amigos da nespereira

 

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Um ano……outro……e outro mais, e todos os anos eles voltam à nespereira! Sempre!

Entretanto a árvore continua a crescer…

E eu  tenho mais um ano de idade……e outro…..e outro mais……

Em cada Primavera a nespereira dá frutos para as aves que a procuram. Literalmente.
O acesso a esta árvore não é fácil e a verdade é que nunca vi humano por perto. Mas o dia não tem apenas as minhas horas de trabalho, período em que o meu olhar a pode espreitar.

Os periquitos-de-colar são os mais ávidos e expressivos. O seu tamanho e colorido favorece essa percepção. Pombos, melros, pardais e outras pequenas aves também se deleitam com tal néctar.

Por muito devagar que se abra a janela para os fotografar, uma nesga apenas…é gesto suficiente para que o detectem e fujam!  Sempre que tal acontece sinto-me “culpada” por mais uma vez interromper tão aprazível momento.

Saio da janela, volto para a minha actividade…. e estou certa que em breve eles voltarão para continuar a sua.

Muito raramente, algum mais concentrado (ou surdo…), demora mais tempo a reagir e torna uma fotografia viável. Como as duas que inseri no post.

Nesta última, creio que ele até me estava a cumprimentar!

 

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Se nos próximos cinco anos continuarmos este “jogo”, será um bom sinal para mim e para eles!

 

 

 

 

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vida aventura

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Há quem aprecie insectos e quem os deteste.

Eu gosto, numa relação inversamente proporcional ao gosto que eles demonstram pela minha pele. É claro que uns são mais interessantes do que outros mas, na generalidade, aprecio a sua leveza, subtileza, resistência, função e, em muitas espécies, a beleza.

Muito recentemente, um insecto diferente dos habituais decidiu entrar em minha casa. Era noite quando o encontramos na dispensa e, parecendo morto, ficou sobre a mesa a fim de o observar melhor no dia seguinte.

De manhã, bem vivo, passeava tranquilamente na superfície onde o deixara. Percebi que era bonito, mas só a sessão fotográfica que se seguiu revelou a textura e as cores metalizadas do seu corpo. Algumas pesquisas realizadas levam-me a supor que se tratava de uma Chrysolina americana Linnaeus, 1758

Depois….

…transportado numa pequena caixa levei-o cuidadosamente para um jardim e depositei-o num canteiro com flores. Não sei se o local foi do seu agrado ou se terá ficado aborrecido pelo facto de eu contrariar o seu esforço na busca de um tecto…

…contudo, não tenho dúvida que escolheu a habitação certa para tal aventura. Para além de encontrar gente amigável que lhe poupou a vida e o apreciou, ainda foi fotografado e irá perdurar num post, algures no éter…na “nuvem”…ou por aí…

Até na vida de um insecto, há dias em que as energias e o destino estão de acordo!

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o humor dos dias

 

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Limpo
alaranjado
cinzento
ou chuvoso,
o dia acorda
lento
e silencioso.

No ar,
uma energia
que gosto de acompanhar,
com o corpo
e o olhar
num calmo respirar.

Então…

…no meu trajecto diário
e matinal
pelas margens da capital,
em vários dias parei
naquele lugar,
a fim de fotografar
a poesia
a energia
e o humor de cada dia.

Seis dias…seis imagens…

Em cada uma
um sentir
único e pessoal,
talvez alimento visual
para o humor do meu dia!

 

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Imagens captadas em Lisboa perto das oito horas da manhã, nos dias 28, 29, 30  e 31 de Janeiro e a 1 e 4 de Fevereiro, de um ponto localizado entre o Padrão dos Descobrimentos e a Torre de Belém.

 

(Dulce Delgado, Fevereiro 2019)

 

 

 

ver com outros olhos

 

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O meu olhar permite-me ver e com ele preencher de imagens os meus dias. É naturalmente sentido como um dado adquirido, a que apenas damos o real valor quando confrontados com a sua falta ou perante situações em que nos apercebemos da realidade de outros que estão impedidos de o ter da mesma forma.

Ver com outros olhos é o título de uma exposição que resultou de uma parceria entre o Movimento de Expressão Fotográfica (MEF) e a Fundação Calouste Gulbenkian através de um projecto associado à arte, no qual foram convidadas pessoas de várias idades e com problemas de visão (amblíopes e cegas totais), para que registassem em imagens algo que tivesse a ver com a sua vida, vivência, percurso, gostos, sonhos, etc. Alguns conseguiram fazê-lo sem ajuda, outros descreveram a sua imagem e construíram-na com o apoio de outros.

Mais do que apostar na criatividade de pessoas com dificuldade de visão, esta exposição aposta na profunda sensibilidade que revelam, quer na escolha de detalhes quer nos pensamentos partilhados e que acompanham as imagens. A exposição é composta por vários módulos baseados em conceitos diferentes.

Todo o espaço expositivo está preparado para ser percorrido e sentido sem o olhar, impondo-se o táctil e o sonoro. Apesar de saber que “Ser cego não é fechar os olhos”, uma das frases que recordo da exposição, em vários momentos tentei agir como se fosse invisual, ou seja, fechei os olhos e senti/ouvi o que me era apresentado. Só posteriormente os abria e confrontava o que tinha percepcionado com a realidade, o que se revelou uma experiência estranha, diferente, mas muitíssimo interessante.

O olhar é uma forma fácil de nos relacionarmos com o mundo. Quem não o tem, desenvolve a “sabedoria dos sentidos” a partir de uma profunda e dorida aprendizagem nascida das dificuldades. E assim constrói um mundo semelhante ao de todos nós e composto igualmente de alegrias, tristezas, sonhos, devaneios, criatividade, paixões e tudo o mais que possamos imaginar. Mas sem facilitismos.

Esta exposição estará patente na Fundação Calouste Gulbenkian (Piso 0), até ao próximo dia 12 de Novembro e tem entrada livre.

 

José Oliveira, um amigo sempre presente neste blog, não só me alertou para a existência desta exposição, como continua a colaborar com o projecto que levou à sua montagem.
A imagem inicial é uma parte de um cartaz sobre a exposição e foi retirada de  https://irisinclusiva.pt/index.php?oid=3138&op=all
A fotografia original é da autoria de Igilcia Andrade / MEF,

 

 

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Neste dia, há trinta e cinco anos, nasceu a minha filha. Foi um momento tranquilo, como tranquila tem sido a proximidade que nos une baseada em sensibilidades muito semelhantes.

Sempre que possível, ela tenta diferenciar este dia e fazer uma pequena viagem. Este ano está em Barcelona, bem acompanhada e feliz. Como qualquer mãe gosta de saber!

A ela dedico estas palavras e a fotografia, que creio apreciará pela simplicidade. Para mim, esta imagem é uma forma sublime de expressar a Vida que nos anima…

…como uma continuidade de fluxos…

…de movimentos ordenados ou aleatórios…

…encontros e desencontros…

…energias que fluem na superfície do nosso sentir…

…um tempo sem margens nem limites…

…e de muitos afectos, que deslizam na pele dos dias!

 

Sendo hoje um dia especial em afectos…

…Muitos Parabéns filha, e um grande e maternal abraço!

 

 

 

instagram

 

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A necessidade de modernização tecnológica das novas gerações levaram-me a herdar há perto de dois anos um velhinho iPhone…e com ele um mundo totalmente novo, tendo em conta o telemóvel clássico e básico que então possuía.

Mais do que a sua óbvia utilidade em muitas situações práticas, com ele fui levada a descobrir a rede social de partilha de imagens Instagram e uma linguagem do olhar que ainda não tinha explorado de uma forma tão continuada.

Tem sido extremamente gratificante perceber como a nossa sensibilidade se pode tornar permeável ao que nos rodeia quando insistimos em traçar um caminho baseado na disponibilidade e na atenção. Abrimos-nos para o mundo e, reciprocamente, ele faz o mesmo, sendo muitos os detalhes envolventes que atraem o nosso olhar como um íman.

Como poderão verificar nas imagens que integram este post e que representam uma pequena amostra das já publicadas, aprecio uma linguagem simples, minimalista, em que predominam as linhas, a natureza, o detalhe e sempre algum espaço de respiração. Pontualmente a imagem é mais densa, mas terá certamente algo que lhe dará alguma fluidez, leveza ou transparência. Não uso filtros nem artifícios informáticos. Apenas o olhar servido ao natural! Quero ainda acrescentar que não sou uma instagramer fundamentalista, pois algumas das imagens foram obtidas com máquina fotográfica.

Discretamente convido-os a conhecer a dulce-em-pausa. Estou certa que será uma viagem tranquila!

 

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(Creio que quem não pertence a esta rede social de imagens, só poderá aceder ao link através de um computador).

 

 

 

olhares lugares

 

 

Agnès Varda é cineasta, fotógrafa e brevemente fará 90 anos; JR é o street artist Jean Réné, igualmente fotógrafo e agora com 34 anos.

Quando se conheceram em 2015, a cumplicidade foi notória e crescente apesar do meio século que os separa. Por esse facto surgiu a ideia de iniciar um projecto em comum, tendo como ponto de partida a sensibilidade e o gosto pela fotografia que ambos partilham.

Iniciaram então uma viagem pelas estradas secundárias de França, de onde resultou um documentário ao estilo roadmovie a que deram o título de Visages Vilages, nome que em Portugal foi traduzido como Olhares Lugares.

Essa viagem foi realizada numa carrinha transformada em máquina fotográfica gigante, uma espécie de laboratório ambulante que “imprime e expele” imagens a preto e branco em formato grande, facto que acabou por gerar muita curiosidade por onde passavam.

As imagens obtidas resultavam do contacto e diálogos estabelecidos com pessoas  encontradas em diversos lugares e situações, assim como da sua forma de estar e sentir, actividades e meios de subsistência. Mas todas as imagens revelavam o olhar artístico de ambos sobre essas personagens reais. Numa fase final, as impressões em papel foram coladas em locais específicos e sempre relacionados com a vivência dos fotografados, seguindo a técnica que caracteriza o trabalho artístico de JR.

O resultado desta viagem é um delicioso documentário sobre o quotidiano, a vida, a alegria de viver e a expressão artística, onde não faltam também interessantes diálogos sobre o passado, a morte, as escolhas ou as diferenças entre gerações. Mas toda a dinâmica se centra no profundo respeito que nasceu entre os dois como seres individuais, e neste papel em que são simultaneamente realizadores, actores, artistas e viajantes.

Com personalidades e traços identitários muito fortes e diferenciados, Agnés Varda e JR oferecem-nos noventa minutos de inteligência, partilha, humor e de imensa ternura.

Acrescento ainda que este filme se encontra nomeado para a próxima edição dos Óscares na categoria de Melhor Documentário.