ondas

 

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Uma onda…
outra…
e outra mais…
muitas ondas…

Linhas deslizantes
que se cruzam
neutralizam
e ultrapassam
no tempo de um olhar.

Desejos fluidos
do mar
nascidos em cada instante,
seja ao longe
na linha do horizonte,
ou aqui,
na beira deste lugar
tão fácil de eu amar!

Uma onda…
outra onda…

Serão as ondas
as mãos do mar
que acariciam a beira-mar?

 

 

(Dulce Delgado, Outubro 2018)

 

 

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ao tempo

 

tempo

 

Na clara evidência dos dias
a vida escorre
em horas sem consciência,
horas
que o tempo leva
fugindo da nossa existência.

Quero tempo,
quero horas, minutos e segundos
limpos
e sem dependência,
quero a vida aproveitar
em pleno
em paz,
e sem sentido de urgência!

 

Quero tempo…

 

 

(Dulce Delgado, Outubro 2018)

 

 

as voltas da mente…

 

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Penso…
nisto
naquilo
no além…

Para quê pensar
aqui,
neste lugar?

Ajuda o meu respirar?
Melhora o meu olhar?
Impede o dia de terminar
neste tão belo lugar?

Não!

Então,
hoje não quero pensar,
mas apenas estar
aqui,
a apreciar!

Quero…mas não consigo…

…porque a mente abre o postigo
salta do escuro abrigo
e começa a saltitar,
aqui,
em mim
no fundo do meu olhar
a desfocar o sentir
e a paz deste lugar!

Talvez…
…pôr a mente de castigo?

 

 

(Dulce Delgado,  Setembro 2018)

 

 

 

ao outono…

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Com o fim do Verão, instala-se progressivamente uma certa acalmia nas energias que nos movem.  Se por um lado sabe bem essa travagem, por outro fica um certo saudosismo do tempo que termina, um período de maior movimento, luz, cor, energia e actividade. É um tempo naturalmente diferente, porque é diferente a energia que o modela.

Apesar de estar um dia abrasador, o Outono entrou hoje no calendário e na nossa Vida. Por isso partilho um poema que, sempre que o leio, associo à energia do Outono…à energia do “olhar para trás”… da nostalgia… da saudade…e de uma certa interiorização.

Foi escrito em 1949 por Teixeira de Pascoais (1877-1952), o autor mais representativo do saudosismo português, aquele estado de alma tão associado ao nosso povo. Apesar de não apreciar muito essa visão nem a forma como por vezes ele a expressa, gosto deste poema pela simplicidade, pelo olhar sobre o tempo, seja na vida que passou ou na natureza que se modifica.

Com ele, fica o meu desejo de um Outono (que para outros será Primavera), conjugado ao gosto e ao tempo de cada um!

 

Que saudades eu sinto desta flor,
Que vai murchar!
E desta gota de água e de esplendor,
Um pequenino mundo que é só mar.
E desta imagem que por mim passou
Misteriosamente.
E desta folha pálida e tremente
Que tombou…
Da voz do vento que me deixa mudo,
E deste meu espanto de criança.
Que saudades de tudo eu sinto, porque tudo
É feito de lembrança…

 

 

Versos Pobres (LXVII) – Poesia de Teixeira de Pascoaes
Org. de Silvina Rodrigues Lopes
Lisboa, Editorial Comunicação, 1987

 

 

 

carícias ondulantes

 

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Rasga o barco a superfície do rio…

Na água, um arrepio
branco
de espuma
penetrante
e frio.

Mas em breve
surgirá novo sentir…

…porque as ondas
divergentes e ondulantes
nascidas desse frio,
são carícias que percorrem
a pele do rio…

…doce
e lentamente…

…até desaparecerem
no azul,
no meu olhar
e no vazio!

 

 

(Dulce Delgado, Agosto 2018)