voláteis ideias

bol

Transparentes,
as ideias voam
pelo ilusório espaço do pensamento.

Algumas ficam,
deixando um rasto de semente plantada
à espera de ser
e de um dia acontecer.

Outras,
naturalmente desaparecem
no cansaço do tempo
e na falta de memória.

Mas,
sem raízes,
não haverá ideia nem história!

 

 

(Dulce Delgado,  Outubro 2017)

 

 

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entre a água… e a música!

 

Um breve movimento
e a vida sai em torrente,
liquida
fresca
e transparente.

Vida
quase ignorada
nesse acto banalizado
de abrir uma torneira,
acção breve
e rotineira
a que apenas damos valor
quando a água aí rareia.

Gesto simples
mas vital
que de nós merecia,
atenção
e gratidão
ao longo do dia-a-dia!

 

Este poema não é recente e surgiu após um corte de água em minha casa, situação sempre incómoda mas muito interessante pela reacção que nos provoca.

Esperava uma ocasião propícia para ser partilhado, momento que surgiu quando há pouco percebi que hoje se comemora em Portugal o Dia Nacional da Água e que se inicia o ano hidrológico, eventos que acontecem num período em que as reservas hídricas do país estão assustadoramente abaixo do desejável. Contudo, a água ainda continua a sair das torneiras… e a cair na nossa indiferença!

Mas este nosso dia nacional é hoje acompanhado por algo maior em dimensão, o Dia Mundial da Música. Esta complexa arte que brota da criatividade de muitos, existe igualmente de uma forma mais simples e minimalista na natureza e nos imensos sons que ela produz e nos oferece, sendo talvez um dos mais agradáveis e tranquilizadores o da água a correr num riacho ou a jorrar de um fontanário.

A água alimenta o corpo…e a sua “música” alimenta a alma…

…por isso, neste dia de água e de música… apreciemos devidamente e com gratidão as “fontes” que estão na sua origem!

 

 

 

às vezes é um insecto…

 

capturar

 

Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme, é o título de um pequeno livro de poemas da autoria de Nuno Costa Santos, português, escritor, dramaturgo, guionista para cinema e autor de programas radiofónicos e televisivos.

A editora, a Companhia das Ilhas, refere que o livro “…aborda temas do quotidiano, ou do modo como transformar as nossas vivências em palavras partilháveis. Uma linguagem simples e depurada, mas segura e rigorosa, que nos cativa para a leitura.”

Para além desta edição de bolso que me cativou pelo título, nada mais li deste autor. Contudo, tal como o link indica, tem outras obras publicadas.

Seguem-se quatro poemas que revelam um pouco da linguagem de Nuno Costa Santos e o seu modo singular de escrever poesia.

 

Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme

Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme
um zumbido que detona o coração.

Às vezes é uma virgula que tomba na frase
uma cabeça que desaba num ombro qualquer.

Às vezes é um fósforo
que resplandece venturosas entradas
no dicionário dos dias.

Às vezes nem isso.

Às vezes é um sopro que revira o mundo
no ventre do tempo
como quem se prepara para uma nova vida.

 

Google imagens

O mais velho convoca-me para a pescaria.
Lá vamos nós de canas de pesca,
pelas águas virtuais dentro.

Capturamos de tudo.

Peixes de mar mais profundo. Peixes de aquário. Peixes de desenho animado. Peixes de galeria nova-iorquina.

O rapaz cala-se, poético e atento, como se tivesse percebido as regras do ritual. E, ao som de cliques, o pescador vai lançando o isco cada vez mais longe, à procura de novas e novas e novas (e novas) espécies.

Dantes fazia-se isto no mar

 

Perdoa-me

Perdoa-me esta tristeza
de súbito revelada

(já passa
como passam as nuvens
e as notícias em rodapé).

este ar de passarão triste
estes olhos de boga
este contrato a termo incerto com o pensamento.

Não é nada

sou só eu
de vez em quando.

 

Lembrete

Tenho de ligar à alergologista mas não o faço
estou na minha hora da poesia.

Tenho de fazer alterações a um texto mas adio
estou na minha hora da poesia.

Tenho de passar um recibo verde mas espero
estou na minha hora da poesia.

Tenho de tratar da vida mas aguento
estou na minha hora da poesia.

Tenho de arquivar as obsesões e o medo mas protelo
estou na minha hora da poesia.

Agora já posso ir.

 

 

Imagem retirada de
http://companhiadasilhas.pt/books/as-vezes-e-um-insecto-que-faz-disparar-o-alarme/

 

 

pela areia

 

IMG_1080ab

 

Percorrer a beira-mar,
é afagar a fronteira entre a terra e o mar.

Caminho
de olhares que se cruzam,
de conversas
perdidas na maresia
e de memórias,
que contornam a maré cheia
e preenchem a vazia.

Deixa cada passo
uma marca na areia,
afagos
de humana energia
que suavemente se unem
sem medo de se tocar.

Marcas efémeras
que as ondas irão apagar,
e com elas levar
a doce energia
que no mar ficará
para sempre a flutuar!

 

 

(Dulce Delgado, Setembro 2017)

 

 

 

sombra ausente

IMG_1308 - Cópia

Somos gente,
matéria e sopro de vida
em corpo de sangue
quente,
gente de fé
de pensamento
e de tanto sentimento!

Mas somos sombra
igualmente,
sombra parceira da luz
elástica
fresca
e transparente,
sombra eterna
que nos persegue
ao ritmo do movimento.

Sombra
sempre anulada
pelo brilho de um espelho,
face única
e transcendente
onde a sombra fica ausente
e a luz
é permamente.

Face de viva magia
fronteira do aparente,
lugar imagem…
lugar miragem…
mas sempre lugar de viagem
ao outro lado da gente!

 

 

(Dulce Delgado, Setembro 2017)

 

 

gaivotas

 

1

2

3

 

Levantam e pousam
as jovens gaivotas
na superfície do mar.

Aprendizes do vento,
da liberdade
da sobrevivência
e da vida,
repetem ruidosamente
esse jogo de crescimento.

Mas tudo na vida tem o seu tempo.

É ainda nos pais
que procuram o alimento,
num estranho ritual
de sons
de movimentos
e disputado entre irmãos
de modo agressivo
e turbulento.

A vida e a natureza
entrando pelo meu olhar,
pura
dura
real,
mas sempre,
sempre a me cativar!

 

(Dulce Delgado, Agosto 2017)
(Fotografias de Jorge Oliveira)

 

 

olhar neblina

 

nebla

 

Atraente,
espreguiça-se a praia pela beira-mar
levando consigo o meu olhar.

E ele vai,
leve
livre
feliz
voando pelo ar
ou nas ondas a saltitar.

Ao longe,
encontra as neblinas
e com elas se envolve
num breve dançar.

Muito breve…

…depressa ele se esfuma
na magia do ar,
perdendo-se
na luz
na maresia
e no amar,
belo e com sabor a sal,
que une a areia e o infinito mar!

 

 

(Dulce Delgado, Agosto 2017)