cinco anos!

Já aqui partilhei o quanto aprecio um belo prado, seja pela liberdade que concedem à sua própria natureza, seja por acompanharem naturalmente o ritmo das estações do ano e, especialmente, por serem espaços abertos e repletos de possibilidades. Talvez por isso, neste dia em que faz precisamente cinco anos que publiquei o primeiro post no Discretamente, apetece-me divagar sobre a natureza de um prado e com ele fazer uma analogia.

O sentimento que me invadia no dia 28 de Abril de 2016, era algo semelhante à sensação de ter um pequeno terreno pela frente mas não saber se seria bom ou se nele cresceria algo. E especialmente questionava-me se ele seria o lugar mais propício ao desenvolvimento da minha vontade de partilha criativa.

O tempo foi passando, as estações do ano e a vida acontecendo, as emoções e sensações brotando….assim como o prazer e a alegria de ver nascer “naquele terreno” um pouco de tudo. Assim, ao longo destes cinco anos e muito para além do que eu alguma vez possa ter imaginado, brotaram 625 posts que incluíram centenas de textos, 145 poemas, 160 desenhos, assim como muitas centenas de fotografias, tudo de autoria própria.

Se estou grata por ter dado a mim própria a oportunidade de avançar com o objectivo de superar muitas inseguranças e intranquilidades criativas, estou ainda mais grata por ter uma filha que me ajudou na construção do blog e ensinou a lidar com a plataforma WordPress. Estou igualmente agradecida a todos os que me têm acompanhado, comentado, incentivado e que, de certa forma, já fazem parte da minha “outra família”. A todos discretamente agradeço.

Por fim, que a vida me permita continuar a apreciar e a “regar” com alegria este prado imaginário!

25 de abril

Numa época em que os extremismos de direita ganham força em Portugal e no mundo, mais do que nunca os portugueses têm o dever de recordar o dia 25 de Abril de 1974 e a Revolução dos Cravos, levada a bom termo por um grupo de militares que enfrentaram o regime vigente.

Esse dia permitiu a Portugal sair de uma longa ditadura, terminar a guerra do ultramar, dar liberdade aos presos políticos e abrir progressivamente as portas ao mundo. A democracia foi-se instalando e com ela a vontade de igualdade, a liberdade de movimento, de expressão e de escolha. Se até aí imperavam os deveres, com a revolução de Abril surgiram também os direitos, sendo que ainda hoje ambos procuram encontrar um ponto de  equilíbrio.

Nestes quarenta e sete anos, a maioria respirou essa nova liberdade de uma forma saudável. Outros porém, como sempre acontece, abusaram e continuam a usá-la em proveito próprio e distorcendo os seus valores.

Por aqui, nunca este dia será esquecido mas sempre discretamente lembrado. E faço-o muito agradecida pelo que representou nas dinâmicas do meu país (apesar dos erros que sempre se vão cometendo), mas igualmente pela liberdade de decisão e de expressão que, em última linha, permite construir, manter e partilhar espaços como este.

 
(Desenho e texto de Dulce Delgado)

a terra… e o livro!

Imaginemos o Livro do planeta Terra…de formato gigante…infinitas páginas e conteúdo imenso. Seria em tons verde-azul de beleza única…mas já com áreas de sofrimento e destruição.

Demasiado maltratado pelos que o usam e dele abusam, revela danos, falhas e desequilíbrios crescentes, muitos já impossíveis de salvar, restaurar e reverter. Uma dor de alma para os mais atentos.

Mas a Terra continua bela. E o Livro frágil…

Perante tal realidade, está na mão de cada um dos quase oito biliões de humanos que a Terra sustenta, alimenta e dá vida neste minúsculo ponto do Universo, de tratar cuidadosamente das páginas desse gigante livro. Será aí, através das nossas escolhas, acções, cuidado, erros ou indiferença, que escreveremos, ou não, a possibilidade de futuro. Daquele futuro que todos desejamos para as gerações que nos seguem….e para os nossos filhos e netos!

Sendo hoje, 22 de Abril, o Dia Mundial do Planeta Terra e amanhã o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor…os dois decidi juntar, porque ambos são suporte e sabedoria, em ambos fluem histórias e a vida vai acontecendo e sendo partilhada. Ambos merecem respeito e atenção, mais não seja pelo facto de nos permitirem crescer e serem reservas de experiência e de conhecimento.
(Desenho e texto de Dulce Delgado)

moinhos

Na infância, os moinhos de papel eram sonho, construção, movimento e com eles voamos felizes ao vento. Depois crescemos e naturalmente os esquecemos.

Os outros, os reais – sejam de vento, de água ou de maré – ainda vão resistindo na paisagem. A maioria estará destruída, muitos foram recuperados para habitação ou musealizados, sendo poucos os que ainda se mantêm íntegros e conseguem funcionar.

Gosto especialmente dos moinhos de vento, porque sempre que o meu olhar os encontra sente-se bem acolhido. Com eles é muito fácil voltar à ingenuidade dos desenhos de infância em que um moinho com quatro velas não podia faltar no cimo de uma paisagem com montes.

Neste Dia Nacional dos Moinhos, 7 de Abril, partilho convosco alguns dos muitos moinhos de vento que o meu país ainda acolhe… com mais ou menos carinho.

– Conjunto de cinco moinhos recuperados para funções diversas no Alto da Pinhôa, Moita de Ferreiros, Lourinhã

– Conjunto de vinte e três Moinhos da Serra da Atalhada, Friúmes, Penacova. Alguns estão recuperados para habitação.

-Conjunto de catorze moinhos em Gavinhos, Penacova. Alguns estão recuperados e creio que actualmente um deles ainda funciona com moleiro, provavelmente para escolas.

-Moinhos de Portela de Oliveira, Penacova. Originalmente seriam quase duas dezenas, sendo que alguns foram reaproveitados para habitação, outros estão em ruína ou em mau estado, e um deles, que pertenceu ao escritor Vitorino Nemésio, foi totalmente recuperado pela Câmara Municipal de Penacova, estando funcional. Anexo a um desses moinhos foi instalado o Museu do Moinho Vitorino Nemésio.

Este escritor adorava moinhos, tendo possuído três naquela região. O seu apreço era tanto que chegou a ser Presidente da Associação Portuguesa dos Amigos dos Moinhos.

-Aqui e ali, no cimo dos montes ou em zonas mais ventosas, eles convidam a um olhar terno e sempre delicioso.

Outros continuam activos por tradição, seja para fins educativos seja como complemento de um negócio. É o que sucede com o Moinho dos Caixeiros (Silveira, Torres Vedras), cujas velas a rodar são um chamariz para visitar uma padaria tradicional com um excelente pão.

– Por fim, uma simbólica homenagem a todos os que foram abandonados e engolidos pelo tempo, talvez a grande maioria dos que existem em Portugal. Pedra a pedra foram-se desmoronando… caindo… e naturalmente voltando à terra. Não tiveram fôlego para lutar contra o esquecimento e aguentar o avanço da civilização.

Mas gosto de pensar que um dia já foram felizes!

páscoa feliz!

E uma borboleta da cor do Sol pousou com ternura na orelha do coelhinho e sussurrou-lhe ao ouvido “Não estejas tristes, eu faço-te companhia nesta Páscoa!”

À semelhança do que se passou em 2020, ao cumprirmos o que nos é pedido esta será mais uma época festiva longe do calor familiar. Inicialmente acreditamos que este processo seria mais rápido, menos doloroso e nunca nos passou pela mente que um ano depois ele persistiria. A Vida é realmente surpreendente, no bom e no mau sentido.

Não haverá “borboletas da cor do Sol” a fazer companhia aos que vivem sós…e que mais sós se sentirão nesta época em que a família é sempre apoio e aconchego. Até os que vivem acompanhados sentem essa privação do calor familiar. Afinal já temos um ano de afectos em défice e muitos, muitos abraços e beijos em lista de espera.

Sobretudo, e apesar do aperto no peito que tudo isto nos provoca, tentemos que a energia da “borboleta” esteja presente nos pensamentos e na esperança que nos move. E na gratidão sentida pelo facto de, apesar de afastados, estarmos bem e saudáveis. Eu agradeço isso todos os dias.

Sendo a Páscoa um tempo de passagem, de transição e de recomeço….é igualmente um tempo de transformação e de renovação. Como a borboleta tão bem simboliza no seu ciclo de Vida.

Desejo a todos uma boa Páscoa!

esperança primaveril

Com a Primavera que hoje se iniciou às 9h 37m (a.m.), hora de Portugal, chegam os dias maiores e mais luminosos, uma natureza vestida de cor e, em cada detalhe, muita vida em latência brotando para um novo ciclo.

Todavia, apesar de tudo isso sempre me encantar, associo muito esta Primavera a uma “Esperança de Equilíbrio”…a um tempo-força que nos deixará mais próximo de uma estabilidade que acredito será possível nos próximos meses com o controle da pandemia pela vacinação.

E na sequência disso…

…a possibilidade de retornar, mesmo que lenta e progressivamente aos ritmos e gestos conhecidos

… aos afectos sentidos na pele

…à emoção das palavras e gestos sem máscaras

…à espontaneidade social

…aos passeios que não se fizeram

…às rotinas que deixaram saudades

…etc.

Para os que perderam o emprego, a habitação ou algum familiar/amigo durante a pandemia, ou para os que adoeceram e ainda não recuperaram totalmente, talvez os detalhes acima sejam um pouco secundários. Para eles, o equilíbrio estará em arranjar um novo emprego que lhes assegure o que tinham antes, no restabelecimento da saúde, ou no tempo interior necessário ao luto e à aceitação da perda.

Caberá a cada um perceber o que deverá colocar nos “pratos da balança da sua Vida”, para que a estabilidade se instale e seja real. Se for necessário ir à luta, mas sempre tentando envolver essa procura de esperança e de energias construtivas…

…como a boa energia que a Primavera gratuita e silenciosamente nos oferece todos os anos.

Boa Primavera!

(Que esta “esperança de equilíbrio” seja imensa e se estenda igualmente aos meus leitores do hemisfério sul que hoje abraçam o Outono! ) 

variação em dois temas…

É raro o dia do ano que não está associado a qualquer comemoração, sendo certo que as homenagens existentes variam entre o compreensível e o estranho, o que por vezes faz nascer em nós um curioso sorriso.

Verifiquei recentemente que no dia 11 de Março de 2021, hoje portanto, se comemorara o Dia Mundial do Rim… e o Dia Mundial da Canalização! Essa constatação levou-me primeiro a uma certa surpresa, seguida da sensação que isso poderia não ser por acaso e logo me questionando se haveria uma razão para se juntarem num mesmo dia.

Pensei um pouco e comecei de imediato a encontrar pontes de ligação…

…ambos implicam a presença de uma infinidade de “tubagens” de calibres diferentes onde circulam líquidos mais ou menos puros;

…o rim, ao funcionar como um filtro purificador do sangue excreta para a bexiga resíduos resultantes do metabolismo celular que não interessam ao organismo, funções que exigem um complexo sistema de canais, veias, artérias, arteríolas, etc,…

…diluídos em água, esses resíduos saem pela uretra para o exterior através da urina…e seguem, juntamente com outras águas residuais pela imensa rede de esgotos e tubagens que se desenvolve nos subterrâneos das nossas cidades, vilas, etc. até chegarem às ETAR’s…

…aqueles locais onde um complexo sistema de milhentas tubagens tratará em várias etapas essas águas até estarem capazes de serem reutilizadas na rega ou em lavagens de ruas. Outra parte, já livre de poluentes chegará ao mar e perder-se-á na sua imensidão…

…enquanto isto acontece… o ciclo da água prossegue na natureza, através da evaporação….formação de nuvens… e chuvas mais ou menos abundantes… que convergem para os rios e seguem para as barragens. Aí…

…consoante as necessidades das populações, será captada por enormes tubagens, depois purificada…e, por outra teia imensa de canalizações chegará a cidades, vilas, aldeias e lugares… e às nossas torneiras…

…onde, num gesto simples encherá o copo que temos na mão e irá saciar a nossa sede, hidratar o nosso corpo…

…e em nós, irá percorrer aquele imenso e maravilhoso sistema de canais e funções que somos, será absorvida e alimentará todas as células do nosso organismo, e será parte daquele sangue que continuamente, através das artérias renais chega ao rim para ser filtrado e purificado…num ciclo que se repete continuamente.

Ou seja, tudo tem a ver com tudo…e tudo tem por base a água, esse bem precioso que sustenta a vida neste planeta. Nele, para ser possível vivermos em condições mínimas de salubridade circula artificialmente por condutas, canais, tubagens, canos….e, no nosso corpo, será sob a forma de sangue e linfa que circula, utilizando uma intrincada rede de canais.

Desventurados serão – e são muitos ainda – os que não têm as infra estruturas básicas em suas habitações que lhes permita o gesto de abrir uma torneira de água potável ou de ter acesso a uma rede pública de esgotos.…como desventurados serão os milhões de seres humanos que em todo o mundo não têm os seus rins a funcionar saudavelmente e, enquanto aguardam eventuais transplantes, precisam de recorrer duas a três vezes por semana à hemodiálise, onde um intrincado e inventivo sistema de tubos e máquinas substituirá a função dos seus rins.

Mais uma vez, o que é aparentemente banal e dado como adquirido deve ser devidamente valorizado. E não o fazermos apenas quando algo falha, ou seja, quando um cano se rompe em casa, a água falta…ou quando os rins doem ou a sua função está alterada.

Por isso….sim, estes dias comemorativos têm realmente sentido!

2021

Nesta aventura de viver e de acompanhar a passagem do tempo chegamos ao desejado 2021, depois de um inesquecível, turbulento e esperemos que irrepetível 2020. Para muitos de nós, este primeiro dia do ano é o momento de olhar para uma nova agenda… de substituir o calendário na secretária ou na parede…e de encararmos estes novíssimos 365 dias como um “tempo limpo, aberto e disponível”.

O que lhe pedir?

Que seja saudável, íntegro, transparente e equilibrado
Que se revele um tempo gerador/guardador de mentalidades mais iluminadas, solidárias e menos egoístas
Que seja um período de paz, de união e sempre de cooperação

O que lhe podemos oferecer?

Empenho e verdade
Equilíbrio
A nossa curiosidade e espírito de descoberta
Atenção, cooperação, respeito e solidariedade
Gratidão
Genuína alegria

Fazendo uma analogia com o desenho acima, diria que a taça é o tempo “limpo, aberto e disponível” do novo ano, cabendo a cada um de nós proceder ao seu “enchimento” da forma mais adequada e de acordo com os objetivos e princípios que nos orientam.

Mas seja qual for o modo de o fazermos, não esqueçamos de acrescentar aquela irreverência saudável que a vida nos merece, de manter a curiosidade e um certo espírito de aventura, e ainda, de temperar tudo isso com uma genuína alegria. Enfim, não esqueçamos o nosso lado mais infantil e travesso…como esta dupla de coelhinhos sempre me recorda e insiste em mostrar.

Depois de um ano tão denso e sério, desejo a todos vós um 2021 progressivamente mais leve, solto e liberto!