grande possibilidade de crescer e criar raízes.

A edição da pequena revista La Hulotte é um desses projectos, nascido em 1972 da arte e curiosidade de Pierre Déom, que desde então se empenhou como autor, redactor, desenhador e responsável desta preciosa publicação que semestralmente chega à caixa de correio de cento e cinquenta mil assinantes, entre os quais me incluo.

A sua paixão pela natureza e pela fauna e flora das Ardennes – região localizada a norte de França – levou-o a editar enquanto estava no ramo do ensino o primeiro número da revista em associação com um clube da natureza local.

O sucesso dos primeiros números foi tal que decidiu abandonar o que fazia e começou a dedicar-se unicamente à edição da revista. Pierre Déon tem actualmente 70 anos e para concretizar um número desta revista necessita, em média, de mil horas de trabalho, desde a pesquisa documental, ao contacto com especialistas sobre o tema em causa, ilustração, edição, etc.

Sendo única no género, é uma delícia para o olhar e sempre, mas sempre, uma fonte de aprendizagem sobre a natureza, a que o autor alia um humor muito inteligente.

Sendo uma grande apreciadora desta publicação assim como do empenho e saber do seu criador, não poderia deixar de os divulgar neste espaço.

 

s

Imagem inicial: capa dos nºs 6 a 15 –  https://www.lahulotte.fr/collection_1.php
Imagem final: capa dos nºs 96 a 105 –  https://www.lahulotte.fr/collection_10.php

 

 

 

 

a arte do mar

 

IMG_6504 abcd

 

Como um gesto
de mão
e de mar,
as ondas desenham
nuvens
montes
vales
e efémeras paisagens
sem par.

Onda vem…
onda vai…
e outra a abraça no seu recuar!

Cada onda tem um traçar,
desenhos que o meu olhar
aprecia
mas que os corpos,
indiferentes,
pisam sem reparar…

Como é bela a arte do mar!

 

(Dulce Delgado, Agosto 2019)

 

 

 

o professor

 

trevo

 

Quando somos jovens, é comum encontrarmos pessoas que nos mostram perspectivas para as quais não estamos ainda preparados. Mas os seus valores tocam-nos, ficam alojados no nosso sentir e, com o passar do tempo e de um natural amadurecimento da nossa mente e sensibilidade, lentamente eles vão germinando e sendo percepcionados de forma diferente. Começamos então a perceber a importância de determinados ensinamentos, daquele olhar que insistentemente nos foi mostrado ou da crítica por vezes dura que nos foi direccionada. E a sentir que tudo isso poderá ter um papel importante no nosso percurso pela vida.

Se estivesse vivo, o artista, escultor e professor de várias gerações Lagoa Henriques (1923-2009) faria hoje 94 anos. Na foto acima, captada em 1981, eu teria 23 anos e o professor estaria perto dos sessenta, curiosamente onde eu hoje me situo.
No primeiro curso de conservação e restauro ocorrido em Portugal e iniciado nesse mesmo ano, o professor deu-nos aulas práticas de desenho, centradas em objectos ou modelo vivo. Nessa época, a minha noção de desenho estava muito associada ao “perfeitinho e bem acabado”, muito diferente da espontaneidade do desenho-emoção que o professor constantemente nos tentava incutir, insistindo que entre o olhar e o papel, deveria estar o sentir. Sem ele, seria uma cópia sem expressão.

Diria que o seu objectivo foi o ensinar-nos a olhar e a entender a essência da mensagem/imagem, o que ele fazia de diversas formas. Além disso, incentivava todos os seus alunos a registar o que viam, a fazer diários gráficos, a treinar a mão e sempre, sempre o olhar.

Entretanto…ainda antes do final do curso tive a minha filha e um pouco mais tarde o meu filho, tendo o meu tempo e o meu olhar muito com que se entreter. Porém, com o passar dos anos, percebi que algo continuava a fervilhar dentro de mim, não me bastando a ideia de “ter algum jeito para desenho”. Era um sentir que teria que enfrentar e explorar pois, apenas dessa forma poderia eventualmente dar o tal salto que separa o perfeito do espontâneo, o falso do genuíno, o ver do verdadeiro olhar, aspectos para os quais o professor me tinha alertado e sensibilizado.

Seguindo esse profundo sentir, decidi então iniciar registos em diários gráficos e fazer muitas experimentações. Parti a medo, com aquele medo com que se enfrenta um lugar desconhecido, em que sabemos ir encontrar desafios e sentir muita frustração. Mas que será o único com possibilidade de nos levar a determinado lugar.

Apenas posso dizer que os períodos de empenhamento e alegria têm alternado com a desmotivação, que encontrei muitas vezes a frustração a par do momento gratificante, que ultrapassei alguns medos e que a mão está um pouco mais solta e o olhar mais treinado. Porém, é especialmente a confiança que tem muito para amadurecer. Ainda.

Sei que será um trabalho para a vida, pelo que me imagino uma velhinha a fazer uns rabiscos tremidos. Contudo, tenho a certeza que se o dia desta foto fosse hoje, as críticas e as dicas seriam algo diferentes. E perceber isso, já é para mim uma vitória.

Quando olho para trás, vejo o mestre Lagoa Henriques como o professor que mais me marcou e mais sementes deixou na minha sensibilidade, na medida em que me ensinou a olhar, a relacionar e a sentir emoção com a estética desse olhar. E esse é um ensinamento que tenta estar presente em todos os momentos da minha vida e do meu dia-a-dia. Hoje mais do que nunca.

Apesar de ausente deste espaço-tempo, estou certa que ele continua a estar presente na vida de muitos dos alunos que ensinou. E onde quer que esteja… talvez continue a partilhar a sua enorme sensibilidade.

 


Autor de muitas esculturas espalhadas pelos quatro cantos do mundo, o escultor Lagoa Henriques tem no centro de Lisboa uma das suas obras mais conhecidas: a representação do poeta Fernando Pessoa sentado na esplanada do café A Brasileira, em pleno Chiado, obra constantemente requisitada para uma fotografia por muitos dos turistas que visitam a capital portuguesa.

 

Capturar lh

http://www.cm-lisboa.pt/equipamentos/equipamento/info/fernando-pessoa