a praia

Entre a tarde e a noite
de um dia de Verão,
a praia fluia
num tempo sem intenção.

Enorme
deserta
maré vazia…
reflexos na areia,
cheiro a maresia!

Templo de gaivotas
em tempo de liberdade,
elas e eu
talvez a felicidade!

(Dulce Delgado, poema antigo, não datado…mas sempre actual!)

de volta (II)

O corpo e a mente não acompanham ao mesmo ritmo o regresso ao trabalho no pós-férias.
O primeiro adapta-se melhor e rapidamente reaprende as rotinas…mas a mente, bem mais dispersa, vagueia entre esses dois tempos num saltitar irrequieto que apenas o passar dos dias permite tranquilizar um pouco mais.
Como sempre me acontece, mais uma vez estive dentro desse filme em modo bem activo. Por vezes até cansa esse  “deambular” sem sair do mesmo sitio…

Entretanto, a transição vai acontecendo porque a realidade se impõe e exige atenção e concentração. Contudo, não obstante este voltar à realidade, de vez em quando surgem sentires…imagens…detalhes que nos levam a esses dias…..

…a visão da maré baixa (que adoro!)
…os longos areais e os passeios matinais à beira-mar
…o primeiro banho de mar do dia, logo bem cedo e que nos faz sentir em comunhão com a Vida e com tudo!
…dormir na praia (tão bom!)
…o sabor de inesquecíveis bolas de Berlim
…a satisfação de degustar deliciosas sardinhas assadas


…e aquele dolce far niente que só os dias de férias permitem!

E há um momento, muito especial e bem diferente deste tipo de sentires que não desaparecerá da memória: o da imagem que inicia este post!

Este guarda-rios pousou a pouco mais de dois metros do observatório onde nos encontrávamos no parque Ambiental de Vilamoura. Vi-o, mas logo me escondi parcialmente para que o meu companheiro, em boa posição e já com a máquina ligada o pudesse fotografar devidamente.

Dada a proximidade do tronco em que esta pequena ave se encontrava, se naquele exacto momento eu ligasse a minha máquina, certamente ele voaria pois são aves muito assustadiças e que reagem ao  mínimo gesto ou som em seu redor.
Para nosso deleite, ele permaneceu alguns segundos naquele tronco. Virou-se para um lado, depois para outro e foi lindo, pois nunca tínhamos visto esta espécie tão próximo e com tanto pormenor. Não o fotografei, é certo, mas não tenho pena. Por vezes é importante saber parar e não querer demais…para que não se perca tudo.

Fico muito feliz em partilhar esta imagem captada pelo meu companheiro. É dele, mas indirectamente também é minha. E ambos sabemos que este silencioso momento das nossas férias nunca será esquecido!

de volta!

Em dia de regresso…

…começo por agradecer os muitos comentários deixados no ultimo post desejando-me boas férias e a que não dei resposta. O compromisso que fiz de me afastar duas semanas deste espaço foi literalmente cumprido, sendo certo que é importante distanciarmo-nos um pouco do que nos “prende” pois sempre voltamos com um olhar mais atento e renovado.

Agradecer faz parte dos meus dias, muitas das vezes em silêncio e centrada em pequenos detalhes. Hoje porém, para além do agradecimento inicial, também em palavras escritas eu gostaria de…

…agradecer o facto de tudo ter corrido sem precalços nestas duas ultimas semanas;

…agradecer os belíssimos dias de praia e de sol que aqueceram o corpo e aquietaram a alma;

…agradecer ao vento pelos dias em que decidiu soprar sem exagero do quadrante sueste e assim aquecer a água do mar algarvio como tão bem sabe fazer;

…agradecer ao mar não ter exagerado nas ondas e permitido deliciosos banhos entre o tranquilo e o activo;

…agradecer ao céu o seu belíssimo azul…e às nuvens, por não terem aparecido durante toda a semana de praia…mas apenas após esse período!

…agradecer à natureza alguns agradáveis passeios, assim como a possibilidade de observar e fotografar bastantes aves… apesar de Julho e Agosto serem os piores meses do ano para o fazer!

E por último…

…agradecer o facto de ter saúde e condições para poder desfrutar destes períodos fora de casa e das rotinas habituais… e em que os relógios, as notícias e a pandemia quase foram esquecidos!

…e por ter a meu lado um companheiro em doce sintonia na partilha de todos estes agradáveis momentos!

(E já agora agradeço o estarem a ler isto… e a me acompanharem novamente!🙂)

arriba fóssil

Atraí-me imenso tudo o que se relaciona com a geologia do nosso planeta e com os efeitos, formas e texturas que os elementos naturais lhe provocam através da erosão.

O território português é pequeno, mas apresenta uma grande diversidade de ambientes naturais, uns convertidos em parques naturais, outros em paisagens protegidas e muitos sem qualquer classificação mas igualmente interessantes.

A Área Protegida da Arriba Fóssil da Costa da Caparica foi criada em 1984 e, entre as suas várias componentes, tem uma arriba paralela à zona costeira constituída por estratos de rochas sedimentares com cerca de 10 milhões de anos (do período Pliocénico). Uma arriba fóssil é uma zona costeira alta, mas “morta”, ou seja, onde o mar já não chega e não lhe provoca erosão. Contudo, é afectada pelas chuvas, vento, temperatura, etc, que a vai desgastando e dando origem a formas muito peculiares.

Na costa portuguesa existem outros locais com arribas fósseis, mas creio que pelas características e antiguidade, esta é a única integrada numa área protegida.

Um percurso de alguns quilómetros ao longo do areal que separa o mar desta arriba permitiu-nos visualizar muitas formas de grande beleza e expressividade, imagens que hoje gostaria de partilhar.

A deposição de sedimentos diferenciados deu origem a estratos com várias colorações e sobretudo com diversos graus de resistência à erosão. Este facto levou ao aparecimento de formações não uniformes, seja em volumetria seja em textura.

Por tudo isso, esta paisagem é propícia a aliar a imaginação com o olhar e a vislumbrar o que a criatividade quiser. Nesta foto que se segue, por exemplo, facilmente encontro um conjunto de silenciosos seres numa marcha parada no tempo…

Uma aproximação à arriba através da máquina fotográfica (era difícil chegar perto devido ao terreno acidentado e à vegetação), permitiu perceber melhor a textura e os elementos constituintes de alguns desses estratos.

A par deste olhar mais terreno, outro bem mais aéreo ia acompanhando o voo das gaivotas sobre o mar…ou, na imensidão do azul do céu, estas “nuvens-ave” gigantes que livremente se deslocavam na tranquilidade do momento.

Num plano mais intermédio – entre esta terra que nos sustenta e o céu que nos aconchega – aproveitamos com prazer mais este momento de contacto com a natureza e a boa energia de um belíssimo dia de Primavera.

Depois de muitos quilómetros percorridos em areia, sentíamos bem o cansaço nas pernas. Mas estávamos felizes!

Boa semana!

limites

Portugal tirita de frio nestes primeiros dias de Janeiro e assim continuará na próximos dias. Ontem, na região de Lisboa as temperaturas variaram entre os 2 e os 9 graus Celcius, valores que o vento tornava ainda mais desagradáveis.

De regresso a casa, um céu intenso de fim de dia pedia uma fotografia, registo que aconteceu no lado oriental da Praia do Dafundo, localizada entre Algés e a Cruz Quebrada. Muito bem agasalhada mas apesar disso sentindo algum desconforto apreciei o momento com aquela boa sensação de sexta-feira à tarde e de véspera de fim-de-semana.

Deambulava o olhar por ali, quando de repente tive a maior surpresa do dia tendo em conta a temperatura que se fazia sentir: alguém tomava banho na praia!

Um arrepio percorreu o meu corpo enquanto a curiosidade fotográfica não resistiu a captar o que via, apesar da distância a que me encontrava.

Saindo da água estava uma senhora revelando uma enorme segurança corporal e confiança de gestos. A harmonia entre os tons do fato de banho e os sapatos era evidente, detalhe que achei maravilhoso dado o contexto. Depois, já no areal, limpou-se com a toalha e vestiu-se, seguindo depois caminho ao lado de um companheiro, esse sim vestido mais de acordo com o dia.

Entretanto, uma gaivota solitária continuava a vaguear à beira-mar….

E eu regressei ao carro e ao conforto de casa, envolta em vários pensamentos…

…a postura de segurança e confiança demonstrada por aquela mulher só poderia resultar de um gesto já conhecido e talvez habitual, sendo provavelmente uma daquelas pessoas que tomam banho de mar durante todo o ano, seja qual for a temperatura…

…tudo é relativo nesta vida. O que para mim e para uma grande maioria seria simplesmente inconcebível, para outros pode ser perfeitamente normal…

…se fosse um jovem a estar ali, talvez eu não ficasse tão surpresa com o facto. A surpresa maior foi o perceber que a idade daquela senhora não estaria muito longe da minha…

….e que eu nunca estaria ali!

…contudo, senti uma profunda admiração por aquela mulher, seja pela segurança e coragem demonstrada, seja por fazer uma escolha tão fora dos meus limites e da ideia que eu tenho de prazer para um dia muito frio de Inverno…

…e ainda por reforçar de uma forma muito objectiva aquela ideia que os “limites” devem ser uma fronteira ténue e suficientemente permeável aos limites, necessidades e opções das partes envolvidas. Na verdade, não há razão para o contrário desde que haja respeito, tolerância e aceitação mútua.

Já em casa, bebi um chá bem quente para aquecer o desconforto do dia. E pensei…estará ela fazer o mesmo para aquecer? Apreciará este gesto?

continuidade

Terminou o Verão e diluem-se no Outono os últimos instantes com sabor a praia. São momentos maravilhosos pela luz apaziguadora desta época do ano, pela tranquilidade que transmitem ao corpo e pelo amplo espaço que os areais com poucos visitantes permitem ao olhar. Tudo é paz. Ali não entram as incongruências do mundo.

É possível que ainda retorne à praia neste Outono, mas a despedida formal, aquele ultimo banho de agradecimento está em mim. Frio e intenso. Faz parte de um silencioso e íntimo ritual que acontece anualmente, como o ponto final de uma frase….cujo tema reaparece todos os anos a fim de escrever mais um parágrafo.

Entretanto, a vida seguirá pelos nossos dias. É esse o maior desejo. E na natureza também. Sempre.

Nesta praia da despedida e em todas as praias, a areia será movida pelo mar e pelos ventos.. e as ondas voluntariosas e artistas continuarão a desenhar na beira-mar as suas emoções. Todos os dias, sem falhar.

Em linhas simples e belíssimos caminhos de nada!

tavira

 

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Tavira é uma urbe que se localiza no sotavento algarvio – mais precisamente a leste desta província do sul de Portugal – e comemora este ano os cinco séculos da sua elevação a cidade. Mas são longínquos os antecedentes históricos da região em que se insere, sendo vários os povos que a invadiram e ocuparam. Os primeiros conhecidos são os fenícios no séc. VIII a.C., mas foram os romanos e os árabes que por ali passaram mais tempo, aproveitando a boa localização da cidade junto ao Rio Gilão e à Ria Formosa.

O facto de ter passado recentemente uns dias de férias nesta cidade e usufruído das belas praias da região, leva-me a partilhar algumas imagens assim como alguns aspectos que me parecem interessantes.

Começando pelas praias, refiro apenas os 11 km de areal existentes na ilha de Tavira – uma das cinco ilhas barreira que protegem a Ria Formosa – e que é acessível por barco a partir da cidade de Tavira e da vila de Santa Luzia, que lhe fica próxima. Para a Praia do Barril, também nesta ilha, existe a possibilidade de ir a pé ou num pequeno comboio que atravessa o sapal sobre uma ponte aí construída.

São praias belíssimas, amplas e em que a água do mar tem uma temperatura média de 22/23ºC. Enquanto ali permanecemos a temperatura esteve nos 24/25ºC, o que foi  simplesmente fabuloso.

 

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Voltando à cidade de Tavira, esta é muito harmoniosa contrariamente a outras do Algarve em que a pressão turística levou à construção desenfreada de edifícios com grande altura. Aqui, a linha do horizonte não foi invadida por prédios altos, o que é muito agradável de constatar.

Nas duas imagens que se seguem, partilho um aspecto da cidade visualizado a partir do Castelo, uma fortaleza conquistada aos muçulmanos por volta do ano 1240 d.C. e ainda um detalhe do interior desta construção fortificada.

 

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Um olhar mais pormenorizado sobre a cidade permite perceber que mesmo as construções mais recentes harmonizam de certa forma com a traça original, seja em volumetria seja em certos detalhes arquitectónicos.

 

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O branco predomina nas fachadas e reflecte o quente sol algarvio. Aqui e ali, zonas de lazer, jardins e esplanadas permitem o descanso e a frescura que se deseja nos dias de maior calor. A Praça da República, onde se encontra o edifício da Câmara Municipal é um desses locais de encontro.

 

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São muitas as igrejas que pontuam a cidade com as suas torres brancas. Partilho apenas um aspecto geral e um detalhe da Igreja Matriz de Santa Maria do Castelo, hoje monumento nacional, e que se diz que terá sido construída entre os séculos XIII e XIV sobre a antiga mesquita.

 

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O rio que atravessa a cidade e que nasce na Serra do Caldeirão, tem dois nomes: Séqua até à ponte romana e Gilão até à foz, o que acontece na zona das Quatro Águas em plena Ria Formosa. Corre tranquilo, espelhado e refresca o ar e o olhar.

 

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A chamada Ponte Romana, já muito transformada mas ainda com algumas características dessa época, é umas das ligações pedonais existentes entre as duas margens do rio. No coração da cidade une as praças mais procuradas e é percorrida por muitos locais e turistas, sendo certo que este ano estes últimos estão bastante ausentes.

 

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Nas grades de protecção dessa ponte, assim como acontece em imensas passagens pedonais noutros lugares do mundo, os cadeados estão presentes e relembram amores anónimos que por ali passaram. Amores de hoje… e muitos certamente já do passado e dissolvidos no tempo.

Não deixa de ser curiosa esta necessidade humana de tentar materializar e  “eternizar” sentimentos tão íntimos e sensíveis de uma forma tão rígida, metálica e fria. Faz-me pensar…

 

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Ficam os cadeados como instantes de um tempo que passou… e fica igualmente por aqui este meu olhar discreto sobre a cidade.

O resto é para descobrir, porque Tavira e o seu concelho têm muito para nos oferecer.

Em harmonia, guardam lugares, história, locais de culto, natureza, belas praias, muito mar e, principalmente, um tempo de muita tranquilidade pronto a ser apreciado.

 

 

 

 

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