experimentações #35

Se as férias anuais continuavam a dar origem a blocos com desenhos/registos, nos restantes dias do ano iam crescendo os cadernos com sketches diversificados e baseados em objectos comuns do dia-a-dia.

Em 2010, no entanto, apeteceu-me variar e resolvi começar a preencher um caderno apenas com desenhos de mãos, tendo por base o “modelo” sempre disponível: a minha mão esquerda. Sendo completamente destra, a mão direita era a activa e a esquerda sempre a passiva.

Desenhar mãos é bastante difícil, pelo menos para mim. Recordo que raramente ficava satisfeita com o resultado mas, sendo o objectivo apenas treinar e aprender, o meu “gostar” não era realmente importante. Digamos que funcionava apenas como incentivo. Como todos estes esboços eram realizados a caneta, o que saía…era o que ficava.

Pontualmente, e já sem saber que mais posições arranjar para a mão, fixava-me apenas num dos dedos ou, para variar, num pé!

Guardo com muito carinho este caderno como exemplo da persistência e da motivação que então me moviam. Hoje já não tinha paciência para fazer isto, sendo talvez por isso que aprecio muito mais o seu conteúdo.

Bom fim-de-semana!🤗

experimentações #33

Durante alguns anos centrei-me essencialmente nos álbuns “por aí” como os partilhados no último post desta série.

De vez enquanto surgiam algumas intranquilidades criativas, inquietações que no final de 2008 aumentaram muito, a par da sensação de estar “demasiado parada” e de precisar de crescer um pouco mais.

Comecei também a sentir que o caminho não estaria nos traços que povoavam o meu imaginar como acontecera até então, mas que precisava de saber desenhar melhor o que via, de perceber racionalmente a relação entre as formas/volumes, perspectivas, sequência de planos, etc. Percebi igualmente que precisaria de muito, muito treino até eventualmente sentir que sabia realmente desenhar. Adquiri então alguns livros que me deram dicas importantes e comecei com um treino intensivo que consistia em fazer um desenho por dia o que, verdade seja dita, nem sempre foi cumprido com rigor.

Ao centrar-me na realidade tudo começou a ser alvo do meu olhar e a ser desenhado. Utilizava a caneta para não apagar nada e assim perceber a evolução. E depois foi insistir, insistir e insistir, como consiste no geral qualquer treino.

Os blocos foram sendo preenchidos, ficando aqui apenas alguns exemplos desse treino visual e manual.

Nesse ano de 2009 voltei a fazer um bloco com registos de férias, o que já não acontecia desde 2003. Completamente diferente dos anteriores, ele foi de certa forma uma continuação dos desenhos diários para os quais eu estava “programada”. A grande diferença é que os alvos escolhidos estavam maioritariamente no exterior. 

Na última imagem, as duas páginas do bloco estão preenchidas com registos rápidos de pessoas em movimento, algo para mim extremamente dificil, quer naquela altura quer agora.

Falta-me uma boa memória visual capaz de captar a posição dos corpos em acção como uma imagem fotográfica que depois seria transposta para o papel. Precisaria realmente de muito, muito treino até conseguir registos que exprimissem a naturalidade/espontaneidade dos corpos e das expressões a ele associadas. Porém, até hoje não me apeteceu fazê-lo. Talvez um dia, quem sabe.

Neste momento assumo totalmente essa incapacidade relativamente a algo que, na minha perspectiva, caracteriza e define um verdadeiro desenhador.

sabes desenhar?

É provável que a maioria dos leitores deste post diga que não, que não tem jeito. Essa é a resposta mais comum.

Porém, se tal desejo vos habita de uma forma mais ou menos consciente, que essa primeira resposta nunca seja impeditiva de tentarem. O importante é querer iniciar essa caminhada com vontade e sobretudo sem expectativas, sendo certo que ela levará a um certo “auto-conhecimento” e a adquirir um olhar mais conciso e estético sobre o que nos rodeia.

Neste Dia Mundial do Desenhador não me vou alongar, pois iria repetir-me. Creio que o melhor será irem a este post que publiquei no início do Discretamente em 2016 e onde o desenho foi tema. Nele partilho algumas dicas para quem aceita esse desafio, sendo certo que seis anos depois essas palavras continuam actuais e a reflectir o que penso e sinto.

Antes de terminar gostaria ainda de dizer algo sobre a imagem/desenho que inicia este post. Ele simplesmente significa que tudo o que o que abarcamos com o olhar é desenhável, seja grande ou pequeno. Significa ainda que basta uma simples caneta e um caderno para o fazer, não sendo aceitável a desculpa de falta de material adequado.

E por ultimo significa que, nesta aprendizagem, o desenho mais gratificante é o mais simples, ou seja, aquele em que quer a mão quer o olhar conseguiram “perceber” o essencial e transpor isso para o papel.

Tentem e não desistam desta viagem. Ela é para toda a Vida!

Este dia justifica-se porque foi a 15 de Abril de 1452 que nasceu Leonardo da Vinci, talvez o maior desenhador de sempre. Em Portugal também é conhecido como o Dia Mundial da Arte, sendo que no Brasil, por exemplo, é conhecido como o Dia Mundial do Desenhista.

experimentações #30

A gratificante experiência com o livro que partilhei no último post desta série, teve continuidade em 2002 através do registo de uns dias de férias passados no Parque Natural do Douro Internacional e especialmente na província espanhola da Galiza.

Na concepção deste livro o desafio foi bem maior porque decidi que o texto seria essencialmente em poesia. Curiosamente recordo que não me foi nada difícil essa parte, porque tentei não valorizar demasiado a rima relativamente ao que queria transmitir. É claro que os desenhos não poderiam faltar, pelo que cada página ficou com um registo associado ao seu conteúdo.

Entretanto, estava o livro em curso quando no dia 13 Novembro 2002 a costa da Galiza sofreu os efeitos de uma enorme maré negra causada pelo petroleiro Prestige, o que para mim foi um choque profundo pois tinha adorado todos os momentos passados nessa área costeira poucos meses antes.

Então parei com o livro pois não estava a conseguir dar-lhe continuidade, sendo que durante algum tempo nada fiz e estive mesmo para desistir. Este facto explica quer as palavras da imagem acima e presentes no início do livro, quer as palavras da imagem que se segue e que estão inseridas na ultima página desse registo.

Objectivamente, fui capaz de sublimar essa “dor” transformando-a em trabalho, persistência e assim terminar o projecto.

Hoje partilho convosco algumas das páginas dessa parceria entre palavras e desenhos, e a que sempre associo um imenso rol de emoções.

Quase vinte anos passaram sobre a realização deste livro de férias e, apesar da vontade de voltar à Galiza ser real porque adoramos aquela região, ainda não surgiu uma nova oportunidade.

Talvez isso ainda aconteça um dia, sabe-se lá. Mas é grande a probabilidade de não encontrar alguns detalhes que me ficaram na memória…

experimentações #29

Uma mudança de século talvez seja a forma mais intensa de sentir que o tempo está a passar pelo mundo e por nós. Nessa perspectiva, a passagem para o séc. XXI teve impacto em mim…abanou-me…levando-me a questionar sobre várias vertentes da Vida.

As respostas foram diversas em função das áreas, mas negativa relativamente à minha vertente criativa, pelo que senti que teria que fazer mudanças.

Sabia que não poderia arranjar “obrigações” e, fosse qual fosse o projecto deveria ser algo com princípio, meio e fim de modo a sentir alguma compensação pelo esforço. Nessa altura, para além das obrigações familiares e do emprego ainda fazia trabalhos extra, sendo o tempo livre quase inexistente. Por tudo isto sabia que necessitaria de muito tempo e muita calma para avançar.

Surgiu-me então a ideia de elaborar um livro, com texto e desenhos, centrado nas férias de 2001 que decorreram entre Portugal e Espanha. Nesse ano eu estava com 43 anos, um número que desde criança sempre apreciei e que se revelou na altura um incentivo a avançar.

Partilho convosco a introdução que escrevi nesse livro:

A melhor viagem é aquela em que nos propomos explorar o nosso interior e as nossas capacidades”

Há momentos em que nos surge a vontade ou necessidade de deixar uma marca, um sublinhado, neste livro que vamos escrevendo momento a momento e que é a nossa vida.

Assim como há palavras e frases que não podem ser esquecidas, há momentos que têm de ficar presentes de uma forma diferente e objectiva. Talvez por isso o desejo de “lhes tocar”, de os materializar, como se a memória só por si não fosse suficiente para os recordar.

43 anos!

Uma idade em que preciso de deixar essa marca!

Talvez porque gosto do número, talvez porque me sinto relativamente em paz comigo, talvez por ambos os factos. Apenas sei que o terei de fazer de uma forma minha, íntima, intimista, como se um filho da minha sensibilidade tivesse que nascer.

Preciso de reencontrar essa sensibilidade, sentir que a tenho. Ela tem andado perdida entre muros de rotina, de trabalho, de falta de disponibilidade e de um tempo que eu não consigo agarrar.

Sinto que estas férias, as férias dos meus 43 anos, são um desses momentos. Porque as férias são um tempo em que a vida e o prazer estão a par e em que tudo se torna diferente: os olhos vêem de outra forma, a ternura é mais doce, a natureza mais verde e bonita e todos os pormenores têm um sentido…o sentido da nossa disponibilidade!

Talvez seja o momento certo.

Vou tentar…

Terminado o livro, decidi que também a encadernação deveria ser caseira, mesmo que básica, pois não tinha sentido colocar uma lombada mecânica ou afins em algo tão pessoal.

O resultado é o que hoje partilho convosco, seja o seu exterior (primeira imagem), sejam algumas páginas do seu interior.

A sua concretização revelou-se importantíssima e um forte incentivo a continuar.

O poema que está ao lado da fotografia desta ultima imagem intitula-se A um Girassol e pertence ao poeta chinês Li Bai (séc. VIII d.C). Está integrado no livro A Religião do Girassol, uma antologia organizada por Jorge Sousa Braga e editada pela Assírio & Alvim em 2000.

memória e ternura

Se estivesse connosco a minha mãe teria agora noventa e quatro anos. Porém, a sua passagem por esta vida terminou em 1998, faz hoje precisamente vinte e três anos (30 de Novembro).

É raro o dia em que a sua imagem não passa como uma brisa pelo meu pensar, seja por isto… por aquilo …ou por quase nada. Detalhes que a memória guardou, que aparecem nas circunstâncias mais variadas e que eu gosto de sentir como um “olá” que ela me está a dar…

Há muito que essas memórias não são associadas a dor, mas apenas a uma enorme e doce ternura que me habita e que considero o seu principal legado. Da sua personalidade sempre recordo a disponibilidade e a atenção que tinha com todos, a constante actividade e energia “tipo formiguinha”, o cozinhar muito bem, a capacidade de fazer tudo e mais alguma coisa, e ainda o facto de gostar bastante de conversar. Além disso, adorava a natureza e sabia o nome de imensas espécies de plantas e flores.

De vez em quando gosto de ir ao encontro da sua sensibilidade…e das suas mãos. Encontro isso em vários recantos da minha casa, seja através de uma colcha em crochet que me ofereceu, nos lençóis ou toalhas que bordou para o seu enxoval e que hoje são das filhas, nos deliciosos casaquinhos que fez para os meus filhos quando eles nasceram, etc., etc.

Mas há outros detalhes um pouco diferentes que habitam dentro de uma caixa. É o caso de alguns desenhos… rendas de vários tipos…muitas amostras de pontos de tricot com a explicação escrita por si….escritos diversos…poemas…etc, etc.

Ao optar por constituir família e ser “dona de casa”, afastou de certa forma a sua criatividade no sentido mais artístico, uma vez que tinha jeito para o desenho e grande precisão de mão.

Creio que focalizou essa energia e vontade criativa em actividades manuais como o tricot, crochet, bordados ou nas costuras que fazia com grande perfeccionismo. Eram pequenas obras de arte que nasciam do seu dia-a-dia orientadas para a família, aquele círculo que foi decididamente o centro do seu mundo.

Neste dia de memórias… a ternura e a gratidão tudo preenchem! Seja pelo que foi na sua enorme simplicidade, seja pelo que representou nas nossas vidas. E pessoalmente, por tudo o que deixou em mim, especialmente o invisível.

O seu nome era Maria Teresa.

experimentações #28

Dando continuidade aos dois posts anteriores desta série, diria que outros blocos se seguiram preenchidos com o mesmo tipo de registos “gráfico-emocionais”, como eu gosto de lhes chamar. Inicialmente isso aconteceu com uma certa continuidade, mas amiúde os intervalos foram aumentando e os registos sendo cada vez menos. Até desaparecerem simplesmente.

Não minto ao dizer que nos últimos anos da década de noventa as minhas “experimentações” ficaram reduzidas a postais de aniversário e/ou de Natal para oferecer, e ainda a um ou outro desenho realizado em férias.

A criatividade passou nitidamente para um plano muito secundário, porque outras dinâmicas surgiram na minha vida, nomeadamente a necessidade de fazer trabalhos extra, acompanhar o estudo e crescimento dos filhos de uma forma mais atenta e ainda o início da relação com o meu actual companheiro. Ou seja, muita coisa para me ocupar/preencher… e uma total falta de tempo e de disponibilidade para a vertente criativa.

Em muitos momentos não foi fácil lidar com esse “desligar”…mas era assim, não poderia ser de outra forma e no futuro logo se veria. Diria que a criatividade estava no final da lista de prioridades… mesmo que por vezes bastante intranquila e irrequieta.

E foi assim que cheguei ao século XXI!

experimentações #26

Um pouco em simultâneo com os desenhos que partilhei nos últimos posts, esses ainda realizados em folhas soltas, comecei em 1992 a utilizar blocos como base de anotação de sentires, pensamentos/poesias, mas também de desenhos, recortes, colagens, etc,.

Funcionaram como uma espécie de diário gráfico onde materializava o que me sensibilizava, as emoções que me trespassavam, mas também os sentires sobre o que acontecia no mundo ou sobre manifestações culturais a que assistia. Uma heterogeneidade de modos de expressão que, de certa maneira, funcionaram como um escape num tempo que não foi linear nem fácil na minha vida

Apesar de muitas das folhas desses blocos não estarem datadas, algumas contêm essa referência, o que possibilita uma localização mínima no tempo, mesmo que não seja no dia certo.

Neste e no próximo post desta série, irei partilhar algumas páginas do primeiro desses blocos, datado de 1992. Além de ser o “primogénito”, exteriormente é o mais bonito, o que lhe concedeu um valor acrescentado nesta “colecção” de registos.

(Dia do tiroteio no cemitério de Santa Cruz, em Timor Leste)
Já não recordo a origem destas palavras/frases, daí não poder mencionar o autor/ fonte
Depois de ver uma exposição da escritora e artista plástica portuguesa Ana Hatherly (1929-2015)
E após uma ida ao teatro ver uma peça baseada na obra do artista Hieronymus Bosch
Dulce Delgado
(Colagens, aguarela, lápis de cor, caneta e  tinta da China sobre papel)