nuvem viajante…

 

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Olhei,
e vi um pássaro gigante no céu da minha janela…

Seria uma nuvem-pássaro…
um pássaro-nuvem…
ou apenas
esta voadora imaginação?

Talvez fosse uma nuvem distraída que se perdera de outras
e veloz,
as tentasse apanhar…

…ou uma nuvem exploradora da liberdade
deambulando pela vida
pelo mundo, pelo vento
e pelo ar!
Talvez uma nuvem a viajar!

Amanhã,

também eu irei “voar” pela liberdade das férias
respirando paisagens,
olhares
e lugares
desta terra lusitana.

O corpo e a mente
precisam muito de descansar,
e o blog,
discretamente
ficará a aguardar!

 

Isto significa que nas próximas duas semanas não irei publicar nem vos irei acompanhar! Até breve!

 

(Dulce Delgado, Julho 2019)

 

 

 

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pontes de liberdade

 

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Em tons de elegância, esta ponte que une as duas margens do Tejo adquiriu em 1974 o nome de “25 de Abril” em homenagem ao dia da liberdade acabada de conquistar pela revolução dos cravos.

O termo “ponte” simboliza…

…passagem e união…

Fazendo a “ponte” com a data que hoje se comemora – 45 anos sobre o 25 de Abril de 1974 – Portugal agarrou a democracia, ligou-se ao mundo e saiu de um isolamento de várias décadas. A partir desse dia e desse tempo de passagem para outro modo de estar, a união de ideias e de ideais aconteceu naturalmente, sem repressão nem medo.

…liberdade de circulação/acção/movimento…

Paralelamente, essa liberdade foi sentida no corpo e na pele, a par da liberdade de expressão e de voto, actos até aí totalmente controlados pela censura, por eleições em que apenas alguns votavam num partido único e por uma polícia política actuante e que tudo minava.

…partilha de experiências e de possibilidades….

Sobre um rio de desigualdade, de pobreza e de impossibilidades, os militares de Abril construíram uma ponte para a partilha de experiências e de possibilidades, tendo por base a liberdade e a democracia. Em pouco tempo essa ponte chegou a África e à descolonização, tornou viável a criação de um serviço de saúde universal, expandiu o ensino obrigatório e deu voz à mulher. Entre muitas outras coisas.

Quarenta e cinco anos depois, é certo que alguns problemas existem nesta “ponte de princípios” sempre em construção e precisando de constante manutenção e atenção. Mas os dois pilares principais que a sustentam, a liberdade e a democracia, estão sólidos.

E isso é o mais importante.

 

 

 

miguel torga

 

torga

 

Adolfo Correia da Rocha foi buscar o segundo nome do seu pseudónimo a um arbusto da família da urze que se desenvolve espontaneamente em terrenos pobres e agrestes. Essa planta é a torga, também chamada de queiró ou leiva, uma espécie muito resistente e lutadora, como a natureza do homem que o escritor Miguel Torga tanto admirava e valorizava.

Torga não acreditava nos Deuses nem no seu virtuosismo, porque eles não sabiam o que era uma vida de trabalho e de luta. O homem sim, sabia-o bem, porque o fazia todos os dias nas piores condições, trabalhava a terra, fazia crescer, moldava e conhecia a natureza, sofria, era um resistente e um sobrevivente. Para ele o homem merecia todos os louvores.

A sua própria vida contribuiu para esse sentir. Foi trabalhar para o Brasil aos dez anos, com a energia e a resistência das terras de Trás-os-Montes onde nasceu. Insubmisso ao que lhe pediam, voltou no ano seguinte para um seminário em Lamego que o acolheu e educou. Mas não para ser padre, porque esse não era o seu caminho.

Aos treze anos voltou para o Brasil a fim de trabalhar na fazenda de um tio. Esse familiar ao perceber o seu potencial patrocinou-lhe os estudos, primeiramente naquele país e mais tarde em Portugal, onde se formou em medicina na Universidade de Coimbra.

Começou a exercer essa actividade com 26 anos nas terras agrestes onde nasceu e que foram o grande palco da sua vida, seja como humanista junto dos mais desfavorecidos, seja como escritor, poeta e ensaísta. O que vida lhe mostrou foi moldando as suas convicções, rebeldia, inconformismo, sensibilidade e um espírito sempre livre, onde os homens, os animais e a natureza tinham um lugar especial.

Miguel Torga morreu em Coimbra em 1992, faz hoje precisamente vinte e sete anos. Escreveu muito, publicou dezenas de livros e, como médico, proporcionou uma melhor vida e saúde a muitos dos homens e mulheres que tanto admirava.

É essa consciência do sofrimento do povo e a sua luta, que creio estarão na base de um dos seus poemas que muito aprecio, cujo título é Sífiso. 

Antes porém, e a fim de melhor o enquadrar, é importante dizer que Sífiso foi um ser da mitologia grega que por ter enganado os Deuses teve a punição eterna de empurrar montanha acima uma grande pedra. Contudo, quando estava perto do cume, uma força desconhecida fazia-a rolar até à base. Apesar disso, ele sempre recomeçava uma nova subida. O outro lado significaria talvez a liberdade, por isso Sífiso nunca desistiu.

Também na vida dos homens e das mulheres que Miguel Torga tanto admirava, tal como na vida de todos nós, as dificuldades e os recomeços são uma realidade.

Como em Sífiso ele tão bem descreve.

 

Sífiso

Recomeça…
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

 

 

Imagem retirada de:
https://observador.pt/2015/01/17/casa-museu-miguel-torga-evoca-medico-e-escritor-nos-20-anos-da-sua-morte/

 

abril de liberdade

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Quarenta e quatro anos passaram sobre o 25 de Abril de 1974, uma das datas mais importantes na dinâmica do meu país. Um tempo curto na história de Portugal, mas bem mais amplo no contexto da vida humana, apesar de certamente ser sentido por muitos como um sopro que passou apressado e a correr.

Em Abril de 1974 eu tinha quinze anos, o que significa que três quartos da minha existência foram vividos respirando a liberdade conquistada nesse dia. Até essa data, não era minimamente politizada para perceber o que se passava no país. Sabia apenas que havia a guerra do Ultramar, algo que acontecia muito longe e que não afectou directamente a família porque as mulheres sempre predominaram.

Posso afirmar que a falta de liberdade que então existiria não afectou a liberdade que eu apreciava e que se baseava no silêncio, na calma e numa criativa solidão. E quando precisava de sociabilizar, o que me era permitido era mais do que suficiente, não sendo gerador de conflito nem de nenhum desejo inconsciente de liberdade. Diria que a vida simplesmente fluía nas paisagens a sul do meu país, entre a vida escolar, a leitura, a escrita, o mar, a praia e os seus areais, espaços que eram usufruídos com prazer durante grande parte do ano.

Só a partir desse Abril é que me apercebi, progressivamente, da “ignorância” em que vivia, seja quanto à conjuntura política, seja sobre o sofrimento de tantos resistentes que lutaram por esse dia. Esse abrir de olhos foi mais marcante quando, um ano mais tarde vim residir para Lisboa e, com a democracia ao rubro, compreendi através da cultura, da informação então disponível e no dia-a-dia, a real importância da vivência em liberdade.

Nesses idos quinze anos da minha adolescência, apenas o acto de pensar no futuro e nos quarenta de idade ou no enigmático ano 2000 era algo estranho e facilmente associado à velhice. Nunca imaginei que chegaria a este longínquo 2018 e aos sessenta que espero ele me ofereça em breve. E muito menos pensei que a liberdade dada por esse 25 de Abril de 1974 me permitiria “alimentar” com toda a autonomia um espaço como este, discreta ou indiscretamente, cujos limites são apenas impostos por mim e pelo meu senso.

Olho com muita ternura para a ignorância que tinha nesses tempos, ou melhor, para algo que fica entre a ignorância e a inocência. Assim como olho com um profundo respeito para todos os que activa e conscientemente lutaram, sofreram e morreram durante décadas para que aquele dia de Abril fosse uma realidade. E para que hoje, as palavras sejam naturalmente possíveis.

Não tendo a imagem de um cravo vermelho, a flor-símbolo deste dia para iniciar o post, inseri a de outra espécie, cujo nome desconheço mas que me faz companhia na janela.

Chama-se a isto… “liberdade” criativa…ou “liberdade” de escolha!

 

 

gaivotas

 

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Levantam e pousam
as jovens gaivotas
na superfície do mar.

Aprendizes do vento,
da liberdade
da sobrevivência
e da vida,
repetem ruidosamente
esse jogo de crescimento.

Mas tudo na vida tem o seu tempo.

É ainda nos pais
que procuram o alimento,
num estranho ritual
de sons
de movimentos
e disputado entre irmãos
de modo agressivo
e turbulento.

A vida e a natureza
entrando pelo meu olhar,
pura
dura
real,
mas sempre,
sempre a me cativar!

 

(Dulce Delgado, Agosto 2017)
(Fotografias de Jorge Oliveira)

 

 

areia sentida

 

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A cada estação do ano associamos determinados rituais. Com o final da Primavera e o início do Verão, o corpo ganha um protagonismo diferente, desnuda-se e solicita um vestuário e calçado mais leve, num ritual que leva a pele a inspirar lentamente a sensação de “ar livre”. Esse progressivo arejamento permite também uma maior fluidez de gestos e atitudes.

Uma das melhores sensações que estas estações do ano nos oferecem, é o momento em que, depois de meses de recolhimento entre meias e sapatos, os nossos pés finalmente libertos penetram na macieza da areia seca de uma praia. Eles ficam felizes…e riem…apertam a areia… afagam…quase dançam!

É uma sensação que dura segundos, apenas o tempo dos primeiros passos ou até a mente se distrair e nos levar para outro sentir.

Momento bastante efémero, sem dúvida…talvez até indiferente para muitos…talvez desagradável para os que não gostam de areia…mas pessoalmente, um momento marcante, inspirador e deveras libertador!

 

 

liberdade e insensibilidade

 

A Cadeia do Aljube, o Forte de Peniche ou as sedes em Lisboa, no Porto e em Coimbra da antiga polícia política PIDE-DGS, foram lugares de ausência de liberdade, de resistência, de violência física e psicológica, de tortura, sofrimento e morte.

Com a revolução ocorrida em 25 de Abril de 1974, faz hoje precisamente 43 anos, conquistamos uma democracia que permitiu a liberdade de acção, de informação e de expressão, e ainda a liquidação dessa repressiva polícia política. Os locais onde ela actuou tornaram-se espaços de difíceis memórias para os que lá estiveram e conseguiram resistir, e quase esquecidos para os que nunca neles entraram.

Entretanto passaram mais de quatro décadas.

Na sede do Porto foi instalado um Museu Militar;
A Cadeia do Aljube em Lisboa foi reconvertida em Museu do Aljube/Resistência e Liberdade;
E o Forte de Peniche, sabe-se agora que será adaptado para espaço museológico sobre a história da Resistência, ficando outra parte afecta a actividades relacionadas com o mar.

Porém…

… na sede de Coimbra funciona desde 2015 um hostel
… e na de Lisboa, a principal dessa macabra polícia, um condomínio de luxo

Talvez seja demasiada ingenuidade da minha parte pensar que a história e a memória deveriam ter mais força do que o lucro; ou que a actual “febre” de instalar hotéis e condomínios deveria ter algum prurido e rejeitar ambientes que acumularam tanta energia negativa e de sofrimento. Penso que isso seria básico e humano. Mas não foi.

Tenho muita dificuldade em entender isso. Em compreender como poderá alguém iniciar um negócio ou escolher viver num edifício onde pessoas foram torturadas e mortas durante anos e anos. No fundo, agir como se nada ali tivesse acontecido.

Sim, eu sei que isto é um ínfimo detalhe, nada mais do que isso. E talvez muito pouco para assinalar este dia tão importante para a história de Portugal e para a liberdade então conquistada. Mas, apesar de terem passado 43 anos, simbolicamente ele tem significado.

Porque revela falta de memória, de respeito e uma profunda insensibilidade.