25 de abril

Numa época em que os extremismos de direita ganham força em Portugal e no mundo, mais do que nunca os portugueses têm o dever de recordar o dia 25 de Abril de 1974 e a Revolução dos Cravos, levada a bom termo por um grupo de militares que enfrentaram o regime vigente.

Esse dia permitiu a Portugal sair de uma longa ditadura, terminar a guerra do ultramar, dar liberdade aos presos políticos e abrir progressivamente as portas ao mundo. A democracia foi-se instalando e com ela a vontade de igualdade, a liberdade de movimento, de expressão e de escolha. Se até aí imperavam os deveres, com a revolução de Abril surgiram também os direitos, sendo que ainda hoje ambos procuram encontrar um ponto de  equilíbrio.

Nestes quarenta e sete anos, a maioria respirou essa nova liberdade de uma forma saudável. Outros porém, como sempre acontece, abusaram e continuam a usá-la em proveito próprio e distorcendo os seus valores.

Por aqui, nunca este dia será esquecido mas sempre discretamente lembrado. E faço-o muito agradecida pelo que representou nas dinâmicas do meu país (apesar dos erros que sempre se vão cometendo), mas igualmente pela liberdade de decisão e de expressão que, em última linha, permite construir, manter e partilhar espaços como este.

 
(Desenho e texto de Dulce Delgado)

a sul

Sempre que possível, eu e o meu companheiro tentamos fazer umas mini-férias antes do final de cada ano, seja como agradecimento por termos chegado até ali, seja desejando que o novo ano se revele um tempo de bons momentos, de olhares amplos e de possibilidades em aberto.

No final de 2020, devido à pandemia e às restrições de circulação previstas, tivemos apenas três dias para esse respirar, sendo o sul de Portugal a região escolhida. No plano, apenas lugares “fora da civilização” e que nos permitissem estar tranquilamente sem máscara e sem pensar no distanciamento físico, algo que se tornou uma preocupação permanente no ultimo ano. Ou seja, lugares longe de pessoas! Também a escolha de um pequeno apartamento nos permitiu não ter que ir para locais mais frequentados e, sem preocupações, usufruir das refeições já confecionadas que levamos.

As nossas explorações centraram-se em áreas de salinas e sapal localizadas entre a Fuseta e Tavira, lugares amplos, de olhar vasto e propícios à observação de aves. Este é um gosto que ambos partilhamos, o meu companheiro com mais técnica e profissionalismo, e eu de uma forma muito mais amadora, versátil e abrangente, encarando as aves como parte de uma natureza imensa e que sempre me encanta.

As imagens que se seguem revelam um pouco da paisagem que nos envolveu e, sobretudo, a beleza que os nossos olhos respiraram nesse hiato de liberdade e de pura natureza.

Termino com uma foto de várias Pegas-rabudas (Pica pica) pousadas ao amanhecer no topo de uma árvore. Quando as vi, instintivamente transportei esta imagem para a situação de grande instabilidade e insegurança que todos vivenciamos e pensei…como seria bom que nos conseguíssemos equilibrar – individualmente e como sociedade – desta forma tão tranquila e harmoniosa!

por aí…

Que prazer partilhar
um passeio pela cidade
pela serra
ou junto ao mar!

Passo a passo,
assiste-se com emoção
à lenta libertação
de pensamentos sem paz,
alicerces obscuros
de uma rotina sempre voraz.

A par dessa libertação
a conquista do lugar,
arejada sensação
de respirar com o olhar.

Completam-se com ternura
o meu e o teu olhar,
um prefere a paisagem
o detalhe
e a textura,
o outro a borboleta
ou a ave a voar!

Por fim,
prolonga-se o passeio
em palavras e imagens
semeadas com ternura
nas brancas folhas dos álbuns,
guardiões para o futuro
das memórias que já falham!

Este poema já conta alguns anos de vida, mas tem surgido amiúde no meu pensamento do decurso da actual pandemia e dos confinamentos/restrições de liberdade a que temos sido sujeitos sobretudo os fins-de semana e feriados.

Compartilho com o meu companheiro um gosto especial em andarmos “por aí” explorando novos locais ou a revisitar outros, mas com toda a disponibilidade, ao nosso ritmo e sem restrições de horários. Neste ano de 2020 essas incursões diminuíram drasticamente para um nível que desconhecíamos e limitado imenso a liberdade a que estávamos habituados.

Dadas as circunstâncias actuais sabemos ser um mal necessário. E sabemos ainda, sendo realmente objectivos, que este nosso “mal-estar” é um mal menor e um não-problema comparativamente com tantas situações difíceis que esta pandemia tem semeado pelo mundo.

Entretanto, e sempre acreditando que qualquer dia voltaremos sem restrições às nossas explorações, vamos andamos “por aí” muito pontualmente…
…passeando sobretudo com a imaginação…
…lendo e relendo a lista dos locais que esperam a nossa visita…
…revisitando lugares através dos muitos álbuns já construídos…
…e sempre, mas sempre viajando através da magnífica fonte de devaneios que é o Google Maps!

Melhores dias virão para todos nós!

um verão diferente

 

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Um tanto em contradição com a liberdade e com a vontade de exteriorização que o caracteriza, o Verão chegará hoje às 22 horas e 44 minutos de “máscara”, um tanto tímido, meio desconfiado e visivelmente inseguro quanto à forma como será vivido neste setentrional hemisfério.

Em conversa prévia com uma Primavera ainda bastante ressentida do choque vivido nos últimos meses, ele sabe que encontrará alguma contenção de gestos e atitudes, e um distanciamento que está longe da sua filosofia de vida, baseada na liberdade, na socialização, na proximidade, nos gestos fáceis, no convívio e…quantas vezes até no espírito “todos ao molhe e fé em Deus”.

Para uma grande maioria mais consciente, este será um Verão comedido e seguramente mais contido que os anteriores, seja pela forma menos calorosa de nos manifestarmos, seja pelo olhar ao canto do olho que daremos em muitos momento a fim de manter aquela segurança exigida e recomendável. Para outros porém, haverá excessos, pouco cuidado e obviamente  mais riscos associados.

O Verão percebeu durante esse diálogo entre estações que estará no seu tempo a possibilidade de se alcançar o desejado ponto de equilíbrio, como somatório de muitas atitudes conscientes e, claramente, de um desejado bom senso. Que esperemos exista.

Circunstâncias mais complexas encontrará o Inverno no hemisfério sul que hoje o recebe, já que o frio que sempre o acompanha será um factor adicional de risco. Então, que a sul como a norte, que o bom senso impere. Em prol de todos.

Que seja então o melhor Verão… ou o melhor Inverno, consoante a geo-localização do olhar que chegou a este ultimo parágrafo!

 

 

 

 

liberdade em dia

 

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Neste Dia da Liberdade…

…posso ler e pensar o que quiser,
partilhar as ideias que me apetecer,
voar com o imaginar,
e ser livre de pensamento
e com ele passear ao vento.

Porém,
neste Dia da Liberdade…

…estou presa em grades invisíveis
e isolada da comunidade,
com movimentos limitados
e liberdades impossíveis.

Hoje,
quarenta e seis anos depois
vivemos o paradoxo da Liberdade de Abril,
uma liberdade que nos limita os dias
os movimentos
e os gestos,
é certo,
mas que existe e é nossa.

Agora,
a liberdade espera-nos atrás da porta
e canta nas varandas do país,
respira na criatividade das redes sociais
revela-se em gestos generosos
nos detalhes partilhados
e vive,
segura e adulta,
nos direitos por Abril conquistados.

Hoje,
neste Dia da Liberdade
e um tanto à revelia,
a Liberdade é nossa
a Liberdade está em dia!

 

Dulce Delgado
(Portugal, 25 Abril 1974 / 25 Abril 2020)

 

 

 

 

desejando…

 

…que ele não esteja aqui!

 

 

Ele é pequenino, muito pequenino, mas está a mexer com os nossos dias, com a nossa vida e espalhando uma desconhecida instabilidade. Sentimos medo, estamos assustados e não temos a real noção do sofrimento que está a causar nem do grau de exaustão de todos os que tentam minimizar esse sofrimento.

De um momento para o outro sentimos-nos dentro de uma” bolha de vulnerabilidade” com duração indeterminada, que está a mexer com as nossas atitudes e emoções de uma forma que simplesmente desconhecíamos.

Partilho um detalhe: por amor, não aconteceu aquele abraço habitual e aquele beijo sentido que troco de uma forma efusiva com os meus filhos sempre que estou com eles. Foi um momento estranho, novo e que doeu. Mas na realidade eu não sei, e eles também não, se aquela coisa pequenina estará na nosso corpo, pele ou roupa. Então resolvemos não arriscar. Mas doeu.
A distância física tornou-se então extremamente emocional, transformou-se em energia, superou a distância e chegou ao outro como um afago invisível. Ou o afago possível.

Este novo tempo é uma estranha prova, seja a nível individual seja como sociedade. Estamos perante um tempo que exige adaptações e provoca contradições. A maior é o facto de, a par de um evidente afastamento físico estarmos mais unidos do que nunca contra uma causa comum. Na verdade aquela coisa pequenina teve o poder de neutralizar temporariamente cores partidárias, clubistas e divergências religiosas ou outras, o que não deixa de ser espantoso.

Todos sabemos que este tempo de paragem, de recato físico, de medo e de dor irá passar. Como tudo passa na vida, seja de que forma for. Mais relaxados, viveremos num planeta temporariamente mais saudável mas num tempo igualmente dramático pelas consequências económicas e sociais que este evento trará ao mundo. Contudo, há sempre um olhar, um outro olhar que é importante opor ao dramatismo de toda esta situação.

Eu preciso desse olhar. E ele diz-me…

…que sairemos disto mais maduros e conscientes da nossa fragilidade
…talvez com um maior espírito de comunidade e capazes de transformar/sublimar aquela “atenção” que agora ocupa todos os nossos sentidos, para algo mais fraterno, doce e solidário relativamente ao próximo
…mais conhecedores dos nossos limites e sentimentos, sejam eles quais forem
…com algumas dúvidas transformadas em certezas
…mais conscientes do nosso potencial criativo, algo que o “ficar em casa” certamente estimulou
…como cuidadores, talvez melhores pais pela atenção dada aos filhos…e talvez melhores filhos pela atenção recebida dos pais
…com as leituras e os filmes um pouco mais em dia
…com as gaveta e armários arrumados e a casa mais limpa
…eventualmente melhores cozinheiros
…provavelmente com muitas saudades dos empregos…

…e valorizando como nunca fizemos, a nossa rotina e a nossa liberdade!

Pela minha parte tudo farei para ultrapassar este momento sem consequências para mim e para todos os que me estão/são próximos. Veremos se aquela “coisa” pequenina concorda comigo.

Cuidem-se e cuidem dos outros. Os abraços virão depois!

 

 

 

nuvem viajante…

 

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Olhei,
e vi um pássaro gigante no céu da minha janela…

Seria uma nuvem-pássaro…
um pássaro-nuvem…
ou apenas
esta voadora imaginação?

Talvez fosse uma nuvem distraída que se perdera de outras
e veloz,
as tentasse apanhar…

…ou uma nuvem exploradora da liberdade
deambulando pela vida
pelo mundo, pelo vento
e pelo ar!
Talvez uma nuvem a viajar!

Amanhã,

também eu irei “voar” pela liberdade das férias
respirando paisagens,
olhares
e lugares
desta terra lusitana.

O corpo e a mente
precisam muito de descansar,
e o blog,
discretamente
ficará a aguardar!

 

Isto significa que nas próximas duas semanas não irei publicar nem vos irei acompanhar! Até breve!

 

(Dulce Delgado, Julho 2019)

 

 

 

pontes de liberdade

 

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Em tons de elegância, esta ponte que une as duas margens do Tejo adquiriu em 1974 o nome de “25 de Abril” em homenagem ao dia da liberdade acabada de conquistar pela revolução dos cravos.

O termo “ponte” simboliza…

…passagem e união…

Fazendo a “ponte” com a data que hoje se comemora – 45 anos sobre o 25 de Abril de 1974 – Portugal agarrou a democracia, ligou-se ao mundo e saiu de um isolamento de várias décadas. A partir desse dia e desse tempo de passagem para outro modo de estar, a união de ideias e de ideais aconteceu naturalmente, sem repressão nem medo.

…liberdade de circulação/acção/movimento…

Paralelamente, essa liberdade foi sentida no corpo e na pele, a par da liberdade de expressão e de voto, actos até aí totalmente controlados pela censura, por eleições em que apenas alguns votavam num partido único e por uma polícia política actuante e que tudo minava.

…partilha de experiências e de possibilidades….

Sobre um rio de desigualdade, de pobreza e de impossibilidades, os militares de Abril construíram uma ponte para a partilha de experiências e de possibilidades, tendo por base a liberdade e a democracia. Em pouco tempo essa ponte chegou a África e à descolonização, tornou viável a criação de um serviço de saúde universal, expandiu o ensino obrigatório e deu voz à mulher. Entre muitas outras coisas.

Quarenta e cinco anos depois, é certo que alguns problemas existem nesta “ponte de princípios” sempre em construção e precisando de constante manutenção e atenção. Mas os dois pilares principais que a sustentam, a liberdade e a democracia, estão sólidos.

E isso é o mais importante.

 

 

 

miguel torga

 

torga

 

Adolfo Correia da Rocha foi buscar o segundo nome do seu pseudónimo a um arbusto da família da urze que se desenvolve espontaneamente em terrenos pobres e agrestes. Essa planta é a torga, também chamada de queiró ou leiva, uma espécie muito resistente e lutadora, como a natureza do homem que o escritor Miguel Torga tanto admirava e valorizava.

Torga não acreditava nos Deuses nem no seu virtuosismo, porque eles não sabiam o que era uma vida de trabalho e de luta. O homem sim, sabia-o bem, porque o fazia todos os dias nas piores condições, trabalhava a terra, fazia crescer, moldava e conhecia a natureza, sofria, era um resistente e um sobrevivente. Para ele o homem merecia todos os louvores.

A sua própria vida contribuiu para esse sentir. Foi trabalhar para o Brasil aos dez anos, com a energia e a resistência das terras de Trás-os-Montes onde nasceu. Insubmisso ao que lhe pediam, voltou no ano seguinte para um seminário em Lamego que o acolheu e educou. Mas não para ser padre, porque esse não era o seu caminho.

Aos treze anos voltou para o Brasil a fim de trabalhar na fazenda de um tio. Esse familiar ao perceber o seu potencial patrocinou-lhe os estudos, primeiramente naquele país e mais tarde em Portugal, onde se formou em medicina na Universidade de Coimbra.

Começou a exercer essa actividade com 26 anos nas terras agrestes onde nasceu e que foram o grande palco da sua vida, seja como humanista junto dos mais desfavorecidos, seja como escritor, poeta e ensaísta. O que vida lhe mostrou foi moldando as suas convicções, rebeldia, inconformismo, sensibilidade e um espírito sempre livre, onde os homens, os animais e a natureza tinham um lugar especial.

Miguel Torga morreu em Coimbra em 1995, faz hoje precisamente vinte e quatro anos. Escreveu muito, publicou dezenas de livros e, como médico, proporcionou uma melhor vida e saúde a muitos dos homens e mulheres que tanto admirava.

É essa consciência do sofrimento do povo e a sua luta, que creio estarão na base de um dos seus poemas que muito aprecio, cujo título é Sífiso. 

Antes porém, e a fim de melhor o enquadrar, é importante dizer que Sífiso foi um ser da mitologia grega que por ter enganado os Deuses teve a punição eterna de empurrar montanha acima uma grande pedra. Contudo, quando estava perto do cume, uma força desconhecida fazia-a rolar até à base. Apesar disso, ele sempre recomeçava uma nova subida. O outro lado significaria talvez a liberdade, por isso Sífiso nunca desistiu.

Também na vida dos homens e das mulheres que Miguel Torga tanto admirava, tal como na vida de todos nós, as dificuldades e os recomeços são uma realidade.

Como em Sífiso ele tão bem descreve.

 

Sífiso

Recomeça…
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

 

 

Imagem retirada de:
https://observador.pt/2015/01/17/casa-museu-miguel-torga-evoca-medico-e-escritor-nos-20-anos-da-sua-morte/