às vezes é um insecto…

 

capturar

 

Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme, é o título de um pequeno livro de poemas da autoria de Nuno Costa Santos, português, escritor, dramaturgo, guionista para cinema e autor de programas radiofónicos e televisivos.

A editora, a Companhia das Ilhas, refere que o livro “…aborda temas do quotidiano, ou do modo como transformar as nossas vivências em palavras partilháveis. Uma linguagem simples e depurada, mas segura e rigorosa, que nos cativa para a leitura.”

Para além desta edição de bolso que me cativou pelo título, nada mais li deste autor. Contudo, tal como o link indica, tem outras obras publicadas.

Seguem-se quatro poemas que revelam um pouco da linguagem de Nuno Costa Santos e o seu modo singular de escrever poesia.

 

Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme

Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme
um zumbido que detona o coração.

Às vezes é uma virgula que tomba na frase
uma cabeça que desaba num ombro qualquer.

Às vezes é um fósforo
que resplandece venturosas entradas
no dicionário dos dias.

Às vezes nem isso.

Às vezes é um sopro que revira o mundo
no ventre do tempo
como quem se prepara para uma nova vida.

 

Google imagens

O mais velho convoca-me para a pescaria.
Lá vamos nós de canas de pesca,
pelas águas virtuais dentro.

Capturamos de tudo.

Peixes de mar mais profundo. Peixes de aquário. Peixes de desenho animado. Peixes de galeria nova-iorquina.

O rapaz cala-se, poético e atento, como se tivesse percebido as regras do ritual. E, ao som de cliques, o pescador vai lançando o isco cada vez mais longe, à procura de novas e novas e novas (e novas) espécies.

Dantes fazia-se isto no mar

 

Perdoa-me

Perdoa-me esta tristeza
de súbito revelada

(já passa
como passam as nuvens
e as notícias em rodapé).

este ar de passarão triste
estes olhos de boga
este contrato a termo incerto com o pensamento.

Não é nada

sou só eu
de vez em quando.

 

Lembrete

Tenho de ligar à alergologista mas não o faço
estou na minha hora da poesia.

Tenho de fazer alterações a um texto mas adio
estou na minha hora da poesia.

Tenho de passar um recibo verde mas espero
estou na minha hora da poesia.

Tenho de tratar da vida mas aguento
estou na minha hora da poesia.

Tenho de arquivar as obsesões e o medo mas protelo
estou na minha hora da poesia.

Agora já posso ir.

 

 

Imagem retirada de
http://companhiadasilhas.pt/books/as-vezes-e-um-insecto-que-faz-disparar-o-alarme/

 

 

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outono aqui…primavera além…

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Entre nós e a natureza existem paralelismos, mas igualmente formas muito diferenciadas de adaptação. Diria que a energia-vida que nos alimenta é a mesma, mas a sua elasticidade permite manifestações por vezes opostas. Isto vem a propósito do equinócio de hoje no calendário astronómico e das alterações que entretanto ocorrem.

No hemisfério norte, onde resido, inicia-se o Outono. Os dias mais frescos começam a tocar a nossa pele e a provocar aquele primeiro arrepio que sempre nos surpreende. Os seguintes levam-nos a ir buscar um agasalho e, com o avançar dos dias, progressivamente a roupa mais quente irá proteger-nos e substituir o calor do sol. Isto significa que, para retermos e pouparmos energia, tapamos o nosso corpo, sendo com mais ou menos camadas de roupa que enfrentaremos o frio que o Outono e o Inverno nos irão oferecer.

Mas na natureza o processo pode ser oposto, como se constata em muitas espécies do reino vegetal. Vejamos as árvores, nomeadamente as de folha caduca, que enfrentam o frio e os rigores do Inverno perdendo as suas folhas, ou seja despindo-se, num processo assaz interessante e bem diferente do nosso.

Nesse grupo de árvores, à medida que os dias começam a ficar mais curtos e com menos horas de sol, reduz-se a produção de clorofila, o pigmento verde existente nas folhas e responsável pela captação da luz e produção da energia que a planta necessita. Com menos energia, as folhas começam a ficar amarelas e a adquirir aqueles tons outonais que alimentam e deliciam o nosso olhar. Entretanto, a própria planta produz uma substância que se vai acumular na base das hastes de cada folha, que tem como função destruir as células dessa zona e assim impedir a passagem da água. Sem ela, a folha seca, cai, o que acontece progressivamente com toda a folhagem.

Despida e sem folhas, o objectivo de “poupar” está cumprido, porque a área que permitiria perder os elementos vitais foi drasticamente reduzida. Ficam os troncos, bem mais resistentes ao frio e ao gelo, e capazes de guardar o potencial energético da árvore até à próxima Primavera.

Em suma, a natureza despe-se…e nós adicionamos roupa…duas estratégias de sobrevivência opostas e algo incongruentes, se considerarmos que o mecanismo adoptado pela natureza parece muito mais inteligente e genuíno do que o nosso.

Tendo em conta o descrito, perante o colorido que o Outono irá espalhar na paisagem e oferecer ao nosso olhar, pensemos um pouco na importância e na beleza do processo escondido que está a acontecer em cada árvore e em cada folha. Simultâneamente, porque não sentir alguma gratidão no gesto banal de ir buscar um agasalho mais quente e confortável, uma vez que isso significa que, também nós, estamos a iniciar um novo Outono nas nossas vidas?

Entretanto…na metade sul do planeta, o equinócio dará lugar à Primavera e os agasalhos voltarão progressivamente ao roupeiro. Na natureza reaparecerão as folhas nos troncos das árvores… folhas que irão captar a luz e produzir a energia necessária ao ciclo de reprodução que se aproxima e que naturalmente será cumprido.

Aqui…ou além… é constante e activa a adaptação da natureza a este planeta que vagueia pelo universo e onde nós somos apenas convidados. Recordando isso…desejo a todos uma vivência consciente e tranquila do Outono…ou da Primavera!

 

 

 

pela areia

 

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Percorrer a beira-mar,
é afagar a fronteira entre a terra e o mar.

Caminho
de olhares que se cruzam,
de conversas
perdidas na maresia
e de memórias,
que contornam a maré cheia
e preenchem a vazia.

Deixa cada passo
uma marca na areia,
afagos
de humana energia
que suavemente se unem
sem medo de se tocar.

Marcas efémeras
que as ondas irão apagar,
e com elas levar
a doce energia
que no mar ficará
para sempre a flutuar!

 

 

(Dulce Delgado, Setembro 2017)

 

 

 

la luna

 

 

Mais importante do que tudo o que nos dizem, é a capacidade de sermos autónomos, independentes e de agir de acordo com o nosso discernimento e sentir.

Este pequeno filme mostra-o bem, sendo ao mesmo tempo uma imaginativa e luminosa viagem pela lua. Espero que gostem!

 

La Luna, animação escrita e dirigida por Enrico Casarosa e produzido por Kevin Reher, Pixar, 2011

 

 

 

enxaqueca

 

foto enxa

 

Quem diria que essa dor-agonia denominada “enxaqueca”, termo tão diferente da fluída palavra anglo-saxónica migraine, tem hoje o seu Dia Europeu!

Este democrático continente em que vivo permitiu que a enxaqueca ocupe um dos 365 dias do ano, facto que poderá parecer um atrevimento a quem dela padece. Não é o meu caso felizmente, pois não sofro desse mal, mas conheço quem convive com essa difícil dor, sendo uma relação deveras conturbada.

Como observadora, apenas vou olhar para a palavra, porque é um termo que sempre me despertou uma estranha curiosidade…

…diz o dicionário que deriva do árabe, de ex-xaquica…

…é uma palavra sonoramente desagradável, pelo menos na minha perspectiva…

…e, na sua estrutura, aparece o termo queca, palavra que em bom português não se enquadra minimamente com a situação em causa pois, quem está com uma enxaqueca, estará certamente longe da vontade e dos prazeres do acto sexual!

Porém, olhando para a sua constituição encontramos:

        en – Prefixo que indica posição interior, movimento para dentro

 xaque – O mesmo que “xeque” no jogo de xadrez, significando um ataque estratégico às peças mais importantes

        ca – A primeira sílaba da palavra cabeça…

 

Então…associando estas três ideias e um pouco de imaginação, consigo encontrar uma justificação plausível para a existência de tão curiosa palavra. Assim:

enxaqueca = movimento para o interior com ataque estratégico ao “centro de controle”…ou seja, à cabeça!

Deve ser por isso que, quem dela padece, fica completamente KO!

 

 

Imagem retirada de  http://cidadeverde.com/vida/p/110

 

 

“poesia” no futebol

 

futebol

 

… refrescar a tarde de calor com salpicos de futebol…

… meter o radar no pé esquerdo…

… mas há destinos e obras de arte que não entram em estatísticas (referindo um golo)

… o defesa brasileiro não teve samba para o tango do argentino…

… o guarda-redes tem sempre um palmo a mais…

… da marca dos onze metros pôs o poste a tilintar…

… adormeceu no turno…e ofereceu o golo…

… agarrou entre as mãos, a vontade de chamar pelo golo…

… colocou aquela bicicleta com umas mudanças acima…

… a bola levava certinha as coordenadas da cabeça do avançado…

… ele só tem olhos para a bola…

… Cristiano soltava a alegria…

… a classe com que põe a bola a morar no lugar favorito…

… é assim, quando se soltam os génios!

… etc.

 

Ao ouvir frases como estas a comentar resumos de jogos de futebol…a minha relação com esta modalidade melhorou consideravelmente.

A partir desse momento comecei a encontrar alguma “poesia” no futebol, não propriamente nas imagens emitidas, mas em comentários da autoria do jornalista João Alves Domingos, nome que aparece em rodapé no écran do primeiro canal da televisão pública portuguesa (RTP1), aquando da apresentação de resumos de alguns jogos.

A maioria destas frases são da sua autoria, e têm o dom de sugerir imagens e metáforas que facilmente nos transportam para outra realidade que não a de vinte e dois seres humanos atrás de uma bola tentando meter golos em duas balizas.

Tal descoberta levou-me a a percorrer outros canais televisivos, pois poderíamos estar perante uma nova linha jornalística de fazer comentários. Porém, nada encontrei de comparável nem com um estilo tão próprio, sendo este jornalista o detentor das melhores frases sobre esta modalidade desportiva.

Pelo menos para mim… que sou mais adepta de poesia do que de futebol!

 

 

Imagem retirada de  http://gqportugal.pt/melhor-sabado-futebol-da-historia/

 

 

 

cantando violeta parra

 

isa + tit

 

No início de Abril, publiquei um post sobre a cantora chilena Violeta Parra, no âmbito das comemorações do centenário do seu nascimento (1917-1967).

Volto hoje ao assunto, uma vez que na próxima terça-feira dia 12 de Setembro, a filha e a neta de Violeta Parra, respectivamente Isabel e Tita Parra, estarão no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, para dar um concerto integrado na programação de Passado e Presente – Lisboa, Capital Ibero-americana de Cultura 2017.

Serão cantados os temas mais emblemáticos de Violeta Parra e outros da autoria das suas descendentes, num espectáculo que irá certamente aliar a música popular, tradicional e de intervenção chilena com uma forte componente emocional, tendo em conta os laços familiares e afectivos que estarão sobre o palco. Este espectáculo é organizado pela Secretaria de Cultura do Governo do Chile.

Ainda no âmbito deste centenário, a 4 de Outubro, dia em que a cantora completaria cem anos, haverá na Sociedade de Instrução e Beneficência A Voz do Operário, sediada em Lisboa, um outro espectáculo musical, este produzido pelo grupo el Sur.

Serão momentos com características diferentes, mas estou certa que ambos terão como lema a partilha, a força e a paixão que orientaram a vida desta mulher.