pelo nevoeiro de sintra…

 

1a

 

Numa recente incursão pela Serra de Sintra, esta recebeu-nos da forma que mais aprecia: envolta em nevoeiro!

Apesar de eu não ser uma forte adepta da humidade e do frio associados a esse estado meteorológico, nesta serra tão próxima das minhas emoções ele transforma-se em magia para o olhar e preenche-o de tal forma que se torna belo, envolvente e acolhedor.

Ao atenuar os detalhes e as cores, o nevoeiro valoriza as formas e a sua expressividade…

 

2a

 

3a

 

4a

 

Mas os detalhes estão ali, agarrados aos troncos das árvores, na textura dos blocos graníticos ou no coberto vegetal do solo. Basta olhar…

 

4ab

 

5a

 

6a

 

7a

 

8a

 

9a

 

E na base de toda esta vida está a água, sempre o elemento água, que de uma forma mais ou menos visível está bem presente nesta altura do ano.

 

10a

 

Estas poucas imagens, das imensas que aqui poderiam estar, foram obtidas na periferia do Santuário da Peninha, local que fica relativamente perto do cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa Continental.

Espero que as apreciem!

 

 

 

Advertisements

a janela

 

IMG_0259a

 

“Dulce, vem … rápido… e traz a máquina!”

E eu fui, sempre pronta para a surpresa.

Pousado no exterior da janela estava este bonito insecto “pedindo” uma fotografia. Em dois cliques concretizei o intento e, em breve, ele seguiu a sua vida. E eu a minha, feliz com a “captura” e certa que teria que saber um pouco mais sobre ele, o que fiz oportunamente junto de quem poderia esclarecer a minha curiosidade.

Sendo uma apaixonada por insectos, a minha amiga bióloga olhou para esta imagem e em breve me disse que deveria pertencer à ordem Neuroptera. Uma rápida busca pela internet levou a integra-la na família Chrysopidae e pouco depois a associá-la, com alguma certeza, à espécie Pseudomallada prasinus (Burmeister, 1839).

Fiquei feliz por conhecer o nome deste elegante ser de aspecto frágil e asas rendilhadas que decidiu pousar na minha janela. Entretanto, a conversa continuou…

Dizia-me ela que a Neuroptera é uma ordem pouco estudada porque não tem grande interesse científico. A sua existência nada implica de bom ou de mau para o homem ou para a natureza, uma vez que as espécies que a integram não são nocivas nem benignas.

Isto significa que, por exemplo, não são nocivas como os mosquitos que provocam doenças como a malária e dengue, ou como as vespas e gafanhotos que podem ser bastante prejudiciais na natureza; e também não são benignas como as abelhas ou borboletas, fundamentais para a polinização, ou como as joaninhas, que são excelentes controladoras de pragas.

São, pois, uns insectos relativamente neutros e inofensivos, que andam por aí servindo essencialmente de alimento a outras espécies.

E no meu pensamento algumas relações…

Neste mundo, grande parte dos recursos disponíveis são orientados no controle do que é “mau” ou no incremento do que é “bom”, termos que são sempre bastante relativos como todos sabemos. No primeiro caso poderemos incluir as acções que fragilizam a sociedade, como a corrupção, o roubo, a agressão, o crime, as doenças, etc. No segundo,  acções como a solidariedade, a educação, a investigação ou a cultura.

Teoricamente resta um “espaço” intermédio de acções que não se encaixam nestes extremos…que contribuem para a sociedade com uma certa neutralidade e que estão associados a gente comum e algo invisível, mas…

…que não “agride” ninguém…

…está atenta aos outros…

…vive o dia-a-dia com simplicidade…

…reage perante a complexidade…

…encara a dinâmica das emoções sem interferir com os demais…

…que sabe apreciar, à sua maneira, os momentos e as “janela” que a vida lhe vai proporcionando…

…talvez como eu…

…talvez como tu…

…talvez como os insectos da espécie Pseudomallada prasinus que andam por aí voando sem grande objectivo a não ser viver…

…existir…

…dar um toque de beleza à vida, à natureza e às nossas janelas…

…até ao dia em que, de uma forma natural mas sempre inesperada, o seu ciclo terminará num “último voo” no bico de um gigante Pássaro…

 

Estarei muito errada?

 

 

(Obrigada Lília!)

 

 

 

ao outono…

IMG_3957a

Com o fim do Verão, instala-se progressivamente uma certa acalmia nas energias que nos movem.  Se por um lado sabe bem essa travagem, por outro fica um certo saudosismo do tempo que termina, um período de maior movimento, luz, cor, energia e actividade. É um tempo naturalmente diferente, porque é diferente a energia que o modela.

Apesar de estar um dia abrasador, o Outono entrou hoje no calendário e na nossa Vida. Por isso partilho um poema que, sempre que o leio, associo à energia do Outono…à energia do “olhar para trás”… da nostalgia… da saudade…e de uma certa interiorização.

Foi escrito em 1949 por Teixeira de Pascoais (1877-1952), o autor mais representativo do saudosismo português, aquele estado de alma tão associado ao nosso povo. Apesar de não apreciar muito essa visão nem a forma como por vezes ele a expressa, gosto deste poema pela simplicidade, pelo olhar sobre o tempo, seja na vida que passou ou na natureza que se modifica.

Com ele, fica o meu desejo de um Outono (que para outros será Primavera), conjugado ao gosto e ao tempo de cada um!

 

Que saudades eu sinto desta flor,
Que vai murchar!
E desta gota de água e de esplendor,
Um pequenino mundo que é só mar.
E desta imagem que por mim passou
Misteriosamente.
E desta folha pálida e tremente
Que tombou…
Da voz do vento que me deixa mudo,
E deste meu espanto de criança.
Que saudades de tudo eu sinto, porque tudo
É feito de lembrança…

 

 

Versos Pobres (LXVII) – Poesia de Teixeira de Pascoaes
Org. de Silvina Rodrigues Lopes
Lisboa, Editorial Comunicação, 1987

 

 

 

partilha

 

IMG_8827a

 

Era uma vez um bivalve pequenino, com genes de ostra.

Teve a sorte de não ser apanhado por um peixe enquanto andou livre, ao sabor das correntes ou nos fundos arenosos. Depois cresceu um pouco, chegando o momento de parar e talvez de se fixar a algo para as suas conchas desenvolver. Muito perto desse lugar estaria um búzio vazio, sem alma nem gente.

A nossa ostra começou a crescer e, nesse expandir de camadas estava a entrada do búzio. Então…porque não aproveitar e ali depositar algum carbonato de cálcio? Uma casa com anexo, não é privilégio de muitos bivalves!

Aproveitou a oportunidade…cresceu…cresceu um pouco mais…o tempo passou… e um dia, a vida que guardava….morreu!

O tempo não parou, porque o tempo nunca pára.

Naturalmente, o mar e as marés fizeram o resto separando as duas partes da ostra, que se afastaram para sempre. Uma ficou só e só estará neste mundo.

Esta não. Agarrada ao búzio, viajaram pelo mar. Muito…pouco…ninguém saberá!

Num dia do mês de Julho de 2018, as ondas do Atlântico deixaram-nas a descansar durante a maré baixa no vasto areal da ilha de Tavira, na Ria Formosa. E aqui entro eu na história…

…ao passear pela beira-mar, vi este conjunto e fiquei encantada não com a sua beleza mas com tão estranha partilha. Agarrei-a com carinho, logo com o intuito de a oferecer a uma amiga bióloga e coleccionadora de conchas, que a recebeu com muito agrado e me explicou, com mais exemplos, o processo que leva a esta partilha de corpos.

Todas as histórias têm um final. Se este é feliz…eu não sei!

Porque…

…talvez este par tivesse preferido ficar naquela beira-mar e deixar que o tempo, a natureza, um instante ou uma onda quebrasse o elo que o une… ou, quem sabe…

..talvez esteja feliz com esta inesperada longevidade, num conforto partilhada com muitas da sua família.

 

Seja qual for a verdade, obrigada Lília pelas explicações e…cuida bem deste par!

 

 

 

criativa paciência

 

6a

 

A paciência manifesta-se de inúmeras formas e põe à prova a nossa capacidade de resistir e de não desistir.
Ser paciente é igualmente uma forma de aprendizagem, que engloba não apenas o saber esperar, mas também o tolerar os outros com as suas diferenças e, mais difícil ainda, a capacidade de controlarmos as nossas impaciências.

De certa forma, a paciência também está associada ao “silêncio” da expressão artística. O acto de criar é suficientemente elástico para se situar entre a espontaneidade emocional de um momento e a elaboração detalhada e minuciosa de uma obra extremamente exigente em paciência. Neste último caso, porventura ainda associada a um trabalho prévio de procura e planeamento.

É precisamente um destes casos que quero hoje partilhar. Refiro-me ao trabalho realizado em meio natural por James Brunt, artista que encontra na natureza os materiais e o suporte para as suas mandalas. Isso é muito interessante, tal como o facto de estarmos perante obras muito exigentes em paciência mas simultaneamente efémeras, porque em meio natural os elementos e as condições não podem ser controladas. A natureza decide e…

…uma chuvada, uma rajada de vento ou uma onda rasteira nascidos de um momento…poderão, em segundos, pôr fim a horas e horas de trabalho e de muita concentração….

James Brunt é, sem dúvida, um artista com uma enorme paciência e certamente uma personalidade muito curiosa!

 

2

 

7a

 

10a

 

4a

 

5a

 

11a

 

8a

 

(Todas as imagens foram retiradas do site do próprio artista)

 

 

 

férias!

 

IMG_1398ab

 

A perspectiva de alguns dias de férias e de praia sem compromissos familiares, é estranhamente inovadora na minha vida. E libertadora!

Será um tempo de tudo e de nada, mas certamente de muito descanso, mar, ondas, areia, caminhadas, amplos horizontes, aves no olhar e, espero, com um céu muito azul a acompanhar. Se aparecerem nuvens… que passem rápido, levando o nosso desejo de boa viagem!

Seremos apenas dois, tranquilamente disponíveis. Connosco, apenas a natureza, alguns pensamentos que a mente nunca deixa ir de férias…talvez outros novos e criativos… livros…papeis, caneta e aguarelas…as máquinas fotográficas de sempre…e tempo, tempo limpo e sem relógios!

O computador irá na bagagem mas sem intenções prévias, porque a mente, o corpo e especialmente os olhos precisam de descansar de monitores. Nessa perspectiva, é muito provável que não apareçam posts nem acompanhe as vossas publicações como sempre tento fazer. Mas se tal vontade surgir, discretamente aparecerei!

Desejo um bom trabalho ou descanso e….até breve!