esperança primaveril

Com a Primavera que hoje se iniciou às 9h 37m (a.m.), hora de Portugal, chegam os dias maiores e mais luminosos, uma natureza vestida de cor e, em cada detalhe, muita vida em latência brotando para um novo ciclo.

Todavia, apesar de tudo isso sempre me encantar, associo muito esta Primavera a uma “Esperança de Equilíbrio”…a um tempo-força que nos deixará mais próximo de uma estabilidade que acredito será possível nos próximos meses com o controle da pandemia pela vacinação.

E na sequência disso…

…a possibilidade de retornar, mesmo que lenta e progressivamente aos ritmos e gestos conhecidos

… aos afectos sentidos na pele

…à emoção das palavras e gestos sem máscaras

…à espontaneidade social

…aos passeios que não se fizeram

…às rotinas que deixaram saudades

…etc.

Para os que perderam o emprego, a habitação ou algum familiar/amigo durante a pandemia, ou para os que adoeceram e ainda não recuperaram totalmente, talvez os detalhes acima sejam um pouco secundários. Para eles, o equilíbrio estará em arranjar um novo emprego que lhes assegure o que tinham antes, no restabelecimento da saúde, ou no tempo interior necessário ao luto e à aceitação da perda.

Caberá a cada um perceber o que deverá colocar nos “pratos da balança da sua Vida”, para que a estabilidade se instale e seja real. Se for necessário ir à luta, mas sempre tentando envolver essa procura de esperança e de energias construtivas…

…como a boa energia que a Primavera gratuita e silenciosamente nos oferece todos os anos.

Boa Primavera!

(Que esta “esperança de equilíbrio” seja imensa e se estenda igualmente aos meus leitores do hemisfério sul que hoje abraçam o Outono! ) 

nevoeiros…

Nos últimos dias a zona ribeirinha de Lisboa não viu o sol matinal. Cobria-a um denso e cinzento banco de nevoeiro que apenas deixava visíveis os topos da Ponte 25 de Abril e do Cristo-Rei.

Sempre que tal sucede, de caminho para o trabalho penetro nessa massa que aí se adensa. Hoje mais uma vez isso aconteceu…. e eu mais uma vez levei o corpo e os pensamentos a passear pelo nevoeiro…

Individualmente ou como parte da sociedade, na vida de todos nós surgem momentos complexos, seja porque nos “enganamos” no caminho, seja porque as circunstâncias exteriores se alteraram bruscamente e nos afectam. Como por exemplo, a crise pandémica que estamos a viver. Naturalmente surge a indefinição, a confusão, o receio e amiúde a falta de perspectivas, por vezes o mais difícil de lidar.

Perante o nosso olhar esbatem-se os caminhos, as ligações, pontes e soluções. Tudo é neutro, de uma “beleza” neutra que nem sempre conseguimos compreender.

Na verdade, o que era dado como certo e quase inquestionável pode, de um momento para o outro desaparecer, alterar-se, entrar em rotura, esfumar-se. Tal como desapareceu no denso nevoeiro, metaforicamente falando, a Ponte 25 de Abril, o ex-libris desta zona ribeirinha de Lisboa e que num dia normal estaria presente na maioria das imagens que se seguem.

Como resposta, é fundamental não perder as referências interiores e algumas exteriores, porque elas sempre existem, mesmo que perdidas nos meandros dos imprevistos e dos “nevoeiros”.

Há que acreditar, continuar a caminhar, fixar objectivos, rever perspectivas e, se necessário, “correr” um pouco mais, mesmo que mais devagar. Eventualmente ter a humildade de pedir ajuda se o cansaço e a desorientação for demais. E ter fé, seja em que tom for essa fé.

Este nevoeiro, tal como os nevoeiros da Vida sempre se dissipam. Porque o sol está lá e aparecerá. Assim como surgirão as respostas, os caminhos e até as pontes, seja as que ligam margens de rios, que nos ligam a nós próprios ou as que nos mantêm ligados ao mundo.

Assim é a Vida, entre margens e em nós. Tal e qual.

porquê?

 

ghouta

 

Há dias que nascem para pôr à prova a nossa capacidade de acreditar. São uma espécie de “teste” à nossa estrutura emocional, uma vez que facilmente nos levam a por em causa ideais que fomos construindo ao longo da vida. No fundo, eles desacreditam o nosso acreditar e quase neutralizam a esperança que está na sua base.

Posto isto…

…perante as imagens a que temos assistido diariamente nas televisões sobre a guerra em curso no enclave sírio de Ghouta, região onde a vida humana deixou de ter qualquer valor para os interesses aí instalados e, pior ainda, onde as soluções para um cessar fogo emitidas pela maior organização mundial de nações (ONU), não tem qualquer efeito no terreno e é totalmente desrespeitada;

… perante a crueldade humana que decide executar por injecção letal um condenado à morte portador de uma doença terminal, acto que não foi consumado depois de várias tentativas falhadas de encontrar uma veia capaz de receber o cateter, o que o deixou com várias feridas e uma condenação à morte adiada….

Que podemos sentir? Em que podemos acreditar?

Estas duas realidades, que representam apenas uma amostra do que se passa pelo mundo, acontecem agora, em pleno séc. XXI. O primeiro caso num país que está há sete anos em guerra, quase destruído e com um povo que é massacrado todos os dias; a segunda situação ocorreu no estado do Alabama, nos EUA, país na vanguarda do desenvolvimento tecnológico, mas um dos que mais viola os direitos humanos, inclusivamente aplicando a pena de morte.

Não, eu não quero perder a fé na humanidade, mas a desumanidade que entra pelos nossos olhos é tanta, que abanamos como uma árvore perante um vento forte. Eu não quero generalizar este desencanto, nem sequer o medir, porque no meio desta frieza sei que ainda há calor humano, solidariedade e a capacidade de tantos em ajudar outros, minimizando situações extremas que vão ocorrendo.

Nestes dias não há poesia nem poemas, não há céu azul, ideias ou imaginação. Não há acreditar. Há imagens, reais como a que inseri no início deste post ou construídas a partir de palavras lidas, que se colam de tal forma à nossa mente que não deixam espaço para mais nada. Por vezes, até nos levam a pôr em causa o caminho que seguimos, pela “futilidade” que representa perante as realidades deste mundo.

Um dos meus lemas principais de vida é “tudo passa”. Porque a vida é dinâmica, não estagna e algo diferente virá a seguir, seja melhor ou pior. E nós adapta-mo-nos constantemente a essa mudança e a novos sentires. No presente, “a minha árvore” está triste e a abanar, mas preciso de acreditar que tudo vai passar e que as suas raízes são suficientemente profundas para a segurar.

 

 

Imagem retirada de
https://www.washingtonpost.com/world/middle_east/violence-rages-unabated-in-ghouta-as-syria-defies-un-ceasefire-resolution/2018/02/25/9a4fc244-1a51-11e8-98f5-ceecfa8741b6_story.html?utm_term=.66036eb939c2