experimentações #16

Iniciei então um tempo de experimentações, no verdadeiro sentido da palavra.

A necessidade de transmitir mensagens através dos desenhos deixou de ser importante, sento substituída pela vontade de explorar o acaso, a espontaneidade, os gestos e sobretudo os mais diversos materiais.

Apesar da prevalência deste lado tão experimental, sempre se manteve a procura de uma certa harmonia gráfica/cromática a partir do aparentemente inestético e, quantas vezes nascido do imprevisto.

Gostei muito desta fase completamente nova em que prevalecia não o pensamento mas o puro prazer de fazer.

(Gaze, cartão, caneta, aguarela e tinta da china sobre papel, Dezembro 1988)

 

experimentações #15

Oito anos depois, já com a vertente de mãe em “velocidade de cruzeiro” e os filhos a requererem uma atenção menos contínua, voltei a sentir vontade de fazer algo, de mexer em lápis, tintas, papéis e, sobretudo, vontade de reencontrar a criatividade que tinha e um prazer já esquecido.

Percebi de imediato que o grande detalhe ou experiências que exigissem muito tempo e concentração não seriam possíveis. Precisava apenas de aproveitar a pouca disponibilidade que tinha e sentir alguma satisfação com isso.

Percebi igualmente que o uso da lápis de cor e grafite/preto e branco faziam parte do passado e não seria o caminho a seguir. Pelo menos da forma que fizera antes. Comecei então a olhar mais para a cor, de preferência em meio aquoso, como a aguarela. Talvez por isso, gosto da ideia bastante romântica de que os meus filhos foram naturalmente os veículos que trouxeram “a cor” à minha vida!

Este desenho simboliza, de certa forma, esse renascer e o voltar a olhar para o que estava dentro de mim.

(Dulce Delgado, aguarela sobre papel, 1988)

experimentações #13

De certa forma, este desenho marca uma fronteira no tempo, no estilo e muito na vivência e percurso de vida. Talvez por isso, mais de quarenta anos depois ele continua a ser, para o meu sentir, um dos mais significativos.

Diria que representa o equilíbrio que se deseja entre o que somos/ sentimos/ guardamos, e o modo como o exteriorizamos e partilhamos com os outros, algo nem sempre fácil de conseguir.

Creio que será um trabalho para toda a Vida.

(Dulce Delgado, lápis cor/grafite sobre papel, Agosto 1979)

 

experimentações #12

#agosto 79 (2)a

 

As preocupações com o ambiente e os efeitos da poluição no planeta estiveram presentes em alguns desenhos da minha juventude.

Essa abordagem poderia ser relativamente pacífica e esperançosa, como  revela acima ou, pelo contrário, bastante explosiva e sem dar qualquer credibilidade à raça humana.

Diria mesmo que deveria estar num dia de grande revolta com a humanidade quando fiz o desenho que se segue…

 

Julho 79 ab

(Dulce Delgado, lápis de cor/grafite sobre papel, Julho e Agosto 1979)
 

experimentações #11

 

agosto 79 ab

 

O início de um namoro, e os sentimentos e emoções daí inerentes tiveram repercussão em alguns desenhos realizados em 1979.

Diria que perante o meu olhar estava um mundo a dois para descobrir, sentir e explorar.

 

julho 79 (3)ab

 

 

(Dulce Delgado, lápis cor/grafite sobre papel, Agosto 1979)

 

 

 

 

 

experimentações #10

 

#10 - Julho78ab

 

#10 - Junho 78 ab

 

Continuei a busca por algo que eu não sabia bem o que era… e que foi expressa em muitos desenhos realizados por volta dos meus vinte anos, como mostram os dois exemplos acima.

Entretanto, acompanhava-me uma imaginação um tanto“pueril” e infantil que me levava a penetrar em mundos bastante mágicos e fora da realidade e dos dias…

 

#10 - Agosto 78ab

 

Como sempre acontece, apenas a idade e as experiências vividas nas décadas seguintes me ajudaram a chegar a algumas das respostas que então procurava…e ainda a perceber que a realidade e a imaginação têm muito pouco em comum.

 

 

(Dulce Delgado, lápis cor/grafite sobre papel, 1978)

 

 

 

 

 

experimentações #9

 

julho 78a

 

A cor foi alternando com o preto e branco, da mesma forma que em mim habitavam dois mundos em confronto: um  imaginário leve, etéreo, algo transcendente e infinitamente belo… e a realidade do mundo em que vivia, repleta de injustiça, egoísmo, sofrimento, pobreza e de uma violência absurda que me revoltava e que eu não entendia.

Mais do que a qualidade artística das formas ou da ingénua simplicidade do traço e da anatomia humana, creio que o mais interessante é a expressividade que, apesar disso, as  figuras conseguem transmitir

 

março 78 (2)a

 

(Dulce Delgado, tinta da China, aguarela e lápis sobre papel, 1978)

 

 

 

 

um olhar criativo

 

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A criatividade é algo que é de todos, apenas mais activa em alguns porque lhe deram atenção e um lugar mais ousado na sua vida. Permitiram-se olhar com outro olhar e não apenas ver, experimentar mesmo sem acreditar, dar lugar ao pulsar e explorar o potencial mesmo sem o conhecer.

É assim que eu vejo a criatividade. E neste Dia Mundial da Criatividade e da Inovação vou contar-lhes uma história, pessoal porque foi por mim vivida e, no meu entender, a melhor forma que encontro para justificar o meu conceito de criatividade.

As histórias pessoais valem o que valem. São detalhes nesta imensidão. Mas podem despoletar algo que leve os outros a pensar e a olhar o que os rodeia de uma outra forma…e com outro olhar!

Aqui vai…

 

Vem de longe a atracção que sinto por pedras e por outros elementos naturais deste planeta que habitamos. Aprecio as suas formas, expressividade, texturas e faces de clivagem, gosto que vem da infância e dos passeios pelos areais algarvios em que cresci e onde adorava observar/apanhar pedras, conchas ou outros materiais trazidos pelo mar.

Passaram muitos anos…

Em meados da década de noventa, na primeira visita que fiz à Pedreira do Galinha, área localizada na região de Ourém/Torres Novas e detentora de longos trilhos de dinossauros, o meu olhar foi atraído por uma pedra de calcário solta que estava no chão. Apanhei-a, olhei-a de um lado, depois do outro, tendo de imediato a sensação que não era uma pedra qualquer e que tinha algo para me dizer. Senti-lhe um enorme potencial, conseguisse eu percebê-lo devidamente.
Foi para a mochila e, a partir daquele instante, mais importante do que todos os dinossauros que por ali passaram, a minha atenção ficou orientada para as pedras que ia encontrando. A mochila veio carregada, mas ainda sem saber para que serviria aquele pesado “tesouro” que trazia às costas.

Dias depois, decidi olhar calmamente e de vários ângulos para a primeira pedra que tinha apanhado. Uma luz rasante ajudou-me a perceber a volumetria, a textura e a “ver” uma imagem em latência que apenas precisava de ser “reavivada”. Foi o que fiz em seguida recorrendo a um fino pincel, a tinta-da-china preta e a toda a paciência que me caracteriza. Para lhe dar alguma verticalidade e valorizar a representação, adaptei-lhe outra pedra mais pequena, que cumpriu com rigor essa missão.

O resultado foi a pedra pintada que dá início a este post e que ainda hoje guardo com todo o carinho. Dizem que não há amor como o primeiro, pelo que esta pedra adquiriu esse estatuto entre todas as que se seguiram, sejam as recolhidas nesse passeio ou, posteriormente, em incursões “clandestinas” a pedreiras calcárias daquela região, uma vez que não encontrei outras com características semelhantes.

Pintei mais de uma centena de pedras com temáticas variadas, situadas entre o real e o puramente abstracto/imaginário, mas sempre aproveitando os relevos e a textura própria do calcário. Foi uma fase louca e de uma criatividade diferente daquela que eu conhecia. O desafio nascia do olhar e da capacidade de “comunicar” com cada pedra. Era algo orgânico, de “corpo para corpo” e uma espécie de jogo de afectos e empatia. Ou sentia, ou não sentia. E houve pedras que não entendi, pelo que foram devolvidas à natureza.

Muitas delas foram oferecidas a amigos e outras tantas vendidas. Pela minúcia do trabalho, começou a ser fisicamente desgastante, pelo que deixei de o fazer há alguns anos. Hoje guardo as fotografias de todas e reservo algumas como legado, incluindo esta primeira. E fico extremamente feliz quando reencontro alguma em casa de amigos ou familiares.

Foi uma fase da vida que passou, de um modo tão natural como surgiu. Já o gosto pelas formas da natureza continua bem enraizado e será sempre foco da minha atenção. Quem sabe, talvez um outro olhar me leve ainda a uma nova aventura criativa!

Termino com a imagem de outras pedras que continuam a viver comigo, porque nelas encontro um simbolismo muito especial.

 

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(Dulce Delgado, 21 Abril 2020, Dia Mundial da Criatividade e Inovação)

 

 

 

 

 

 

experimentações #7

 

julho 77 mais leve b

 

Vivia um tempo em que as emoções me tocavam de uma forma muito nova, sendo igualmente nova a tentativa de tentar compreender a nossa existência, escolhas, caminho e evolução por uma via mais espiritualista e esotérica.

Leituras, conversas e amizades estavam muito associadas a essa via, que também acabou por ser temática de muitos desenhos então elaborados.

 

Abril 78 mais leve b

 

(Dulce Delgado, lápis sobre papel, 1977)

 

 

 

 

experimentações #6

 

#6 - dez 77 mais leve

 

Num tempo de imensas descobertas, a natureza no geral e a Serra de Sintra em particular tiveram um grande impacto no meu percurso de vida,  assim como a integração/socialização num grupo de pessoas com objectivos e filosofia comuns.

Foi um tempo de exploração e expansão, de grande envolvimento, de muitas emoções e partilha, mas também de tentar perceber o meu lugar neste mundo.

A lápis/grafite fui desenhando essas experiências e esse entendimento/crescimento. Hoje, quando olho para alguns desses desenhos… sorrio…e sinto uma enorme ternura!

 

#6 - dez 77 mais leve 2

 

(Dulce Delgado, lápis sobre papel, Dezembro 1977)