pela ilha da madeira (I)

Foram os históricos trilhos e veredas da Madeira, nomeadamente as chamadas “levadas” que nos levaram este ano a essa ilha atlântica, numas férias há muito pensadas mas, por diversas razões, ainda não concretizadas.

A percepção que o tempo passa demasiado rápido nas nossas vidas e que em cada ano a resistência física vai naturalmente diminuindo, fez-nos decidir que este seria o momento certo de conhecer através de caminhadas as entranhas de uma ilha que até aqui apenas nos mostrara aquela sua vertente mais turística e acessível de carro.

Pela sua localização, na ilha da Madeira as zonas mais montanhosas e situadas essencialmente a norte são bastante chuvosas, pelo que a água abunda em toda essa região, brotando de inúmeras nascentes.

Sendo este vital elemento mais escasso a sul, desde o séc. XV que os habitantes locais começaram a hercúlea tarefa de orientar essa água através de canais que percorrem as encostas das montanhas num deslizar mais ou menos suave, passando inclusivamente por muitos túneis escavados na rocha. Muitas inserem-se em vertentes de grande declive, tornando-se difícil compreender como foram aí implantadas. Sabe-se contudo, que muitos homens morreram na construção destas estruturas, obra que se prolongou até ao séc. XX.

Estes canais “domesticados”, a par das ribeiras que seguem de uma forma natural, formam um imenso aparelho circulatório que permite que a água chegue a quilómetros e quilómetros de distância para posteriormente ser gerida com responsabilidade e democraticamente aproveitada por todos para a agricultura.

Nas muitas pesquisas que fiz antes de férias li que existem cerca de duzentas levadas na ilha, totalizando mais de 2000 Km. Isto permite perceber a importância que conquistaram ao longo dos séculos na tarefa de gestão da água e dos solos cultiváveis. Em média, esses canais terão talvez entre 50 a 90 centímetros de largura e, uma mesma levada, pode ter alturas/profundidades diferentes consoante a zona por onde passa. Por vezes correm em declives acentuados através de escadarias, dando origem a uma ruidosa sequência de cascatas. Em resumo, são uma fabulosa obra de engenharia tendo em conta a orografia da ilha e as circunstâncias em que se inserem.

Lateralmente a essas levadas existe um espaço para circulação, a chamada “esplanada”, que varia muito em largura, sendo por aí que os trilhos foram maioritariamente traçados. Nos percursos que realizamos, com grau médio de dificuldade (não fizemos nenhum considerado dificil), o cruzamento de caminhantes não criou problemas de maior, apesar de haver muitas zonas em que o espaço disponível era bastante estreiro. Nessas situações há que perceber previamente onde parar ou encostar de modo a evitar situações de instabilidade ou desequilibrios.

São percursos que exigem atenção e cuidado, especialmente porque os terrenos têm muitas raízes e são escorregadios devido ao excesso de humidade. Mas não os sentimos como perigosos, seja porque os trilhos estão muito bem sinalizados, seja por existirem protecções estáveis e seguras nos locais adjacentes a precipícios. Essencialmente, é necessário ter muito respeito pelas caracteristicas do lugar onde estamos.

Outro tipo de trilhos existentes na ilha são as chamadas “veredas”, percursos onde a água pode não estar directamente presente, mas são igualmente muito bonitos. Neles encontramos imagens encantadoras e quase mágicas, especialmente de majestosas árvores,

A grande magia dos percursos desta ilha está na paisagem mas especialmente na flora exuberante e endémica que os envolve, a chamada floresta Laurissilva da Madeira. Ocupa cerca de 20% do território e pelas suas características, foi englobada na lista de lugares do Património Mundial Natural da UNESCO.

Foi portanto neste contexto de uma natureza quase “histórica” que passamos os primeiros nove dias das nossas férias…

… entre muito verde e água, envoltos em sol, nuvens, nevoeiro e também alguns chuviscos

… deixando entrar no olhar vastos lugares e detalhes encantadores

…acumulando nas pernas e no corpo dezenas de quilómetros, muitas subidas e descidas, mas tudo envolto num saudável e doce cansaço

… e especialmente sentindo uma imensa alegria e gratidão por, dia a dia e na altura certa, termos cumprido sem contratempos um dos itens presentes na nossa “lista de desejos”.

Em próximos posts voltarei a estas férias, com outras perspectivas, detalhes e mais imagens.

(As fotos onde eu estou presente foram captadas pelo meu companheiro Jorge Oliveira)

26 thoughts on “pela ilha da madeira (I)

    1. Eu diria que só agora, com esta viagem, é que fiquei /ficamos a gostar muito da Madeira. Até aqui apenas gostava. Creio que ainda não lhe conhecia a “alma”…
      Obrigada e bom fim-de-semana!

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  1. Excelente descrição completada por belas fotos de um pedaço muito querido do nosso país. As levadas e a paisagem são obras monumentais do homem e da natureza dignas de toda a admiração. Obrigada Dulce por partilhar e me levar de novo à maravilhosa Ilha da Madeira.

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  2. Recordo em algumas das suas fotos a nostalgia de umas férias bem passadas nessa ilha….É de facto encantadora e com recantos de saudável felicidade.
    Obrigada por esta partilha, Dulce.
    O seu texto e as fotos que o acompanham são muito enriquecedoras 💙

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  3. Uau! As fotos são óptimas, passam muito bem para este lado toda a densidade e frescura dessa ilha… Aguardamos mais posts sobre estes dias 🙂

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  4. Ah, Dulce, what a delight! Thank you for giving your followers this informative glimpse into a special place – not to mention the photos of the two of you. I already wanted to see Portugal and now I want to go to the Laurissilva, too. Such wonderful trees, ferns, fog, water and flowers. I can’t say enough. 🙂

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    1. I have no doubt that you would love to get to know Madeira and especially these more humid and detailed places in the interior of the island.
      It’s a place to go with an open mind and to do what’s planned whether it’s sun, rain or fog. Because the weather usually changes later!
      Thank you very much!

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    1. Desde que iniciei o blog em 2016, esse tipo de registos/cadernos não mais aconteceram. A criatividade centrou-se no blog e quando chega às férias não quero fazer nada a não ser descansar, passear sem procupações e tirar fotos, o que também é um prazer para mim.
      Na verdade não consigo ter tempo para tudo!
      Talvez quando me aposentar, daqui a dois anos, o ritmo e o tempo me permitam voltar aos registos com mais assiduidade. Pelo menos a intenção é essa.
      Muito obrigada Silvana e desejo um bom fim-de-semana!

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